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HCV 2020- Fórum 2016

07/03/2016

(3 e 4 de março de 2016 - Barcelona, Espanha)

O HCV 2020 é um evento direcionado aos países do hemisfério norte (América do Norte, Europa e Euro-Ásia) reunindo pesquisadores, governos e a sociedade civil com o objetivo de discutir a hepatite C na região e compartilhar experiências. Nos países da região novos casos de infectados continuam a crescer de forma alarmante devido a que os usuários de drogas a utilizam de forma injetável, uma condição que Brasil e a maioria dos países da América do Sul afortunadamente não vivenciam.

Com a chegada dos medicamentos de ação direta livres de interferon novos planos de enfrentamento da epidemia são necessários, sendo necessário discutir e refletir para encontrar formas de melhorar a qualidade de vida das pessoas vivendo com hepatite C, planos esses que devem ter sustentabilidade a longo prazo.

Charles Gore da World Hepatitis Alliance e Dr. Markus Peck do EASL colocaram que agora existe a cura para mais de 90% dos pacientes, mas por ser uma doença onde 80% dos infectados são assintomáticos o grande desafio passa a ser como encontrar esses infectados. Pior ainda, na maioria dos países desafortunadamente existem barreiras no acesso ao tratamento, no estigma, na discriminação, na inanição dos governos e no registro e preço dos medicamentos, o que impede o acesso aos tratamentos. São necessárias mudanças e para tal o "advocacy" da sociedade civil e dos infectados é fundamental para conseguir avanços.

Dr. Rafael Bengoa explicou que o HCV 2020 é uma janela de oportunidades para que outros países repliquem experiências de sucesso que são apresentadas no evento, alertando que não mais se justifica que alguns países continuem ignorando a epidemia.

Dra. Sabela Lens apresentou um inquérito que está sendo realizado em Barcelona. Tal qual como outros países da Europa o objetivo é conhecer a prevalência (percentual de infectados na população) e também a incidência, que são os novos infectados, para dessa forma encontrar medidas de prevenção de novos casos, o grande problema do hemisfério norte.

Dr. Stanislas Pol mostrou a situação francesa, um dos primeiros países a oferecer tratamento, inicialmente na forma de tratamento compassivo aos casos mais graves e atualmente todos os infectados com fibroses F2, F3 e F4 recebem os novos medicamentos.

O representante da Organização Mundial da Saúde para Europa anunciou que em abril será publicado o "Plano de Ação para a Região Européia 2016-1021" para as hepatites B e C com prioridades de ações para evitar novas infecções e facilitar o acesso aos tratamentos.

O diretor do programa da Escócia, país que desde 2008 implementou um plano de ação, explicou que o objetivo é tratar todos os estimados 36.700 infectados objetivando dessa forma reduzir em 65% os casos de cirrose descompensada até 2020.

A diretora do programa de Israel país onde foi implementado um plano de ação em 2014 informou que em 2015 foram tratados 1.400 pacientes, todos com a combinação do medicamento da Abbvie, mas já em 2016 foram aprovados todos os medicamentos, inclusive o recente da Merck (MSD). Os pacientes com maior gravidade têm prioridade para receber os tratamentos.

O caso da Espanha e um exemplo que deveria ser copiado e seguido por todos os pacientes e ONGs dos países onde os governos não oferecem tratamento. A Espanha ainda no final de 2014 não oferecia tratamento, então a Sociedade de Hepatologia denunciou publicamente o governo, pacientes e ONGs realizaram manifestações, ocuparam a recepção dos principais hospitais de todas as grandes cidades e interromperam as seções da Câmara dos Deputados aos gritos. O resultado foi surpreendente, jornais e TVs deram ampla repercussão e em somente 25 dias o governo implementou em fevereiro de 2015 um plano de tratamento da hepatite C dando prioridade aos com fibroses F2, F3 e F4 com o qual é estimado que já no final de 2015, 42.000 infectados foram tratados.

Egito mostrou o projeto de levar tratamento da hepatite C as comunidades rurais do interior do país, projeto que utiliza como estratégia a participação da comunidade local, inclusive na captação de recursos, pois o financiamento do governo para tratamentos somente atende gratuitamente 30% dos infectados carentes de recursos.

