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Maria Elisa Monteiro - Brasil



Meu nome é Maria Elisa Monteiro e fui diagnosticada em Julho de 2004.

Em 2002 meu otorrino foi o primeiro a detectar algo errado no meu organismo.

Eu tinha uma rouquidão estranha sem nenhum quadro normal de garganta e sempre acordava c/ a boca seca e amarga. Estes sintomas foram pesquisados de várias maneiras muito tempo depois, quando a médica que me acompanhou no tratamento, descobriu que a acidez gástrica e o refluxo gastroesofágico que causa a erosão dentária é um dos sintomas da Hepatite C.

Fui aconselhada a procurar um médico gastroenterologista, mas adiei por 2 anos quando outro sintoma apareceu, o enjôo forte após beber.

O fígado é um órgão amigo e dá sinal quando exageramos na bebida. Infelizmente, eu não dei muita atenção a ele. Como morava de frente para o mar, sempre tinha vontade de beber alguma coisa. Passei alguns anos sobrecarregando o coitadinho.

Em Julho de 2004, procurei o gastroenterologista e informei os meus sintomas, acrescentando que fazia reposição hormonal há vários anos e que gostaria se pesquisar se havia algo de errado com o meu fígado, o que foi feito.

Os resultados mostraram um TGO e TGP alterados, Foi feita a pesquisa das Hepatites que mostrou que eu tive contato com o HAV, ou seja, tive Hepatite A em alguma época da minha vida. Presumo que foi quando meu pai disse que eu estava com Amarelão aos 12/13 anos de idade. O HBV deu negativo e qual foi a minha surpresa quando li que o HCV era positivo.

Este mesmo médico pediu também o exame de carga viral, e o resultado do PCR quantitativo foi 1.548.270 UI/mL.

Ele me traquilizou dizendo que tinha tratamento e que não haveria pressa em tratar. Minha filha estava grávida e iria dar a luz no mês seguinte. Ele me disse que eu poderia ajuda-la e cuidar também do nenê sem risco para nenhum deles.

Depois do diagnóstico é que fui me informar da doença, até então, apenas sabia que era um vírus que provocava uma doença de fígado. Parei completamente de beber.

Ao saber que deveria ter sido por causa de sangue contaminado e provavelmente na época onde a maioria das pessoas se contaminou, décadas de 1970 e 1980, fiquei apavorada. O motivo era porque a minha filha, que nasceu em 1974, precisou de transfusão total por termos incompatibilidade sanguínia, ela RH positivo e eu RH negativo.

Ela logo ligou para o consultório do médico obstetra perguntando se ela havia feito o teste para Hepatite, sem especificar qual delas. Na verdade um teste foi feito, mas o da Hepatite B. Na "santa ignorância", foi concluído que o exame era negativo. Só muito tarde é que ela foi descobrir isto e fazer o exame correto, que felizmente deu negativo. Isto era 2004 e ela já seria portadora há 30 anos, o que provavelmente já teria dado algum sintoma. Pelo menos ela estava livre do "vírus bandido".

Tentei descobrir quando fui contaminada, já que nunca fiz transfusão de sangue. Poderia ter sido em qualquer operação feita nas décadas de 1970 e 1980. Em qualquer das hipóteses, eu já estaria contaminada há mais de 25 anos. Um parto, duas cesarianas, uma operação de menisco, um corte acidental da safena, em qualquer destas situações eu poderia ter sido contaminada. Descobrir qual, não era importante naquele momento, era apenas curiosidade.

Voltando a 2004, já em novembro, me recomendaram uma médica do Hospital São Paulo que estava tratando pacientes com Hepatite C, Dra. Ana Cristina Amaral Feldner.

Na 1ª consulta foram pedidos novos exames, inclusive o de genotipagem que mostrou ser Genótipo 1 B. Fiz também a biópsia que mostrou Fibrose 3. O PCR quantitativo mostrava 702.029 UI/mL, menos da metade acusada na época do diagnóstico em Julho.

Eu era uma candidata ao tratamento.

Fiz tudo que a buracracia do SUS exigia, mas preferi manter a minha médica particular. O tratamento inicial foi: 1000 mg/dia de Ribavirina e dosagem adequada para o meu peso do Interferon Peguilado, uma vez por semana.

Iniciei a medicação em Abril de 2005, com previsão de término para Março de 2006.

