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O custo dos novos medicamentos e os pensamentos ultrapassados

11/12/2014

Concordo totalmente quando se fala que o custo dos novos medicamentos para tratamento da hepatite C é extorsivo, na faixa de 84 mil dólares para um tratamento oral, mas discordo totalmente quando de uma maneira muito simplista alguém diz que o medicamento custa somente 250 dólares para ser fabricado.

Tentarei então explicar o que é fabricação de um medicamento e o que é a pesquisa para se chegar a esse medicamento.

O calculo de 250 dólares por tratamento oral da hepatite C foi feito considerando instalar uma fabrica para produzir 5 milhões de tratamentos, mas o calculo não leva em consideração as instalações necessárias, como o prédio, energia, maquinário, veículos, salario dos empregados com encargos sociais, impostos, etc. etc., somente foi considerado quanto custa a matéria prima (principio ativo).

Ou seja, se consideramos todos os gastos que são necessários e inevitáveis, o preço de um tratamento passa a custar muito mais que os simplórios 250 dólares.

Concordo que ainda estaremos muito longe do preço abusivo e extorsivo de 84.000 dólares que é pedido e isso é um verdadeiro absurdo, uma extorsão.

Mas também deve ser considerado quanto foi gasto na pesquisa para se chegar ao medicamento, um dinheiro que quem arriscou quer recuperar, com o devido lucro.

O primeiro medicamento que chegou foi o sofosbuvir, da empresa Gilead. Esse medicamento estava em pesquisa por outra empresa, quando então Gilead acreditando ser um medicamento promissor acabou comprando a empresa e os medicamentos em pesquisa, entre os quais se encontrava o sofosbuvir, pagando na ocasião 11 bilhões de dólares. Sim meu caro leitor, você leu correto, não está errado, não 11 milhões e sim 11 bilhões de dólares.

Os que defendem o cálculo de 250 dólares para produzir o principio ativo falam que em vez de comprar o governo deveria quebrar a patente, pois a saúde é um bem social.

OK, a principio a ideia soa como salvadora, mas como fica quem colocou dinheiro na pesquisa de algum medicamento. Eles irão perder o dinheiro que foi investido já que devemos lutar pelo bem social da saúde conforme consta na maioria das constituições dos países?

Com tal atitude quem têm a propriedade da patente então deve rasgar seu titulo de propriedade para que todos tenham acesso aos medicamentos.

Considerando então que a alimentação e a moradia constam na Constituição como um direito do povo por serem problemas sociais, então, seguindo a mesma lógica não mais será permitido cobrar aluguel nem cobrar pela comida em restaurantes. A ideia e o principio é o mesmo, assim, se vale para a saúde deve valer também para alimentação e moradia. Imaginem então o caos que estaria sendo criado, um anarquismo total.

MEU POSICIONAMENTO

Existindo somente um medicamento oral para tratamento da hepatite C eu até que poderia ser simpático a quebra de patentes, isso já aconteceu com alguns medicamentos para tratamento da AIDS, mas na hepatite C a situação é muito diferente já que existem quatro fabricantes com medicamentos comparáveis.

Existindo quatro empresas sou da opinião que a negociação de preços é a melhor opção, estratégia acertada e já comprovada no Brasil ao negociar um desconto de aproximadamente 93%. Desconto esse inicial, porque em um ou dois anos novos fabricantes estarão chegando ao mercado e os preços irão cair ainda mais.

Por outro lado, ao negociar o preço e a autoridade regulatória (ANVISA) autorizarem a comercialização, em questão de 2 ou 3 meses os pacientes já estarão recebendo os medicamentos, já uma quebra de patente depende de primeiro chegar a conhecer a formulação, depois comprar maquinário para fabricar, depois fazer um ensaio clínico para conhecer se o que está sendo fabricado é seguro e eficaz, depois solicitar aprovação do organismo regulador, fabricar e distribuir, processo esse que levará entre três e quatro anos para o medicamento chegar aos pacientes.

Essa diferença de tempo é fundamental para ser colocada na mesa de discussão, pois nesses anos quantos pacientes deixarão de ser beneficiados e, pior ainda, quantos irão a morrer por não conseguir acesso imediato ao tratamento?

A situação não é a mesma que aconteceu com os medicamentos da AIDS sendo necessário entender que hoje é melhor negociar, fazer com que os fabricantes se enfrentem e dessa forma conseguir um bom preço, a tal ponto que o que o governo brasileiro gasta hoje para tratar um paciente com a terapia tripla vai poder tratar, com o mesmo dinheiro, 2,5 pacientes, isso já em questão de poucos meses e não vai ter que esperar três o quatro anos para "tal vez" dispor um medicamento pela quebra de patentes.

Os que defendem a quebra de patentes devem evoluir na sua forma de pensar e não ficar parados no tempo e espaço.

Carlos Varaldo
www.hepato.com
hepato@hepato.com


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