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A Carga Viral indica a progressão do dano hepático na hepatite C?

23/10/2006

O texto a seguir faz parte de um editorial da revista Hepatology do mês de dezembro de 2005, escrito pelos Dres. T. Heller e L. B. Seeff do National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos os quais comentam um estudo publicado na mesma edição por um grupo de pesquisadores coordenados pelo Dr. Hisada (Hepatology. 2005 Dec; 42(6):1261-3. - Hepatitis C virus load and survival among injection drug users in the United States) no qual são realizadas algumas colocações sobre a importância da carga viral da hepatite C em usuários de drogas que morreram por causa da falência hepática.

O artigo do Dr. Hisada da a entender que pode existir uma forte associação entre o nível da carga viral do HCV e a falência do fígado (End stage liver disease - ESLD) ao relatar que abaixando a carga viral do HCV parece diminuir o avanço do dano ao fígado, ainda nos casos em que o vírus não é totalmente eliminado.

O artigo chamou a atenção dos editores já que mostra discrepâncias quanto à importância da carga viral na hepatite C em relação a outros estudos existentes. Esta discordância pode estar relacionada com uma interpretação dos dados já que todos os pacientes do estudo do Dr. Hisada eram usuários de drogas injetáveis, alguns se encontravam imuno suprimidos por co-infecção com o HIV ou com o HTLV II e outros possivelmente por fatores peculiares para esta população, como infecções adicionais, comorbidades ou déficits nutricionais. Em contraste, a maioria dos outros estudos publicados sobre a importância da carga viral do HCV na progressão do dano ao fígado envolviam pacientes com uma menor probabilidade de comprometimento do sistema imune do organismo.

É perfeitamente compreensível que uma maior carga viral pode resultar de um sistema imunológico reduzido, o qual pode ser o responsável pela progressão da destruição do fígado. O próprio estudo do Dr. Hisada destaca que o vírus da hepatite C não é considerado um agente citopático (o seu número não tende a diminuir pela ação do próprio vírus) corroborando assim estudos anteriores que indicam que não é a carga viral e sim o sistema de defesa do organismo (o sistema imune) o responsável por induzir, ou não, a progressão da doença.

Os autores do editorial colocam como evidencias adicionais que outros grupos de pacientes infectados com a hepatite C que também são imuno suprimidos, como os co-infectados com o HIV e os transplantados de rim ou fígado apresentam uma carga viral elevada junto a uma probabilidade maior de progressão acelerada do dano hepático. Desse modo a diminuição da atividade do sistema imune poderia ser o responsável por ambas as condições, a carga viral elevada e a progressão acelerada da doença. Deste modo o ponto central em questão passa a ser a diferença entre causa e efeito.

Esclarecem os autores do editorial que, entretanto a pesquisa do Dr. Hisada não pode ser ignorada e possui importância em relação à indicação de tratamento, porém, parece ser ainda prematuro se recomendar a terapia com o simples objetivo de se conseguir uma redução pura e simples da carga viral do HCV a fim de prevenir ou reduzir o dano ao fígado até que pesquisas adicionais sejam realizadas utilizando consecutivos resultados de carga viral e repetidas biopsias de fígado em grupos consideráveis de pacientes.

MEU COMENTÁRIO:

A importância do editorial da revista Hepatology demonstra o desnecessário que é realizar testes de carga viral em pacientes com hepatite C que não se encontram em tratamento.

É normal encontrar na pratica médica casos de pacientes com baixa carga viral que já se encontram com cirroses e outros pacientes, com carga viral de milhões de vírus com um fígado em perfeito estado, sem necessidade sequer de tratamento.

A pesar que o teste de carga viral na hepatite C foi introduzido para acompanhar a resposta ao tratamento o mesmo se generalizou e passou a ser solicitado praticamente sem critério. O teste de carga viral e um fator muito importante na hepatite B ou no HIV, onde nestas doenças a carga viral mostra a gravidade da doença, mas não se pode utilizar o mesmo critério em relação à hepatite C.

O paciente de hepatite C fora de tratamento que por curiosidade fica realizando contínuos testes de carga viral simplesmente consegue ficar ansioso e angustiado com os resultados. A variação e enorme em cada resultado, chegando a triplicar o valor entre um e outro conforme mostrou um estudo da Dra. Edna Strauss.

Fonte:
T Heller and L B Seeff. Viral load as a predictor of progression of chronic hepatitis C? (editorial) Hepatology 42(6): 1261-1263. December 2005.


Carlos Varaldo
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