Itália, país com estimativa de 267.000 infectados, oferece tratamentos aos casos de fibrose F3 e F4 tendo já tratado 17.600 pacientes. Foi apresentado um estudo de custos encontrando que cada paciente curado representa uma economia ao sistema de saúde de 12.000 Euros em custos diretos e 4.000 Euros em custos indiretos.

Na Alemanha o quadro de novos infectados é alarmante. 70% dos casos diagnosticados são usuários de drogas injetáveis. Aproximadamente 170.000 pessoas usam drogas. O foco para evitar novas infecções é o programa PLUS de substituição das drogas injetáveis por drogas de uso oral.

No Canadá o problema das drogas injetáveis também é grande e os infectados com hepatite C são tratados nos próprios centros de controle da adição onde se consegue por parte desses pacientes uma maior aderência ao tratamento que nos hospitais gerais.

A Dinamarca apresentou problema similar, a maioria infecções acontece pelo uso de drogas injetáveis, mas diferentemente do Canadá na Dinamarca os tratamentos são dispensados em centros de distribuição de medicamentos.

Geórgia, um pequeno país de 3.7 milhões de habitantes com 7,1% da população infectada (5,16% confirmados com PCR positivo) conseguiu uma proeza única. Um plano de ação iniciado em 2015 quer eliminar a hepatite C tratando todos os pacientes até 2020. O plano tem apoio da OMS e do CDC dos Estados Unidos para mostrar que é possível acabar com a epidemia. Os medicamentos são na sua totalidade doados pela GILEAD. Tive uma longa conversa com a diretora do programa para conhecer como conseguiu convencer a GILEAD.

Desde meu ponto de vista somente teve uma apresentação com a qual discordo frontalmente (ressaltando que é minha opinião pessoal) que foi a do gerente de Drogas e Álcool do Reino Unido, pois achei ser altamente estigmatizante e discriminatório ele colocar que no Reino Unido dos estimados 214 mil infectados com hepatite C a grande maioria são pessoas marginalizadas, do submundo da sociedade, notavelmente usuários de drogas. Tudo bem que defende seu trabalho nas drogas, mas escrever isso dos infectados com hepatite C em nada contribui para o enfrentamento da epidemia, simplesmente aumenta o estigma e a discriminação. Fica aqui meu total repudio a suas colocações.

No último dia os participantes fomos divididos em oito grupos de trabalho, cada um discutia um tema e deveria apresentar sugestões na plenária, apresentado sugestões como para, o acompanhamento dos pacientes após a cura, as boas práticas em regiões pequenas, formas de reduzir o uso de drogas injetáveis, como encontrar os infectados nas fases iniciais da doença, como conseguir diagnosticar todos, sugestões para coordenação de cuidados primários em equipes multidisciplinares, como desenhar planos de ação e como implementar os planos de ação.

Curiosamente no final todas as apresentações ficaram parecidas, ou seja, todos sabem o que deve ser feito, o grande problema é saber como pode ser feito.

MEUS COMENTÁRIOS

Assim como no primeiro HCV 2020 fui o único representante da América Latina sendo convidado para troca de experiências em cenários totalmente diferentes. Brasil é um país continental dentro do qual existem diferentes "brasis", um país que praticamente é maior que toda Europa, um país com 2 milhões de pessoas vivendo com hepatite C, um país onde a renda per capita é menor que na maioria dos países da Europa, por tanto, o Brasil tem um desafio muito maior, um desafio que somente com uma atuação conjunta de todos os atores poderá enfrentar a epidemia de hepatite C com possibilidades de sucesso. Governo, sociedades medicas, sociedade civil e a indústria devem se dar as mãos e trabalhar conjuntamente por um objetivo comum.

Pessoalmente considero que o Brasil terá encontrado uma forma de vencer a epidemia quando com o orçamento atual seja possível comprar 100.000 tratamentos a cada ano, quando então todos os infectados, com qualquer grau de fibrose serão tratados. Nesse momento o desafio será encontrar os ainda não diagnosticados.

Espero algum dia chegarmos ao TESTAR E TRATAR tal qual hoje acontece no HIV / AIDS, isto é, um resultado positivo recebe tratamento no mesmo dia.


Viajei a convite da organização. O HCV 2020 foi patrocinado por Abbvie, KPMG LLP, Luzan 5 e Echosens.


Carlos Varaldo
www.hepato.com
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