19/11/2007
A vitória contra a hepatite C
A medicina comemora a cura da doença, que atinge 170 milhões de pessoas em todo o mundo, três milhões delas no Brasil
Revista Isto - É - 01/12/2007 - CILENE PEREIRA Colaborou Greice Rodrigues
A ciência finalmente pode dar uma boa notícia aos 170 milhões de portadores de hepatite C existentes no mundo, três milhões deles no Brasil. Causada pelo vírus da hepatite C (HCV), a doença tem cura. A ótima novidade vem sustentada por pelo menos dois estudos conduzidos por centros de pesquisa muito respeitados na comunidade científica. Um deles foi realizado por pesquisadores da Virginia Commonwealth University Medical Center, nos Estados Unidos, e da Universidade de Calgary, no Canadá. A conclusão foi possível após o acompanhamento de 989 pacientes que se submeteram ao tratamento-padrão contra a enfermidade, baseado no uso dos medicamentos interferon e ribavirina, eliminaram o vírus do corpo e se mantinham livres do inimigo mais de sete anos depois do final da terapia. Na avaliação dos pesquisadores, essa evidência é suficiente para validar a utilização da palavra cura. "Ficamos muito felizes porque é raro podermos dizer que um paciente com doença viral está realmente curado", afirmou Mitchell Shiffman, chefe do Departamento de Hepatologia, diretor médico do Centro de Transplante de Fígado da universidade americana e um dos coordenadores do trabalho. "Mas nesse caso podemos afirmar aos portadores de hepatite C que a medicina já consegue livrá-los desse mal", completou. O outro trabalho foi conduzido por cientistas da Universidade Paris II e do Serviço de Hepatologia do Hospital Beaujon, na França.
Eles acompanharam 215 pacientes submetidos ao mesmo tratamento durante dez anos. Nesse período, nenhum voltou a apresentar o vírus no sangue. As pesquisas tiveram grande repercussão - e por razões compreensíveis. Descoberto em 1989, o vírus da hepatite C se transformou em um pesadelo de dimensões e desafios assustadores.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), entre três milhões e quatro milhões de pessoas são infectadas a cada ano, fundamentalmente por causa do contato com sangue contaminado. Outro problema é que a enfermidade tem evolução lenta e em 70% dos casos não dá sintomas. Portanto, calcula-se que milhões de pessoas sejam portadoras do HCV sem desconfiar disso. Para agravar ainda mais o quadro, oito em cada dez infectados vão desenvolver a forma crônica, quando o vírus se estabelece no corpo e pode iniciar a gradual destruição do fígado, levando a doenças sérias como cirrose e câncer hepático. Não é à toa que,
segundo a OMS, a hepatite C é a principal causa dessas enfermidades em todo o mundo. E, pelo menos por enquanto, não há vacina contra o HCV.
No Brasil, as pesquisas confirmaram o que os especialistas verificavam na experiência do consultório. O hepatologista Raimundo Paraná, professor de hepatologia da Universidade Federal da Bahia, por exemplo, já atendeu mais de 500 portadores de hepatite C e comemora o fato de muitos estarem livres da doença. "Tenho diversos pacientes curados há mais de dez anos", conta. O médico se recorda de um em especial. Era um jovem que, aos 26 anos, já tinha desenvolvido cirrose e havia perdido o pai para a mesma doença anos antes. "Ele se curou e está bem até hoje", lembra Paraná.
O advento da possibilidade de cura só foi possível graças à feliz combinação de interferon com ribavirina. O primeiro remédio é uma cópia feita pela engenharia genética de uma substância produzida naturalmente pelo corpo humano para ajudar na defesa contra microorganismos nocivos. Sua função é fortalecer o sistema imunológico para lutar contra o vírus tipo C e também auxiliá-lo a impedir que o agente se multiplique dentro das células. O uso dos interferons foi iniciado em 1990. Em 2002, surgiu uma nova versão, o interferon peguilado. Ele trouxe mudanças na sua composição que permitiram uma permanência mais duradoura dentro do corpo - o paciente toma uma dose semanal, contra as três por semana indicadas no caso do interferon convencional. Isso possibilita que o medicamento esteja disponível dentro do organismo de forma mais constante, tornando contínua a pressão contra o vírus. Já a ribavirina, introduzida no tratamento em 1996, é tomada diariamente e potencializa os efeitos do interferon, mas ainda não se sabe exatamente por quais mecanismos ela consegue esse feito.
