21/08/2006
Estudo epidemiológico sobre o tratamento da hepatite C com interferon peguilado no Brasil
Os dados que apresentamos neste estudo irão causar muito aborrecimento a alguns gestores públicos. Eles mostram a realidade crua e nua, estado por estado da situação do tratamento da hepatite C utilizando o interferon peguilado, demonstrando que não existe só um Brasil, que a oportunidade de um individuo receber tratamento no Acre é 42 vezes maior que no Ceará.
Estas diferenças regionais devem ser levadas em conta para melhor entendermos a questão do tratamento da hepatite C no Brasil. Olhar os números "macro" de um estado sem realizar estudos comparativos pode nos levar a resultados precipitados e equivocados.
Este estudo foi realizado por Carlos Varaldo na forma de consultoria pessoal a pedido da indústria farmacêutica. Assim, no presente artigo segue um "resumo" daquilo que pode interessar a todos, sejam estes gestores da saúde, políticos, organizações de pacientes e população em geral.
É autorizada a utilização do mesmo desde que citada a fonte.
RESUMO:
A despesa média mensal do Ministério da Saúde enviada como reembolso aos estados (R$. 400,00 por ampola) para o tratamento médio de 4.723 pacientes em todo Brasil e de R$. 8.188.000,00. O estudo objetiva identificar a alocação desses recursos em cada um dos estados brasileiros servindo como base para projeções estratégicas de planejamento.
MÉTODOS:
O estudo foi realizado tomando como base de calculo os dados de fontes publicas e oficiais. Os valores dos repasses e consumo do interferon peguilado foram obtidos no Ministério da Saúde pelo Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS) e os dados demográficos são os do censo do ano 2000 do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estadística.
RESULTADOS:
Analisando a média de pacientes em tratamento com interferon peguilado em cada um dos estados durante o primeiro semestre de 2006 teve como resultado a seguinte tabela:
1 - Classificação por número médio de tratamentos
2.827 pacientes - São Paulo
363 pacientes - Rio Grande do Sul
285 pacientes - Minas Gerais
158 pacientes - Paraná
148 pacientes - Rio de Janeiro
130 pacientes - Santa Catarina
104 pacientes - Distrito Federal
95 pacientes - Bahia
80 pacientes - Acre
78 pacientes - Goiás
68 pacientes - Pernambuco
65 pacientes - Alagoas
51 pacientes - Maranhão
35 pacientes - Pará
34 pacientes - Rio Grande do Norte
30 pacientes - Amazonas
30 pacientes - Espírito Santo
25 pacientes - Ceará
21 pacientes - Paraíba
19 pacientes -- Rondônia
17 pacientes - Mato Grosso do Sul
16 pacientes - Mato Grosso
15 pacientes - Piauí
12 pacientes - Sergipe
5 pacientes - Amapá
5 pacientes - Tocantins
2 pacientes - Roraima
A tabela acima mostra o Brasil olhado de cima, isto é, observando somente o número de tratamentos oferecidos a população, porém é necessário virar o Brasil para se obter o verdadeiro quadro das oportunidades de um cidadão para ter acesso ao tratamento, um
BRASIL que poderíamos chamar de
LISARB já que viramos ele ao contrario.
Existem diferenças demográficas em relação ao número de habitantes por estado. Cabe então se realizar o calculo de quantos indivíduos em relação ao total da população podem ter acesso ao tratamento. Para tal foi comparado o numero de pacientes em tratamento com a população total de cada estado obtendo percentualmente um índice de atendimento que pode ser utilizado para avaliar cada estado comparativamente com os demais e até com a média do Brasil.
2) Classificação em relação à população de cada estado
Percentual da população total por Estado e a possibilidade de receber tratamento em função do total da população do estado.
1°) 0,0143% - Acre - 1 tratamento para cada 6.970 habitantes
2°) 0,0076% - São Paulo - 1 tratamento para cada 13.100 habitantes
3°) 0,0052% - Distrito Federal - 1 tratamento para cada 19.434 habitantes
4°) 0,0035% - Rio Grande do Sul - 1 tratamento para cada 28.065 habitantes
5°) 0,0024% - Santa Catarina - 1 tratamento para cada 41.202 habitantes
6°) 0,0022% - Alagoas - 1 tratamento para cada 44.348 habitantes
7°) 0,0016% - Paraná - 1 tratamento para cada 60.528 habitantes
8°) 0,0016% - Minas Gerais - 1 tratamento para cada 62.777 habitantes
9°) 0,0015% - Goiás - 1 tratamento para cada 64.144 habitantes
10°) 0,0014% - Rondônia - 1 tratamento para cada 72.620 habitantes
11°) 0,0012% - Rio Grande do Norte - 1 tratamento para cada 81.670 habitantes
12°) 0,0011% - Amazonas - 1 tratamento para cada 93.751 habitantes
13°) 0,0010% - Amapá - 1 tratamento para cada 95.406 habitantes
14°) 0,0010% - Rio de Janeiro - 1 tratamento para cada 97.300 habitantes
15°) 0,0010% - Espírito Santo - 1 tratamento para cada 103.241 habitantes
16°) 0,0009% - Maranhão - 1 tratamento para cada 110.813 habitantes
17°) 0,0008% - Pernambuco - 1 tratamento para cada 116.446 habitantes
18°) 0,0008% - Mato Grosso do Sul - 1 tratamento para cada 122.235 habitantes
19°) 0,0007% - Bahia - 1 tratamento para cada 137.581 habitantes
20°) 0,0007% - Sergipe - 1 tratamento para cada 148.706 habitantes
21°) 0,0006% - Mato Grosso - 1 tratamento para cada 156.522 habitantes
22°) 0,0006% - Roraima - 1 tratamento para cada 162.198 habitantes
23°) 0,0006% - Paraíba - 1 tratamento para cada 163.991 habitantes
24°) 0,0006% - Pará - 1 tratamento para cada 176.923 habitantes
25°) 0,0005% - Piauí - 1 tratamento para cada 189.551 habitantes
26°) 0,0004% - Tocantins - 1 tratamento para cada 231.420 habitantes
27°) 0,0003% - Ceará - 1 tratamento para cada 297.226 habitantes
CONCLUSÕES
As diferenças gritantes. Concluímos que de cada 39.161 brasileiros 1 (UM) recebe o tratamento necessário no SUS. Considerando que 4,5 milhões estão infectados com a hepatite C podemos afirmar que 1 em cada 950 doentes se encontra em tratamento. Extrapolando estes resultados serão necessários aproximadamente 800 anos para oferecer tratamento aos atuais infectados.
O governo federal deve ignorar o pouco que foi feito nos últimos 16, desde o conhecimento da doença, e estudar formas inovadoras de atuação. Desde a criação do Programa Nacional de Hepatites Virais, em 2002, os pífios resultados obtidos demonstram o fracasso da atual política implementada pelo ministério da saúde.
Não podemos acreditar que exista um Sistema Único de Saúde - SUS implementado na sua totalidade.
Carlos Varaldo
Grupo Otimismo