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Qual o genótipo mais agressivo na hepatite C?

01/09/2009

É comum escutar por parte dos médicos que a única diferença existente entre os diversos genótipos na hepatite C e a resposta terapêutica que apresentam ao tratamento com interferon e ribavirina, se afirmando que o genótipo 1 e o mais difícil de tratar e os genótipos 2 e 3 respondem melhor aos medicamentos.

Sempre achei que não deveria ser considerada somente a resposta terapêutica e que não poderia deixar de ser considerada a agressividade especifica de cada genótipo, pois isso leva a uma maior ou menor velocidade na progressão da fibrose e no aparecimento da cirrose.

Um estudo publicado "on line" pela revista Hepatology realizado na Suíça, incluindo 1.189 pacientes infectados com hepatite C, constata que o genótipo 3 apresenta uma velocidade maior na progressão da formação de fibroses, alertando que pacientes infectados com o genótipo 3 deveriam ser estudados sobre a possibilidade de receberem tratamento o quanto antes possível.

Os dados necessários para se incluir os pacientes nas pesquisas eram o resultado da biopsia antes de iniciar o tratamento e a provável época da ter acontecido à infecção. Diversos fatores de risco independentes já conhecidos para a progressão da fibrose eram analisados, como a idade em que aconteceu a infecção, o sexo e a atividade histológica.

Em todos os genótipos foi observado que indivíduos usuários de drogas injetáveis se encontravam entre os que a velocidade de progressão da fibrose era mais acelerada, já entre os que se infectaram por um acidente não intencional com uma agulha contaminada ou por transfusão de sangue, apresentavam uma progressão mais lenta.

Na comparação por genótipos foi utilizada a escala Metavir para estudar a velocidade de progressão da fibrose do genótipo 3 e a dos outros genótipos, chegando aos seguintes resultados:

- A progressão da fibrose de F0 para F1 foi de 1,26% ao ano no genótipo 3 contra 0,91% ao ano nos outros genótipos;

- A progressão da fibrose de F1 para F2 foi de 0,99% ao ano no genótipo 3 contra 0,65% ao ano nos outros genótipos;

- A progressão da fibrose de F2 para F3 foi de 0,77% ao ano no genótipo 3 contra 0,68% ao ano nos outros genótipos;

- A progressão da fibrose de F3 para F4 foi de 1,71% ao ano no genótipo 3 contra 1,12% ao ano nos outros genótipos;



MEUS COMENTÁRIOS:

É conhecido que o genótipo 3 está associado a uma maior propensão de ocasionar o distúrbio metabólico, motivo pelo quais os infectados com o genótipo 3 desenvolvem esteatoses (depósitos de gordura no fígado) com maior facilidade e são propensos a desenvolver diabete do tipo 2, situações que ocasionam maiores problemas no fígado aumentando a progressão da doença. Provavelmente não é o genótipo 3 mais agressivo que os outros, mas pode ser que a combinação de esteatose, diabete e vírus 3 resulte na constatação desta pesquisa em relação à progressão da fibrose.

Com os dados obtidos na progressão de cada estagio e utilizando os dados existentes na literatura cientifica, os quais informam estatisticamente que 1 de cada 4 pacientes não tratados chegam à cirrose (F4) na media de 23 anos, realizei o calculo com os valores encontrados na pesquisa, estimando uma media de seis anos para a evolução a cada um dos graus de fibrose, chegando ao resultado que, de cada 100 infectados com o genótipo 3, 28 estarão desenvolvendo cirrose após 24 anos, contra somente 20 em cada 100 dos infectados com os genótipos 1 ou 2 da hepatite C. A possibilidade de chegar à cirrose de 1 de cada 4 infectados com o genótipo 3 após 23 ou 24 anos de ter acontecido a infecção e 40% superior aos infectados com os genótipos 1 ou 2.

Outro dado que chama a atenção e que a velocidade de progressão da fibrose aumenta consideravelmente em todos os genótipos ao se chegar a F3. A velocidade entre a progressão de F3 para F4 e 100% maior que no estágio de F2 para F3.

Os dados mostram que o genótipo 3 por causar uma velocidade superior na progressão do dano hepático e, por apresentar excelente resposta ao tratamento (entre 70% e 80% conseguem a cura com o interferon peguilado) deveria receber indicação para tratamento o mais precocemente possível. Pelo menos está é minha opinião pessoal, esclarecendo que não sou médico e simplesmente estou enxergando o lado do paciente infectado.

Este artigo foi redigido com comentários e interpretação pessoal de seu autor, tomando como base a seguinte fonte:
Genotype 3 is associated with accelerated fibrosis progression in chronic hepatitis C - J Hepatology. 2009.06.010 - Available online
Pierre-Yves Bochud1, 2, Tao Cai1, 2, Kathrin Overbeck3, Murielle Bochud4, Jean-François Dufour5, Beat Müllhaupt6, Jan Borovicka7, Markus Heim8, Darius Moradpour9, Andreas Cerny10, Raffaele Malinverni11, Patrick Francioli12, Francesco Negro3, 13, , and on behalf of the Swiss Hepatitis C Cohort Study Group1
1Department of Internal Medicine, Infectious Diseases Service, CHUV, Lausanne, Switzerland
2Institute of Microbiology, University of Lausanne, CHUV, Lausanne, Switzerland
3Division of Clinical Pathology, University Hospitals, Geneva, Switzerland
4Institute for Social and Preventive Medicine, CHUV, Lausanne, Switzerland
5Division of Clinical Pharmacology, University Hospital, Bern, Switzerland
6Division of Gastroenterology and Hepatology, University Hospital of Zurich, Switzerland
7Division of Gastroenterology, Canton Hospital, St. Gallen, Switzerland
8Division of Gastroenterology and Hepatology, University Hospital of Basel, Switzerland
9Division of Gastroenterology and Hepatology, CHUV, Lausanne, Switzerland
10Clinica Moncucco, Lugano, Switzerland
11Pourtalès Hospital, Neuchâtel, Switzerland
12Division of Hospital Preventive Medicine, CHUV, Lausanne, Switzerland
13Division of Gastroenterology and Hepatology, University Hospitals of Geneva, 24 rue Micheli-du-Crest, 1211 Geneva, Switzerland


Carlos Varaldo
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