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Comentários do 19º Workshop Internacional de Hepatites Virais de Pernambuco e 8º Simpósio de Transplante Hepático e Hipertensão Porta - Brasil/Inglaterra

08/05/2015

Aconteceu de 5 a 7 de maio o "Hepato Pernambuco", um evento que ganha relevância ano a ano aumentando o interesse dos profissionais da saúde. Este ano, com 218 participantes o auditório ficou lotado.

Por problemas de agenda estive ausente do primeiro dia, quando foi discutido sobre a Doença Hepática Gordurosa, Hemacromatose, Doenças Metabólicas, Hipertensão Portal e os Desafios dos Transplantes Hepáticos no Século 21.

O segundo dia foi dedicado as hepatites B e C e aos desafios que o ministério da saúde deverá enfrentar para o tratamento da hepatite C no Brasil.

Convidados internacionais:
Antonelo Pietrangelo - Itália
Arun Sanyal - EUA
Hector Vilca-Melendez - Reino Unido
Nigel Heaton - UK
Richard Sterling - EUA

HEPATITE B
(Moderadores, Dr. Victorino Spinelli e Dra. Ana Ruth)


A duvida para os médicos não especialistas é saber quem deveria ser tratado. A Dra. Cirley Lobato fez uma excelente comparação entre os diversos consensos e protocolos, o Europeu, o Asiático e o Americano e os comparou o atual protocolo de tratamento no Brasil, ficando claramente demonstrado a urgente necessidade de uma revisão e atualização da nosso protocolo, incluindo, também, a hepatite Delta.

A Dra. Deborah Crespo falou sobre quando é possível parar o tratamento, explicando que a situação ideal seria o infectado apresentar HBeAg Negativo com a transaminase ALT em níveis normais e carga viral que dependendo do caso pode se encontrar negativa ou positiva.

Mas tudo depende de escolher a terapia ideal. O tratamento com interferon peguilado poderia ser considerado o ideal, pois é um tratamento de duração determinada (1 ano) já que os tratamentos com medicamentos orais são de longo prazo, em alguns casos pelo resto da vida. No tratamento com interferon peguilado aproximadamente um terço dos tratados conseguem a soroconversão do ANTI-HBe.

As recomendações sobre quando parar e passar a observar a reação do vírus é aos três meses após a soroconversão do ANTI-HBs ou 12 meses após a soroconversão do ANTI-HBe naqueles que não acontece a perda do HBs-Ag.

O Dr. Wolnei Braga falou sobre tratamento "preemtptivo" que considera quem deveria ser tratado antecipadamente, antes do recomendado pelos consensos e protocolos, explicando que quando existe alto risco de infecção grave o tratamento deve ser indicado.

Todos os pacientes que são submetidos a tratamentos utilizando imunossupressores, quimioterapia ou alguns medicamentos biológicos devem receber tratamento antecipado e permanecer em tratamento até 12 meses após a quimioterapia ou o uso dos imunossupressores.

O Dr. Mario Reis falou sobre o tratamento da hepatite B em pacientes transplantados de fígado ou de rins. Explicou que o vírus da hepatite B realmente não vai embora, que ele é controlado, por tanto o uso de imunossupressores em transplantados pode reativar uma infecção passada, já considerada controlada. Todo transplantado deve receber tratamento da hepatite B para evitar a reativação, tratando antes e após o transplante.

Finalmente a Dra. Dominique Muzzillo apresentou os desafios atuais e futuros no tratamento da hepatite B, ficando como uma grande esperança que algumas das 22 drogas que se encontram em fases avançadas de pesquisas cheguem ao mercado nos próximos anos, provavelmente causando uma revolução como esta acontecendo na hepatite C e seja possível poder se chegar à cura da hepatite B.

HEPATITE C - MESMA DOENÇA, UMA NOVA VISÃO.


A Dra. Fernanda Monteiro e o Dr. Arun Sanyal (Estados Unidos) apresentaram a verdadeira revolução que os novos medicamentos estão ocasionando na hepatite C, a qual agora passa a não ser mais considerada como uma doença crônica e passou a ser uma doença curável.

A seguir, com a Coordenação da Dra. Leila Beltrão Pereira e Dr. Mario Reis foi realizada uma mesa redonda.

O Dr. Richard Sterling (Estados Unidos) falou dos novos medicamentos para tratamento da hepatite C e como podem ser utilizados. Em alguns países não todos estão ainda aprovados, mas é evidente que não existe outro caminho que não seja o seu uso, pois é possível negociar o preço com os fabricantes e substituir os tratamentos atuais que passam a ser considerados como ineficazes.

A maioria dos tratamentos passam a ser realizados em somente 12 semanas de duração.

O Dr. André Lyra teve um tema difícil de defender, pois deveria falar se ainda existe espaço para usar o interferon peguilado na era das novas medicações.. Mostrou o difícil que seria a tarefa quando existem medicamentos que em média curam mais de 90% dos infectados. Mas em alguns casos o interferon peguilado poderá ser utilizado, por exemplo, se utilizar a combinação sofosbuvir/interferon peguilado/ribavirina, 92% dos infectados com o genótipo 1-a conseguem a cura e no caso de infectados com o genótipo 1-b a cura é de 82%, mas se utilizar a combinação de simeprevir/interferon peguilado/ribavirina nos infectados com o genótipo 1-b a cura chega aos 90% nesses infectados.