Apesar de algum trabalho com fichas e filas, tudo deu certo e funcionou perfeitamente. Eu tomava o Interferon todas as 5ªs feiras e a Ribavirina 4X/dia.

A posologia da Ribavirina teve que ser modificada, começou sendo diminuida para 750 mg, depois para 500 mg e no final para 250 mg. Mesmo assim o meu organismo se enfraqueceu muito. Eu tomava 3 injeções semanais para anemia, a anemia não cedia e as plaquetas continuavam muito baixas.

Enfrentei todos os sintomas que temos após a aplicação do Interferon, uma semanas menos, outras mais, e tentei levar uma vida normal. Driblando até a depressão, dizia que eram crises de tristeza, e assim foi. Só depois de uma forte labirintite é que passei a tomar Rivotril, mas foi por pouco tempo. Só depois de muito tempo reconheci que tive Depressão.

Quando eu soube do diagnóstico, meu marido e eu estávamos morando nos Estados Unidos e ao saber que iria fazer o tratamento, optei por tratar no Brasil. Mesmo ficando longe dele, foi o que preferi. Eu tinha meu filho em São Paulo, que foi um grande suporte. Tinha nora, mãe, irmãos, além das minhas amigas, que se desdobravam para me acompanhar todas as semanas ao Posto de Saude.

Tive também uma ajuda importante, da Dea, nossa empregada de mais de 30 anos. Nesta época ela já estava aposentada e nem trabalhava mais pra nossa família. Como morávamos fora do Brasil, mantínhamos apenas um pequeno contato quando eu ia a São Paulo. Ao saber que eu iria passar um ano no Brasil, ela se dispôs a trabalhar alguns dias por semana e principalmente dormir comigo na noite do Interferon, o que foi de grande valia, visto que muitas vezes, eu nem tinha forças para esquentar uma sopa.

Mesmo estando debilitada, eu insisti em continuar porque o PCR qualitativo mostrava vírus não detectado, sinal que o tratamento estava funcionando.

Infelizmente em Dezembro, após 8 meses de tratamento, parei a Ribavirina e até com o Interferon por duas semanas.

Meu marido chegou ao Brasil para o Natal e queria que eu parasse com tudo. Ele dizia: - "você pode até conseguir matar o vírus, mas pode morrer de infecção". Fiquei sem comer por 5 dias, com uma infecção de garganta como nunca tive. Perdi muito peso e parei de me pesar quando cheguei a 43 quilos (iniciei o tratamento com 52 quilos).

Retomei o tratamento após 2 semanas, apenas com o Interferon Peguilado. Outros PCR qualitativos foram feitos e continuavam não detectados. Completei as 48 semanas previstas e após algumas semanas fiz o exame HCV Qualitativo - TMA, que me derrubou literalmente: Detectado.

Questionei muito a eficácia do exame, eu queria continuar tendo a esperança da cura. Voltei a fazer o PCR Qualitativo que confirmou: Detectado.

Voltando no tempo, vejo que alguns sintomas que eu tinha, e ainda tenho, principalmente o cansaço e as dores nas pernas, já eram sintomas da Hepatite C, mas eu não sabia e nenhum médico conseguia atribuir. Isto porque todos nós éramos ignorantes em relação a este vírus, inclusive a classe médica. Felizmente, muitos estão atentos e pedem o teste das Hepatites para os seus pacientes quando são reportados destes sintomas. Alguns ginecologistas são tão prudentes, que pedem o teste para as pacientes que tiveram filhos nas décadas de maior contaminação. Eu mesma, posso ter sido contaminada no parto ou nas duas cesarianas que fiz.

Enfim, não consegui me curar, mas faço controle e meus exames estão bons. Acredito que com o tratamento que fiz a doença evoluirá mais lentamente. Como diz o jargão médico: "Você vai morrer com a doença e não dá doença".

Fico feliz pela cura dos meus colegas de tratamento lá do Posto da Vila Mariana em São Paulo. Mantenho contato com alguns e muitos negativaram o vírus. Éramos 6, os mais chegados e só eu não me curei, uma boa estatística, não?

Temos que continuar a divulgar a necessidade do exame de detecção e as boas chances de cura no tratamento atual.

No meu caso, espero a chance de um retratamento, sem a Ribavirina. Felizmente as pesquisas estão a todo o vapor.

Carlos Varaldo
www.hepato.com
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