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Carga Viral abaixo de 400.000 é excelente prognostico de cura da hepatite C

06/11/2006

A carga viral na hepatite C tem por função monitorar o tratamento (lamentavelmente alguns médicos ainda pensam erroneamente que ela serve para avaliar a gravidade da doença) servindo também, conforme novos estudos atestam, como um valor prognostico sobre a possibilidade de sucesso com o tratamento, para poder calcular a duração do tratamento e, ainda, calcular a possibilidade de recivida do vírus após o tratamento.

Até recentemente se estimava que o valor de 800.000 UI/ML era o limite para definir um paciente com carga viral alta ou baixa, conforme ele se estivesse abaixo ou acima deste valor. Novos estudos mostram que este não é um valor confiável para decidir sobre a decisão do tratamento e estimar a possibilidade de sucesso.

Estudo realizado na Alemanha e apresentado no ultimo sábado no 57° AASLD demonstra que a carga viral não somente pode mostrar a possibilidade de sucesso com o tratamento como também pode estimar antecipadamente qual será a possibilidade de recivida do vírus em determinado paciente.

No estudo foram incluídos 455 pacientes de 13 centros médicos da Alemanha, todos infectados com o genótipo 1 e que foram tratados com Pegasys 180 mcg por semana e 800 mg por dia de Ribavirina. 230 pacientes foram tratados por 48 semanas e 225 durante 72 semanas.

Os pacientes com carga viral antes do tratamento abaixo de 400.000 conseguiram uma resposta sustentada de 70% e os que apresentavam uma carga viral acima de 400.000 antes do tratamento conseguiram uma resposta sustentada de 46%.

Se fosse usado o criterio anterior para identificar pacientes com baixa ou alta carga viral se utilizando as 800.000 UI/ML os que se encontravam abaixo deste valor conseguiram 58% de resposta sustentada contra 45% dos que se encontravam acima dele.

Analisando os pacientes tratados por 72 semanas, o valor da carga viral de 400.000 UI/ML servia perfeitamente como valor prognostico já que 66% dos que se encontravam abaixo dela conseguiram a resposta sustentada contra 48% dos que se encontrava acima. Ao se utilizar o valor da carga viral de 800.000 UI/ML estes mesmos percentuais eram de 57% e de 48%.

Em relação ao numero de pacientes que recidivam o vírus após acabar o tratamento negativados as diferenças são ainda maiores. No grupo de 400.000 UI/ML tratado por 72 semanas a recidiva foi observada em 6% dos que se encontravam por baixo da carga viral e em 29% dos que se encontravam acima. Ao se considerar uma carga viral de 800.000 UI/ML como limite a recidiva era de 17% nos que estavam abaixo do valor e de 29% nos que estavam acima dele.

No grupo de 800.000 UI/ML tratado por 48 semanas a recidiva foi observada em 15% dos que se encontravam por baixo da carga viral e em 36% dos que se encontravam acima. Ao se considerar uma carga viral de 800.000 UI/ML como limite a recidiva era de 24% nos que estavam abaixo do valor e de 36% nos que estavam acima dele.

Concluem os autores que na carga viral o valor de 400.000 UI/ML possui um poder estatístico muito superior para prognosticar a possibilidade de cura de um paciente e, ainda, estimar a possibilidade de recidiva do vírus após um tratamento aparentemente bem sucedido nos pacientes infectados com o genótipo 1 do vírus da hepatite C.

MEU COMENTÁRIO:

É altamente desanimador e em muitos casos frustrante, causando profunda depressão, não conseguir a cura após um sofrido tratamento ou, ainda pior, quando após completar o tratamento negativado, o PCR dos seis meses após o tratamento aparece novamente com o vírus detectado.

O tratamento do genótipo 1 da hepatite C apresenta resultados medíocres e menos da metade dos tratados conseguem sucesso. Em geral o paciente entra no tratamento com pouca informação por parte do médico quanto a sua real possibilidade de cura. Não logrando a cura aparece a desilusão.

A importância deste estudo, ao qual pessoalmente bato palmas, conseguira informar ao paciente antes de iniciar o tratamento que sua possibilidade de cura será maior ou menor dependendo da carga viral que existir antes do inicio do tratamento. Ainda, finalizado o tratamento e estando negativo, ele poderá ser informado que ainda existe um determinado percentual de possibilidades de recidiva do vírus.

São dados que em nada irão mudar o resultado final, mas um paciente ciente da sua real possibilidade, informado corretamente, terá uma reação muito menos negativa caso não consiga a cura da doença, permanecendo então com um aspecto emocional em melhor estado.

O individuo que se encontra do outro lado da mesa do médico pode estar lá a procura da cura da hepatite C, mas o médico não deve enxergar só uma "caixinha" com vírus, ele deve ser suficientemente sensível para ver um ser humano integral, complexo, o qual, dependendo das expectativas e resultados passará a ter uma qualidade de vida melhorada ou piorada, conforme o resultado final. Neste sentido não é só o tratamento que deve ser estimado e sim a informação que será fornecida para preparar psicologicamente o paciente para um eventual fracasso do tratamento.

A informação é um dos melhores medicamentos que já foram inventados. Pena que muitas vezes ela não seja empregada!

Finalizando, a boa notícia desta pesquisa é que fica comprovado que a menor carga viral antes do tratamento a possibilidade de cura e muito superior, vemos então que quando chegarem ao mercado os inibidores de proteases, os quais têm a particularidade de baixar a carga viral a níveis próximos de zero, a resposta ao tratamento será infinitamente maior. Afortunadamente as pesquisas dos inibidores estão adiantadas e falta muito pouco para eles chegarem ao mercado.

Fonte:
T Berg, M von Wagner, H Hinrichsen, and others. Definition of a pre-treatment viral load cut-off for an optimized prediction of treatment outcome in patients with genotype 1 infection receiving either 48 or 72 weeks of peginterferon alfa-2a plus ribavirin. 57th AASLD. October 27-31, 2006. Boston, MA. Abstract 350.
Centros médicos partcipantes:
Charite, Berlin, Germany, Universitätskliniken des Saarlandes, Homburg, Germany; Christian-Albrecht-Universität, Kiel, Germany, Heinrich-Heine-Universität, Düsseldorf, Germany; Universitätsklinik Eppendorf, Hamburg, Germany; Universität zu Köln, Köln, Germany; Medizinische Universitätsklinik, Freiburg, Germany; Klinikum Grosshadern, München, Germany; Medizinische Universitätsklinik, Bochum, Germany; Universitätsklinik Heidelberg, Heidelberg, Germany; Klinikum der Universität Würzburg, Würzburg, Germany; Medizinische Einrichtung der Rh. Fr. Wilhelms Universität Bonn, Bonn, Germany; Roche Grenzach, Grenzach, Germany.


Carlos Varaldo
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