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O tratamento da hepatite C aumenta o risco de câncer no fígado? O debate continua controverso - EASL 2017

25/04/2017

ATENÇÃO: antes de interpretar errado este texto entenda que não é o tratamento que pode provocar câncer e, que somente naquelas pessoas que já tiveram câncer de fígado e já estão curados desse câncer, é que pode eventualmente o câncer se manifestar novamente.



Para compreender as controversas farei um resumo de oito estudos apresentados semana passada no Congresso Europeu de fígado - EASL 2017 - os quais demonstram contrastantes evidencias sobre a possível ligação dos novos tratamentos orais livres de interferon para hepatite C e o ressurgimento do câncer de fígado.

É evidente o progresso alcançado no tratamento da hepatite C e entre eles o primeiro estudo a aparecer, no ano passado, o do Hospital Clínic Barcelona, Espanha, assustou o mundo tudo, pois publicaram que após um seguimento médio de 12,4 meses, após a cura, encontraram uma taxa de reaparecimento do câncer já curado (recidiva) de 31,2% (24 dos 77 pacientes do estudo).

O interessante este ano não é somente a quantidade de novos estudos realizados para confirmar se a publicação estava correta, mas também que vários desses estudos comparam a possibilidade do ressurgimento do câncer em tratamentos com os novos medicamentos orais e em tratamentos realizados com interferon.

Uma apresentação de estudo realizado no Hospital Universitário Henri Mondor, Créteil, França, tentou encontrar uma ferramenta para prognosticar o câncer de fígado e descobriram que a cirrose compensada é o fator mais influente para a recidiva de um tumor já tratado, recomendando então que o tratamento da hepatite C seja realizado nos infectados antes do desenvolvimento da cirrose, nas fases ainda de um fígado com fibrose. Recomendam ainda que os pacientes com mais de 50 anos curados da hepatite C realizem acompanhamento médico anualmente já que os mecanismos do ressurgimento do câncer de fígado ainda não estão totalmente entendidos.

Um estudo realizado no Inserm Institute for Viral and Liver Diseases, Universidade de Estrasburgo, França, investigou as alterações epigenéticas e transcricionais que provoca o vírus da hepatite C, as quais são fatores que provocam o câncer de fígado e, descobriram que as alterações epigenéticas e transcricionais persistem após a cura da hepatite C, assim elas continuam como um provável excitador para o ressurgimento de um câncer já curado.

Uma revisão sistemática e meta analise de 41 estudos publicados incluindo 13.875 pacientes, que foi realizada pelo The Kirby Institute, UNSW Sydney, Austrália, não encontrou nenhuma evidencia de que exista um maior risco de ocorrência ou recidiva de um câncer de fígado após o tratamento da hepatite C com os novos medicamentos orais quando se compara com estudos realizados quando do tratamento com interferon. Inclusive, no grupo estudado os pacientes tratados com os medicamentos orais eram mais idosos que os tratados com interferon, quando a possibilidade de câncer deveria ser maior. Concluem os autores que não existem evidencias que sejam os medicamentos que podem provocar a recidiva do câncer de fígado.

Outro estudo realizado na Caledonian University, da Escócia, descobriu que o risco de câncer de fígado após a cura da hepatite C não era associado ao uso de dos medicamentos orais livres de interferon, mas a fatores de risco do próprio paciente.

Um estudo interessante em pacientes japoneses com infecção pelo genótipo 1 da hepatite C realizado no, Hospital Kohnodai, de Chiba, Japão, também não encontrou diferenças na possível recidiva do câncer de fígado em pacientes tratados com interferon ou com os medicamentos orais. O mesmo resultado foi apresentado em estudo realizado no 302-Hong Kong Humanity de Beijing,

Outro estudo, da Universidade de Palermo, Itália, também encontrou que pacientes curados da hepatite C após o tratamento com os medicamentos orais tiveram um risco semelhante de recidiva de um câncer de fígado já curado similar ao que tinham os tratados com interferon. Além disso, os que conseguiram a cura com os medicamentos orais tiveram um menor risco de desenvolver câncer de fígado que aqueles pacientes não curados da hepatite C.

MEU COMENTÁRIO

Os dados divulgados ano passado pelo Barcelona Clinic Liver Cancer da Espanha, assustaram todo mundo, desencadeando um grande número de estudos destinados a verificar a associação entre o tratamento da hepatite C com os medicamentos orais livres de interferon e o possível aumento da recidiva de um câncer de fígado já tratado e curado e, apesar da questão ainda não estar totalmente entendida não existe razão para se evitar o tratamento da hepatite C nesse grupo de pacientes, já que os primeiros estudos mostram que possibilidade de recidiva do câncer do fígado pode acontecer em pacientes que recebem tratamento antiviral ou naqueles que não são tratados.

A importância dos congressos científicos é essa mesma, alguém publica um estudo e outros o tentam confirmar realizando estudos similares, que confirmam, ou não, os resultados originais. No caso de um câncer de fígado já curado recidivar após o tratamento da hepatite C ficou demonstrado que os números do ano passado não se confirmam.

Este artigo foi redigido com comentários e interpretação pessoal de seu autor, tomando como base a seguinte fonte:
Diversos posters e apresentações durante o EASL 2017.


Carlos Varaldo
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