Portanto, tudo vai depender da possibilidade de pagar tratamentos livres de interferon ou continuar utilizando em combinação com os novos medicamentos, por períodos curtos, de somente 12 semanas em vez das atuais 48 semanas.

A Dra. Rosangela Teixeira teve que falar sobre se ainda há espaço para a utilização de boceprevir e telaprevir na era das novas medicações. Outro desafio, mas que evidentemente não mais se justifica o uso desses medicamentos existindo a possibilidade de ter acesso aos novos medicamentos.

Finalmente o Dr. Edson Parise falou sobre quais devem ser as recomendações de tratamento para infectados com grau de fibrose F2, defendendo enfaticamente a necessidade de serem incluídos nos consensos e protocolos de tratamento. Os motivos: a resposta terapêutica é maior e se evita a progressão da doença para níveis mais graves, quando os custos da saúde pública serão maiores devido a consultas, exames, internações e, pior ainda, a uma possibilidade menor de cura.

O Dr. Evaldo Stanilau falou sobre as recomendações do tratamento da hepatite C em pacientes coinfectados com HIV (AIDS) mostrando que a progressão da doença hepatite é acelerada nesses casos, defendendo que todos os co-infectados devem ser tratados imediatamente, sem necessidade de comprovar pela biopsia o grau de fibrose.

O Dr. André Lyra apresentou as dificuldades de resposta terapêutica com os novos medicamentos no tratamento do genótipo 3, antes considerado fácil de tratar passou agora a ser o mais difícil de responder, mas dados de estudos recentes mostram que o tratamento será possível com possibilidades de cura de mais de 90% nos pacientes sem cirrose e um pouco menor de chances nos com cirrose.

A Dra. Rosangela Teixeira falou sobre o tratamento da hepatite C em pacientes com insuficiência renal crônica, mostrando que naqueles que não realizam dialises o tratamento pode ser realizado dependendo do nível de creatinina utilizando interferon peguilado e regulando a dosagem da ribavirina. Em pacientes em dialise pode ser utilizado a monoterapia com interferon peguilado sem ribavirina durante seis meses.

Mas os medicamentos orais livres de interferon passam a ser a opção ideal.

O Dr. Richard Sterling (Estados Unidos) tratou do tratamento da hepatite C em infectados com cirrose descompensada, explicando ser possível realizar o tratamento com alguns dos novos medicamentos orais livres de interferon.

Finalmente o Dr. Marcelo Naveira, coordenador de Hepatites do Departamento DST/AIDS/HEPATITES do ministério da saúde falou sobre os desafios de hoje e amanhã do ministério da saúde para o tratamento da hepatite C no Brasil, realizando uma longa e detalhada explicação de tudo o que está sendo trabalhado em nível de ministério da saúde, estados e municípios. Falou sobre o novo protocolo, o qual seria avaliado pela CONITEC no dia seguinte.

A reação dos participantes foi altamente positiva, pois a maioria desconhecia os dados e ações que se encontram em andamento.

UM PUXÃO DE ORELHAS AO DEPARTAMENTO

Fiquei surpreso com o desconhecimento dos professionais de saúde das ações que estão sendo realizadas pela gestão atual do Departamento, inclusive da sua estrutura. A maioria desconhece que agora existe um grupo de técnicos dedicados exclusivamente ao enfrentamento das hepatites e não tem informações sobre o trabalho e planejamento que está sendo realizado.

O Departamento reúne regularmente as coordenações estaduais e municipais de hepatites, mas o que é discutido não esta chegando a ponta, isto é, aos professionais de saúde e consequentemente aos infectados. A imagem que se tem por falta de divulgação é que muito pouco está sendo feito.

Sugiro que as informações seja divulgadas em textos simples, fáceis de entender, e que as sociedades médicas, associações de pacientes e as coordenações estaduais e municipais façam chegar aos profissionais de saúde tais informações.


PESQUISA


No último dia já no auditório do prédio do Instituto do Fígado e Transplantes de Pernambuco - IFP - os temas foram mesas de discussão sobre câncer de fígado, a elastografia nas complicações da cirrose e a radiologia na hepatologia. Dois temas que me abstenho de comentar por se tratar de assuntos altamente especializados, altamente complicados e as colocações de um leigo poderia levar a interpretações erradas.

COMENTÁRIOS FINAIS

O último dia o evento aconteceu no prédio do Instituto do Fígado e Transplantes de Pernambuco - IFP - onde foi possível conhecer a extraordinária instalação existente. Contando com todos os equipamentos necessários, até um tomógrafo de última geração, seis consultórios, salas de radiologia, ultrassom, radiologia, endoscopia, etc. e mais de 45 profissionais, o IFP já é referencia em tratamento das hepatites e transplantes de fígado para o nordeste e norte do Brasil. Ao mesmo tempo, em parceria com o Kins College de Londres passou a ser uma instituição de ponta na pesquisa das doenças do fígado.

Na parte da manhã, junto com a ONG YURA-NA de Tabatinga - Amazonas, visitamos as instalações da ONG de recife, o NAPHE - Núcleo de Assistência aos Pacientes Hepáticos, ligada ao IFP, onde conhecimos as excelentes instalações de casa de apoio para pacientes do interior do estado e de outros estados do norte e nordeste, um lugar completo, com quartos, refeitório, espaço de lazer e todas as comodidades para hospedar os pacientes. Obrigado Lais pela boa recepção.

Carlos Varaldo
www.hepato.com
hepato@hepato.com


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