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A necessidade de quebrar paradigmas na hepatite C

25/10/2013

Desde o ano 2000 que muito se fala sobre novos tratamentos na hepatite C, mas se passaram 10 anos sem ter aparecido nada novo, somente dispondo do interferon peguilado e da ribavirina. Somente dois anos atrás apareceram o boceprevir e o telaprevir, os quais realmente aumentam a possibilidade de cura aos infectados com o genótipo 1, mas ao mesmo tempo aumentou a complexidade do tratamento e os efeitos adversos e colaterais.

Nas próximas semanas serão aprovados nos Estados Unidos dois novos medicamentos, o sofosbuvir e o simeprevir, autorizados inicialmente para serem utilizados combinados ao interferon peguilado, mas é a porta de entrada para possibilitar tratamentos orais, com o sofosbuvir para os genotipos 2 e 3 ou combinando sofosbuvir e simeprevir para tratar o genótipo 1 sem interferon.

Com os dois medicamentos o tempo de tratamento será menor para a maioria dos pacientes tratados, mas é bom lembrar que todo medicamento apresenta efeitos adversos e colaterais e a maioria deles se descobrem quando chegam ao mercado e são tratados milhares de pacientes.

Assim como o tratamento com interferon e ribavirina deixa sequelas em um número limitado de pacientes, até em alguns casos permanentes, não podemos nos iludir que os novos medicamentos que estarão chegando nos próximos anos serão livres de qualquer efeito adverso. Simples analgésicos ou antiinflamatórios em uso há dezenas de anos ainda apresentam contraindicações para muitos pacientes.

Mas devemos reconhecer que evidentemente estamos frente a quebra de paradigmas no tratamento da hepatite C. A forma como a hepatite C é tratada atualmente será totalmente diferente daqui a três anos e, também, com uma segunda onda de medicamentos será novamente totalmente diferente daqui a cinco anos. Duas revoluções estarão chegando e isso vai mudar totalmente a forma de tratar e entender a hepatite C.

É necessário estar preparados para esse futuro iminente. Quem continuar pensando e planejando como o fez até agora estará fadado ao fracasso no enfrentamento da epidemia.

Seguramente os tratamentos para a quase totalidade dos infectados será oral, de curta duração e cura de mais de 90%, o que possibilitará ampliar o atendimento. Médicos clínicos generalistas poderão ser capacitados a indicar o tratamento, pelo menos em pacientes sem cirrose.

A biopsia deverá ser aposentada, substituída por métodos não invasivos. A necessidade do genótipo talvez desapareça, pois alguns dos novos medicamentos atuam em todos os genotipos por igual. A carga viral certamente vai desaparecer, o importante será conhecer se o indivíduo está ou não está infectado e isso é possível com um simples teste qualitativo. Será mais custo efetivo tratar imediatamente após a confirmação do diagnostico.

Mas o panorama descrito acima, que parece fantástico, possui muitos desafios e incógnitas para as quais por enquanto não existem respostas definitivas. O principal problema será encontrar os infectados, pois para oferecer tratamento é necessário diagnosticar, realizar rastreios eficientes. De nada servirão os novos medicamentos se não encontramos quem deve ser tratado.

Outra questão a resolver, bastante espinhosa, é o financiamento dos governos para ofertar os tratamentos. Os medicamentos certamente serão caros e se a isso adicionamos um aumento considerável no número de tratamentos devemos nos prepara para duplicar, triplicar ou até quintuplicar o orçamento da saúde destinado a hepatite C, já nos próximos anos.

Mas como existem duas dezenas de medicamentos em fases adiantadas ou finais das pesquisas a competição será acirrada e uma guerra de preços deverá ser deflagrada, já que todas as empresas desejarão estar no mercado. Também como os novos medicamentos são moléculas sintéticas, relativamente fáceis de copiar, é provável que rapidamente estarão aparecendo medicamentos genéricos ou similares, quando terceiros países, seja por quebra de patente ou licenciamentos compulsórios, passarão a fabricar.

Obstáculos para diagnósticos, tratamentos e possibilidades de cura sempre irão existir. Superar essas barreiras com investimentos em saúde pública e estratégias inovadoras em cada país serão necessários para enfrentar a epidemia, mas se conseguirem se unir os governos, fabricantes, sociedades médicas e sociedade civil, será possível vencer a hepatite C.

Carlos Varaldo
www.hepato.com
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