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A hepatite C, o estigma e a cura

13/11/2013

"A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doença ou enfermidade" - Definição de Saúde da Organização Mundial de Saúde.


Acaba de ser publicado no "World Journal of Gastroenterology" um excelente artigo que muito oportunamente chega quando as ONGs estamos solicitando ao Departamento DST/AIDS/HEPATITES à necessária modificação do conceito de hepatopatia grave. A publicação demonstra claramente que a hepatite C não é somente uma doença do fígado, mas também uma doença mental, psicológica, familiar e social.

As conseqüências mais graves da hepatite C são a cirrose hepática e o câncer no fígado. A cirrose aparece em 20% a 40 % dos pacientes, conduzindo a falha hepática e a morte. É um vírus RNA identificado em 1989 e classificado pela Organização Mundial de Saúde como oncogênico pela facilidade com que provoca câncer no fígado. O câncer de fígado é o quinto no mundo em termos de mortalidade.

O estigma que a pessoa infectada que por vezes carrega é enorme e pode ter várias conseqüências. A principal causa é a falta de informação necessária, tanto no infectado, na população e até nos próprios profissionais de saúde.

Coloca o artigo que a cirrose é uma das situações mais cancerígena em termos médicos. O desenvolvimento do câncer é um fato real, acontecendo em até 4% ao ano nas pessoas com cirrose hepática. A qualidade de vida de um cirrótico descompensado pode ser muito pobre, com hospitalizações freqüentes. Nesta fase apenas o transplante de fígado é a opção terapêutica existente.

Além do drama de serem infectados, os profissionais de saúde, pacientes, família, sociedade, devem estar cientes da possibilidade de cura real e eliminação total e definitiva do vírus. Se ainda não existir cirrose a cura é para toda a vida. Se já existir cirrose, mantém-se o risco de evolução para câncer, se bem que muito reduzido. Afortunadamente a cura da maioria dos infectados já é possível.

Vários ensaios clínicos estão em rápido desenvolvimento em todo o mundo, uma nova geração de medicamentos está se aproximando rapidamente, como Sofosbuvir, Daclastavir, Asunaprevir, ABT-450, Faldaprevir, Simeprevir, Deleobuvir, alguns deles usando apenas medicamentos orais, por um período de 12 semanas, com poucos efeitos colaterais e percentagem de cura de até 93%. Em um quarto de século, a percentagem de cura aumentou de 6% a 90%, no genótipo 1.

No início, a comunidade médica estava com medo da palavra cura. Mas agora é bem conhecida que esta palavra pode ser usada. Com efeito, é uma cura virológica para a vida toda. Está provado que o vírus não é detectado nas células de fígado ou de células mononucleares do sangue. Também não existe uma doença oculta, como é o caso para a hepatite B.

Embora a cura seja definitiva, devemos ser cautelosos em pacientes com cirrose hepática, porque embora a chance de desenvolvimento de câncer é fortemente reduzida, ela ainda permanece. Essa é uma das razões para oferecer imediatamente o tratamento aos pacientes com fibrose mínima ou moderada, de modo a reduzir a possibilidade de chegar à cirrose.

Benefícios da cura da hepatite C

1 - Carga viral negativa para toda a vida, em mais de 99% dos casos

2 - Carga viral negativa no fígado

3 - Carga viral negativa nas células periféricas mononucleares do sangue

4 - Não detecção do genótipo

5 - Em alguns casos o teste anti-HCV pode ficar negativo após cinco anos da cura, o que é chamado de "soroconversão"

6 - Normalização das transaminases AST, ALT e GGT

7 - Mudanças no ultra-som (contornos do fígado podem se tornar regulares, reduzir o diâmetro da veia porta em caso de hipertensão portal)

8 - Desaparecimento dos nódulos linfáticos, perto do fígado

9 - Redução dos valores da fibrose.

10 - A redução do risco de progressão para cirrose

11 - Reversão de cirrose em alguns casos

12 - Desaparecimento de varizes esofágicas

13 - A redução do risco de progressão para o câncer de fígado

14 - Redução do risco de doença hepática descompensada (ascite, icterícia, ruptura de varizes esofágicas, encefalopatia)

15 - Reduzindo a zero o risco de recorrência após o transplante de fígado (se necessário)

16 - Melhorias da qualidade de vida (falta de vontade, fadiga, bem-estar geral)

17 - Redução do impacto psicológico (ansiedade / depressão)

18 - Desaparecimento do risco de transmissão sexual

19 - Desaparecimento do risco de transmissão perinatal

20 - Diminuição do preço do seguro de vida ou plano de saúde

21 - Cura de condições associadas (porfiria cutânea tarda, polineuropatia, urticária, crioglobulinemia, linfomas)

22 - Redução do estigma, familiar e social

23 - O tratamento comprova a relação custo-benefício

24 - Benefícios totais para a saúde pública

25 - Redução do risco de morte por doença hepática

26 - Melhora neurocognitiva

27 - Cura da hepatite C

Saúde mental e qualidade de vida na hepatite C

Além da história natural da doença, os impactos pessoais de um diagnóstico de infecção da hepatite C e seu tratamento afetam fortemente a qualidade de vida dos pacientes. Problemas de saúde mental ocorrem com freqüência nos infectados e, aumentam durante o tratamento antiviral. Estes indivíduos freqüentemente apresentam sintomas neuropsiquiátricos como fadiga, ansiedade, depressão e distúrbios cognitivos.

