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Progressão da hepatite C para a cirrose descompensada e mortalidade - AASLD 2014
O motivo pelo qual devemos lutar para tratar a hepatite C quanto antes

22/12/2014

Um estudo realizado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos analisou a doença hepática nos infectados com hepatite C para determinar a progressão dos danos ao fígado, a cirrose, a descompensação da cirrose, o câncer de fígado e a mortalidade.

A progressão da doença pode levar anos ou décadas, mas a deterioração da função do fígado é evidente. Um tratamento de sucesso que leve à resposta sustentada, considerada a cura da hepatite C, pode retardar ou parar a progressão dos danos ao fígado, inclusive permitindo certo grau de recuperação da fibrose ou cirrose.

Durante anos o tratamento utilizando interferon, um tratamento longo e com muitos efeitos adversos e colaterais, conseguia curar aproximadamente a metade dos infectados, motivo pelo qual somente era recomendado apenas a pessoas com evidencia de dano hepático avançado, em geral com fibrose F3 ou cirrose.

Com a chegada dos tratamentos orais de ação direta e livres do interferon os tratamentos passam a ser altamente eficazes e bem tolerados. Inicialmente o pacientes beneficiados deverão ser os que apresentam dano hepático avançado (fibrose F3 ou cirrose), os que não responderam ao tratamento com interferon, os intolerantes ao interferon, os co-infectados e os que apresentam comorbidades que aceleram a progressão da doença. Paulatinamente o tratamento deve obrigatoriamente ser oferecido a pacientes com fibrose moderada (F2) e a seguir aos que apresentam fibrose mínima ou nenhuma fibrose.

A análise do CDC inclui 2.839 infectados com hepatite C que realizaram biopsia do fígado entre os anos de 2001 e 2012, antes de apresentar sintomas de descompensação da cirrose e que nunca antes receberam qualquer tratamento antiviral.

Entre os pacientes, 42% (1.204 pacientes) apresentavam fibrose mínima (F1) ou nenhuma fibrose (F0), 29% (810 pacientes) se encontravam com fibrose F2, 16% (461 pacientes) com fibrose avançada (F3) e 364 tinham cirrose (F4).

Durante um período de 5,5 anos os infectados foram acompanhados. A descompensação foi definida como uma primeira ocorrência de hipertensão portal, ascite (acúmulo de líquido abdominal), varizes esofágicas (veias dilatadas no esôfago), encefalopatia hepática ou insuficiência hepática com síndrome hepato-renal.

No período de 5,5 anos, entre os que na biopsia inicial já se encontravam com cirrose, 29% tiveram episódios de descompensação, 11% desenvolveram câncer de fígado, 5% receberam um transplante de fígado e 23% morreram devido a qualquer causa, não somente por culpa da hepatite C.

Entre as pessoas com fibrose avançada (F3) ao realizar a biopsia foi observado que no período de 5,5 anos 12% desenvolveram cirrose e descompensaram, 5% desenvolveram câncer de fígado, 2% foram submetidos a um transplante de fígado e 11% morreram devido a qualquer causa, não somente por culpa da hepatite C.

Entre as pessoas com fibrose moderada (F2) ao realizar a biopsia foi observado que no período de 5,5 anos 4% desenvolveram cirrose e descompensaram, 1% desenvolveram câncer de fígado, 1% foram submetidos a um transplante de fígado e 6% morreram devido a qualquer causa, não somente por culpa da hepatite C.

Um dado alarmante mostra que 62% dos pacientes com cirrose, 72% dos com fibrose avançada (F3) e 46% dos com fibrose moderada (F2) nunca foram tratados após a realização da biopsia inicial.

Os pacientes tratados com interferon em terapia dupla ou tripla, entre os cirróticos a cura foi de 47% dos tratados, entre os com fibrose avançada (F3) a cura foi de 55% dos pacientes e entre os com fibrose moderada (F2) a cura foi de 75% dos tratados.

Nos pacientes com cirrose ao se comparar os que receberam tratamento com aqueles nunca tratados se observa em sete anos de acompanhamento que 50% dos não tratados descompensaram a cirrose contra 25% entre os que receberam tratamento. O câncer de fígado nesse grupo com cirrose aconteceu em 15% dos pacientes não tratados contra 7% entre os tratados nos sete anos de acompanhamento.

Nos pacientes com fibrose avançada (F3) ao se comparar os que receberam tratamento com aqueles nunca tratados se observa em sete anos de acompanhamento que 25% dos não tratados descompensaram a cirrose contra 10% entre os que receberam tratamento. O câncer de fígado nesse grupo com cirrose aconteceu em 7% dos pacientes não tratados contra 4% entre os tratados nos sete anos de acompanhamento.

Nos pacientes com fibrose moderada não foi encontrada uma diferença significativa no acompanhamento durante sete anos entre os que receberam tratamento e os que não foram tratados, com menos de 4% de descompensação da cirrose menos e de 2% de casos de câncer.

Concluem os pesquisadores que pessoas com fibrose avançada ou cirrose estão em risco substancial de sofrer complicações relacionadas com o fígado, devendo receber tratamento quanto antes.

MEUS COMENTÁRIOS

É assustador comprovar que em cinco anos quase um terço os infectados com cirrose e 12% dos infectados com fibrose avançada (F3) chegaram a apresentar sintomas de descompensação da cirrose e que 23% dos com cirrose e 11% dos com fibrose F3 morreram devido a qualquer causa, não somente por culpa da hepatite C.

Ao realizar uma analise multivariada se observa que um infectado com hepatite C com cirrose têm aproximadamente 5 vezes mais probabilidade de sofrer uma descompensação que um paciente com fibrose F3 e, os com fibrose F3 tem aproximadamente três vezes mais de probabilidades que os com fibrose F2.

O tratamento utilizando interferon combinado a ribavirina, com ou sem boceprevir ou telaprevir, mostra enfaticamente o beneficio de tratar um paciente quando ainda está com fibrose moderada (F2) já que nesse estagio da doença a possibilidade de cura da hepatite C é 60% superior que ao se esperar para tratar a hepatite C quando o paciente já chegou a cirrose, ou, ainda, 37% maior que aguardar o paciente piorar seu estado de saúde para receber tratamento somente quando estiver com fibrose avançada (F3).

Os números são um importante indicador que mostram que temos que lutar para que os infectados com hepatite C sejam diagnosticados quanto antes e que todos recebam tratamento com os novos medicamentos de uso oral livres de interferon.

Este artigo foi redigido com comentários e interpretação pessoal de seu autor, tomando como base a seguinte fonte:
Mortality and progression to decompensated cirrhosis in chronic hepatitis C patients with liver biopsy confirmed fibrosis in the Chronic Hepatitis Cohort Study (CHeCS) ´ AC Moorman, F Xu, X Tong, et al. - AASLD 2014 - Abstract 174.


Carlos Varaldo
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