O fato é que as drogas, juntas, destroem os vírus em 40% a 90% dos casos. Em geral o tratamento dura um ano. Infelizmente, não são todos os pacientes que conseguem ficar livres da doença. Entre os fatores que reduzem a chance de cura estão consumo de álcool, obesidade, idade superior a 40 anos, longo tempo de infecção e ser do sexo masculino. Também contam a quantidade de vírus presente na circulação sangüínea - quanto maior, pior - e o genótipo (o tipo do material genético do vírus). Há vários deles. No Brasil, os mais comuns são o 1, o 2 e o 3. Porém, estima-se que 75% dos doentes sejam portadores do tipo 1, justamente o mais resistente às drogas.
Outro complicador é a adesão ao tratamento. Os interferons podem causar um baque fenomenal no doente, dependendo do quanto ele for susceptível. O número de plaquetas, fragmentos de célula do sangue que ajudam na coagulação, por exemplo, pode cair muito, deixando o paciente vulnerável a hemorragias. Além disso, pode haver irritabilidade, insônia e até depressão. Porém, um trabalho exemplar realizado no Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de São Paulo, em Botucatu, interior de São Paulo, mostra que esse obstáculo pode ser superado. Coordenado pelo médico Giovanni Faria, o estudo envolveu 58 pacientes, acompanhados durante 48 semanas. O grupo recebia a medicação mas também contava com o suporte de uma equipe multidisciplinar composta por psicólogos, nutricionistas e médicos clínicos gerais. "Ao final do tratamento, 52% estavam curados", conta Faria. É um índice alto, obtido muito em razão do apoio que os doentes tiveram ao longo do tratamento. "Essa ajuda impediu que eles interrompessem a terapia", conclui o especialista.
Uma dúvida que perturba os pacientes é saber se, mesmo depois de tanto tempo, o vírus pode voltar. Hoje já se sabe que, se ele não foi mais detectado no sangue após seis meses, a chance de cura é superior a 95%. Isso se tiverem sido usados exames extremamente sensíveis, capazes de detectar a presença de cerca de 50 cópias de genoma viral por mililitro de sangue. Após 12 meses, a chance é superior a 98%. "
Quando meu paciente ultrapassa a barreira de um ano sem a detecção do vírus, dou os parabéns. Na medicina não existe o nunca nem o sempre. Mas nesses casos será excepcional se houver uma recaída. Será como ganhar na loteria às avessas em termos de probabilidade", afirma o especialista Paraná. Na experiência obtida até agora, nos pouquíssimos casos nos quais o vírus reapareceu após um longo período, os cientistas especulam sobre o que teria acontecido. As hipóteses mais discutidas - e prováveis - são as de que os pacientes podem ter se infectado novamente ou terem sido submetidos a testes que deram resultados equivocados: os colocaram entre os que haviam respondido positivamente ao tratamento, quando na verdade isso não tinha ocorrido.
O próximo passo contra a hepatite é correr atrás de alternativas para quem ainda não consegue bons resultados com o tratamento disponível. Nesse sentido, também há promessas interessantes. Os laboratórios Schering-Plough, Vertex e Roche, por exemplo, têm resultados promissores com medicamentos que estão desenvolvendo e que atuam sobre enzimas usadas pelo vírus para se multiplicar dentro da célula. A Novartis também está estudando um novo tipo de droga, a ser injetada duas vezes por mês, o que garantiria maior conforto ao doente.
Outro foco de investigação é o estudo da relação entre a hepatite e a diabete tipo 2. A doença acomete 21% dos portadores do HCV contra 12% dos infectados pelo tipo B. Estuda-se por que isso acontece. Uma das hipóteses é a de que o vírus leve o corpo a desenvolver resistência à insulina. Este hormônio abre as células para a entrada da glicose que está no sangue. Na diabete, é produzido ou absorvido de forma deficiente. "É importante tratar primeiro o vírus. Pesquisas mostram que a resistência à insulina pode desaparecer após o tratamento", afirma o médico Edison Parise, da Universidade Federal de São Paulo, um dos estudiosos do assunto.