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Portugal, primeiro país do mundo a completar o tratamento de TODOS os infectados com hepatite C

10/12/2015

Estive mais uma vez em Lisboa para participar do 3º Congresso Nacional SOS Hepatites. Este ano com o tema "Rastreio é a Palavra de Ordem".

O tema não somente é adequado para o momento atual da hepatite C no país como é importante e urgente, já que Portugal é o primeiro país do mundo que esta completando o tratamento de TODOS os infectados com hepatite C, estejam eles com qualquer grau de fibrose, inclusive aqueles com fibrose F0.

Fico extremamente feliz com a luta coordenada pela SOS HEPATITES, uma ONG que ajudei a criar quando o Val teve a iniciativa e que após sua morte a guerreira Emília Rodrigues, em memória ao Val, tomou a luta como sua. Considero a SOS HEPATITES uma filhota do Grupo Otimismo e eles me consideram seu pai. Foi uma semente que germinou dando excelentes frutos.

Lembro que há dois anos, durante o primeiro congresso, a discussão era para conseguir tratamento com os inibidores de proteases boceprevir e telaprevir e os deputados presentes no evento não queriam sequer dialogar devido ao custo que representavam os tratamentos, mas agora tudo mudou e Portugal dá o exemplo ao mundo mostrando que com determinação é possível eliminar a hepatite C.

Tudo foi resultado da pressão coordenada por SOS HEPATITES que contou com a efetiva e total participação de centenas de infectados, mobilização que conseguiu mudar o posicionamento dos governantes. Tudo começou após uma tumultuada reunião na Assembléia Nacional e, conjuntamente com a participação de um conhecido advogado que publicamente ameaçou processar o ministro da saúde por crime, alegando que não estavam sendo oferecidos os tratamentos aos infectados. Com a ampla visibilidade que o assunto tomou na mídia o governo achou conveniente sentar-se à mesa com todos e negociar o preço dos medicamentos com os fabricantes.

Foi então assinado o compromisso governamental de eliminar a hepatite C em Portugal com a decisão de tratar a todo e qualquer infectado. Colocando essa meta passou-se a negociar com os fabricantes (neste assunto a sociedade civil decidiu não participar da negociação), conseguindo com um dos fabricantes um preço conveniente, possível no seu orçamento.

Em Portugal pela negociação estão aprovados o sofosbuvir e o Harvoni ®. Os medicamentos Viekira Pak ®, simeprevir e daclastavir, aprovados na União Européia podem ser receitados, mas devido ao custo a solicitação deve passar por um processo burocrático de aprovação, o que pode levar meses. Na negociação Gilead ofereceu o preço mais baixo com os medicamentos sofosbuvir e Harvoni ® o que levou o governo a decidir que esses dois medicamentos estariam numa lista de medicamentos de fácil acesso. Quando o paciente recebe a receita para sofosbuvir ou Harvoni ®, entra em tratamento em aproximadamente 30 dias. Caso a receita inclua os medicamentos de maior custo o tramite deverá seguir o fluxo normal de aprovação, bastante burocrático e demorado.

Assinado o contrato com Gilead já nos primeiros 12 meses todos os infectados conhecidos receberam o tratamento . Nos últimos 10 meses 7.000 infectados já foram tratados com os medicamentos livres de interferon, basicamente sofosbuvir e Harvoni ® pela facilidade de acesso e, todos os diagnosticados que ainda faltam tratar, estimados em aproximadamente 5.000 receberão tratamento nos primeiros meses de 2016 completando uns 12.000 tratamentos.

A estimativa é que existam em Portugal entre 100.000 e 150.000 infectados com hepatite C. Uma vez tratados todos os já diagnosticados o desafio passa a ser encontrar aqueles que não sabem da sua infecção com a hepatite C.

Esse foi o motivo do tema do congresso "RASTREIO É A PALAVRA DE ORDEM - HEPATITES: QUANTOS SOMOS" durante o qual discutimos formas de implementar programas e estratégias para encontrar os infectados (em tempo: RASTREIO é sinônimo de testagem, diagnostico ou screening).

Conferencistas da Finlândia, Roménia, Brasil (eu), pesquisadores, sociedades científicas, representantes do governo e sociedade civil apresentaram experiências e projetos de diversos países com a intenção de ajudar Portugal a elaborar um Plano de rastreio (campanhas de testagem) efetivo para encontrar e oferecer tratamento ao maior numero possível de infectados com hepatite C, objetivando erradicar a hepatite C no país.

Fica então um exemplo que outros países poderão seguir. Se existe um plano de hepatites pelo qual um governo se compromete a oferecer tratamento a todos os infectados os fabricantes estão dispostos a colaborar e discutir um preço que seja factível sem comprometer o orçamento da saúde.

Seguindo o exemplo de Portugal qualquer país que deseje enfrentar a hepatite C é só querer, ter vontade política e responsabilidade social. Não que o plano português possa ser copiado integralmente já que cada país tem normas orçamentarias, de legislação diferente e sistemas de saúde diferentes, mas as condições estão postas. É possível enfrentar a hepatite C negociando com todos os atores envolvidos.

Resumindo, se existir pressão por parte dos infectados e das sociedades médicas e as associações de pacientes se preocupam e lutam realmente na defesa dos pacientes é possível conseguir que os governantes tomem como desafio oferecer tratamento para todos implementando planos de erradicação da hepatite C, mas se todos ficam esperando sentados que as coisas se resolvam espontaneamente certamente nada vai mudar.

Parabéns Portugal!

Carlos Varaldo
www.hepato.com
hepato@hepato.com


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