O tratamento com interferon está associado a um elevado número de reações adversas, tais como a irritabilidade, insônia, fadiga e perda de apetite. Para além destas, os sintomas neuropsiquiátricos (especialmente a depressão, e por vezes com ideias suicidas) estão entre os efeitos secundários mais comuns no tratamento sendo uma das principais causas por que os pacientes interrompem o tratamento. É de salientar que, até certo ponto, os sintomas psicopatológicos (depressão, distúrbios cognitivos) podem estar associados à infecção da hepatite C, mesmo sem um tratamento.

Um grande número de pacientes submetidos a tratamento deve ser encaminhado para avaliação psiquiátrica e, se necessário, deve receber tratamento para a depressão e outros sintomas neuropsiquiátricos.

Reconhecimento de depressão e outros sintomas neuropsiquiátricos é importante, e pode melhorar a aderência ao tratamento.

Estigma da hepatite C

O diagnóstico da hepatite C foi relatado por ter impactos profundos sobre o relacionamento social. Estigma relacionado com a infecção conduz a elevados níveis de ansiedade e medo exagerado de transmissão, o que pode ser uma das principais causas de isolamento social e intimidade reduzida nas relações.

Porque em muitos países a grande maioria das pessoas com hepatite C tem um histórico de uso de drogas intravenosas, eles são freqüentemente acusados de adquirir a doença, e vistos como irresponsáveis e indignos. Além disso, como é uma doença transmitida pelo sangue, a hepatite C está fortemente associada com o HIV (AIDS). Existe esta associação devido ao fato de que o abuso de drogas injetáveis é um fator de risco significativo para a transmissão de ambas as doenças, e isso pode ser um fator estigmatizante destes pacientes.

O estigma pode ser definido como atitudes expressas por um grupo dominante, que vê aos outros como socialmente inaceitáveis. A noção de estigma denotando relações vergonhosas e desvios do que é considerado "normal" tem uma longa história dentro das doenças causadas por infecções, em particular HIV, e mais recentemente na hepatite C.

Essas normas, comportamentos e crenças que cercam a infecção por hepatite C pode levar à alienação da família e amigos, bem como a discriminação (percebida ou real) nos serviços de saúde e locais de trabalho.

O estigma pode afetar a auto- estima e qualidade de vida. Também pode impedir o sucesso de diagnóstico e tratamento, levando ao risco de transmissão da doença de forma contínua. É um fenômeno social que influencia o curso da doença e marginaliza pacientes.

A estigmatização afeta não apenas o indivíduo, mas também de todo o curso da doença, os profissionais de saúde não estão imunes aos estereótipos e julgamentos que possam influenciar o curso do tratamento de pacientes com hepatite C. Mudar este comportamento irá ajudar a evitar o isolamento, a suspensão do tratamento dos pacientes e que irá aumentar a procura por atendimento médico.

A hepatite C deve ter uma abordagem global em seu tratamento. Ela exige esforços educacionais de base ampla, a fim de aumentar a compreensão desta doença, ainda ligado a vários estereótipos pejorativos. Esses esforços devem incluir a pacientes e seus familiares, prestadores de cuidados de saúde e da sociedade como um todo. Maior conhecimento da hepatite C é fundamental para auxiliar pacientes na autogestão da sua doença, e é importante para reduzir a carga da doença.

Vários benefícios de cura da hepatite C

Concluem os autores que podemos considerar que curar a infecção pela hepatite C é um benefício real para a saúde pública, principalmente através da redução do risco de complicações e de morrer por causa da doença hepática. Tendo acesso às terapias mais modernas a eficácia do tratamento aumenta significativamente a sobrevivência de pacientes infectados. A hepatite C crônica é uma epidemia silenciosa, uma doença global com um forte estigma, mas com grande chance de cura definitiva.

MEU COMENTÁRIO

Nada a acrescentar, o artigo dos Professores. Rui Tato Marinho e David Pires Barreira é a mais perfeita colocação sobre o estigma e discriminação sofrida pelos infectados com hepatite C e os benefícios que a cura propicia na vida do paciente infectado.

Este artigo foi redigido com comentários e interpretação pessoal de seu autor, tomando como base a seguinte fonte:
Artigo completo no:
Hepatitis C, stigma and cure - Rui Tato Marinho and David Pires Barreira - World J Gastroenterol. 2013 October 28; 19(40): 6703-6709. Published online 2013 October 28. doi: 10.3748/wjg.v19.i40.6703


Carlos Varaldo
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