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O principal efeito colateral do Interferon

26/05/2004

A bula do interferon informa aos pacientes que estão por iniciar o tratamento que o medicamento tem como principal efeito colateral a sensação de uma forte gripe ocasionando dores de cabeça e musculares, e, ainda, em alguns casos pode apresentar sinais de depressão ou baixar as defesas do sistema imunológico. Puro engano, pois quando os pesquisadores redigiram a bula não levaram em conta os depoimentos dos familiares dos pacientes, já que o principal efeito colateral não afeta o próprio paciente, sendo que quem mais sofre com as reações adversas são os parceiros, os familiares, os amigos, os colegas de trabalho. Isto porque o maior efeito colateral, que não consta na bula ou em estudos científicos, tem o nome popular de PAVIO CURTO.

Qualquer pessoa em tratamento da hepatite C fica com uma irritação sem limites, muitas vezes descontrolada, querendo dar chute em qualquer cachorro que aparecer na sua frente. Isto, em casa pode ter conseqüências terríveis, pois se não existem motivos para comprar uma briga o paciente fica inventando um. Nas reuniões com portadores ou por e-mail me são relatados os casos mais incríveis de mudança de comportamento, a maioria relatados por seus familiares, já que o paciente em tratamento não sente na pele estes câmbios de personalidade.

Conheço casos de separação, de perda do emprego ou dos amigos, daqueles que para evitar a separação abandonam o tratamento e até casos que para enfrentar a ``barra pesada`` passam a fazer uso das bebidas alcoólicas, perdendo o tratamento.

Curiosamente isto acontece porque os pacientes não são devidamente informados antecipadamente daquilo que irão enfrentar durante o tratamento, quando então cada reação passa a ser uma novidade no seu comportamento. Pior ainda e quando o paciente escuta de seu médico que não existe a cura da hepatite C, que os medicamentos e seu sofrimento não conseguirão erradicar a doença. Será que este paciente poderá estar confiante no resultado? Nestes casos, a minha recomendação e curta e grossa: TROQUE IMEDIATAMENTE DE MÉDICO, procure um que acredite no seu conhecimento cientifico, nas possibilidades de cura, que não seja inseguro. Se algum dia for feito um levantamento, medico a médico, pesquisando o índice de resposta ao tratamento, teremos surpresas incríveis ao constatar que com o mesmo tratamento alguns conseguem a cura de mais de 60% de seus pacientes e outros não chegam sequer a metade disto. Estes últimos deveriam mudar de profissão, pois estão fazendo um terrível mal a humanidade.

O paciente em tratamento da hepatite C aparentemente e uma pessoa sadia, não tem nenhum sinal físico aparente e não usa um rotulo avisando que por estar em tratamento é uma pessoa potencialmente explosiva. Daí que seu circulo social na compreenda as mudanças de atitudes, daquele que sempre foi um sujeito calmo e cordial.

Não somente o paciente desconhece os efeitos colaterais, a família também, pelo tanto ninguém compreende o porque destas mudanças comportamentais. Se a este novo estado psicológico e de relacionamento ainda acrescentamos a compreensível falta de desejo sexual durante o tratamento, teremos então um caldo de discussão e desconfiança que da uma bela novela Mexicana, geralmente acabando em brigas intermináveis. Com o livro ``A Cura da Hepatite C`` tentei atender e responder estas questões, muitos o utilizam como um livro de cabeceira, conseguindo entender cada situação que posa aparecer durante o tratamento. Lamentavelmente muitos pacientes não tem condição econômica para o adquirir.

Nas reuniões com portadores ou nas palestras pelo Brasil sempre coloco que a desinformação e desconhecimentos dos efeitos colaterais e o maior fator de falta de aderência ao tratamento. Se o paciente e sua família soubessem o que irão a enfrentar durante o tratamento, a relação familiar seria de maior apoio e compreensão e o tratamento seria muito mais fácil de levar até o final previsto. Estaríamos conseguindo uma maior adesão do paciente, conseqüentemente uma maior resposta terapeutica.

Conseguir isto não e tarefa difícil. Deveria ser OBRIGATÓRIO que todo paciente compareça com sua família a uma reunião informativa antes do inicio do tratamento. Nesta reunião seria explicado detalhadamente tudo o que poderá acontecer durante os próximos meses. O ideal seria que esta reunião informativa fosse realizada em grupo, reunindo vários pacientes e seus familiares, poderia ser realizada dentro do próprio hospital numa manhã de sábado, reunindo varias famílias de pacientes, onde médicos de varias especialidades informariam o que pode acontecer com o humor e as reações comportamentais (psicólogos), problemas que podem aparecer na pele (dermatologistas), nos olhos (oftalmologistas) na dieta (nutricionistas) nos dentes (odontlogos) no condicionamento físico (preparadores físicos) e no próprio fígado (hepatologos, infectologistas ou gastroenterologistas).

Os Grupos de Apoio podem ter um fator fundamental nestas reuniões informativas e durante o tratamento, pois eles devem trabalhar a elevação da auto-estima do portador e incentivar a aderência ao médico atendente, com o qual, indiretamente será conseguida uma maior aderência ao tratamento, um maior índice de cura. Se o paciente se sente desamparado, por uma equipe médica que não fornece informações necessárias, a falta de aderência ante o temor do desconhecido e um fator negativo de grande influencia.

Acredito, e esta será uma das próximas lutas do Grupo Otimismo, lutar para que o tratamento da hepatite C seja um tratamento multidisciplinar, que não deve ser observado somente o vírus ou o fígado. Por serem tantas as implicâncias o paciente deve ser visto como um ser integral, complexo, com uma serie enorme de interdependências, deve ser respeitada sua condição social e o médio em que ele convive.

Com medidas simples, tenho certeza que o percentual de cura será bem maior ao atual e o investimento em saúde realizado pelo governo terá um retorno superior, uma simples questão de economia em saúde. Espero que o novo protocolo que será discutido nos próximos meses atente para uma questão singela como esta.

Carlos Varaldo
www.hepato.com
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