GRUPO OTIMISMO DE APOIO A PORTADORES DE HEPATITE C
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06/01/2006
Desacato ao Povo
De tão cansado da longa espera, tinha acabado de encostar-me na parede do corredor da emergência do segundo andar de um hospital público do Rio de Janeiro. De longe, vejo minha mulher se aproximando. Chorava de alívio e tristeza ao mesmo tempo. Não havia qualquer sinal de vida de profissionais no setor e, por este motivo, tinha acabado de participar dos exames de um bebê de um ano, cuja mãe não podia entrar na sala de radiologia por estar grávida. Abracei, próximo à maca fria, onde se encontrava Adriana, motivo de nossa ida ao hospital face à completa desinformação aos parentes que lá estavam.
Desde que chegara, vítima de um atropelamento, lhe foi retirada a imobilização cervical que o corpo de bombeiros havia lhe colocado. Adriana estava ali jogada como tantos outros pacientes, invisível aos olhos de quem passava. Neste momento, me vi pensando em todos os absurdos que testemunhava nas horas em que ali passamos.
Poucos minutos antes, minha mulher, teria solicitado ao gentil técnico de tomografia, o empréstimo de seu capote de proteção para poder acompanhar o bebê que se agarrou a ela como se fosse seu filho. Enquanto isto, após ser informado pelo técnico de que a tomografia de Adriana mostrava normalidade, estendi minha conversa com ele procurando entender as dificuldades de seu dia a dia. Confirmei que ali não havia ninguém para ajudá-lo na realização do exame. Soube ainda que não havia dosímetro, o que o colocava em situação de risco. Mesmo com tanta adversidade, o técnico demonstrava simpatia e presteza. Com vergonha, o vi dizer a uma senhora que aguardava a sua vez, que não seria possível realizar o exame por não haver contraste para tal. Com a mesma vergonha me disse pouco antes: "Sabe como é, aqui é hospital público."
O que vi de humano se resumiu ao técnico de radiologia, aos incansáveis maqueiros, a um médico entre tantos e os esforçados acadêmicos, quase todos mulheres. Nada mais. Minha mente não me deixou divagar demais, ao me lembrar da cena, ocorrida pouco antes, enquanto Adriana aguardava para repetir seus exames. Uma outra profissional de saúde que se encontrava sentada na mesa próxima às salas de radiologia anotava, burocraticamente, o nome e mais alguns dados dos pacientes. Questionei-me, diante da falta de gestão em tudo o que via, qual seria, de fato, a utilidade no que fazia. A burocracia parecia ser atendida, mas o paciente não. Lembrei-me da frase de meu pai de poucos dias antes dizendo que a "estrutura da saúde acabava impedindo o atendimento á saúde".
Indagada sobre o ultra-som, a funcionária me informou que funcionava depois das 20:00. Vi no relógio que já se passava das 21:00. Ao lhe informar isto, recebi a seguinte resposta: "Sabe como é, depois das 20:00 quer dizer muita coisa... tem dia que é 20:30, tem dia que é 21:00, tem dia que é ainda mais tarde" e terminou dizendo: "Hospital público é assim."
Pouco depois, vejo um vulto passando por trás de mim. Quando me viro, vejo um jovem, suado, pulando como um saci, se encostando ofegante na pilastra do hospital para se recuperar da exaustão e ganhar fôlego para chegar ao setor de radiologia. Parecia ter vindo assim desde a entrada do hospital no andar inferior.
Àquela altura, tinha acabado de conhecer Alexandra que, aguardava, nervosa, informações sobre o paradeiro do irmão operado naquele dia. Desde que retornara ao hospital, três horas antes, ainda não sabia onde ele estava internado. Alexandra me marcou pois representava, tanto quanto os outros, a miséria psicológica e social do ser humano, patrocinada pela incompetência do poder público.
Com os exames de tomografia de Adriana, me dirigi ao que rapidamente aprendi ser a sala de repouso dos médicos a procura daquele doutor que pedira para ver os exames. Sem perceber, já dava sinais de que me curvava àquela mesma condição dos que não sabem lutar por seus direitos. Isto porque cheguei a me sentir constrangido ao interromper o doutor que assistia à televisão com seus colegas.
Finalmente, passadas quase 8 horas desde que Adriana chegara ao hospital, recebemos a informação de que estaria de alta, já tendo, aos trancos e barrancos, passado pelas avaliações dos departamentos de ortopedia, cirurgia geral e neurologia. Com muita dor, a bacia quebrada e hematomas, mas sem lesões na cabeça, poderia voltar para casa.
Saí de lá por volta das onze horas da noite, triste, revoltado, querendo gritar no meio da noite pelas vítimas dos desserviços do Estado. Pensei, mais uma vez, o que poderia fazer por aqueles que são atendidos desta forma todos os dias. Por aqueles que até se conformam achando que tem o tratamento que merecem. Por aqueles que já perderam a esperança.
Exijo que outras vozes mais poderosas que a minha se façam ouvir e criem um grito de horror que possa comover o Estado, lembrando que a única autoridade é o cidadão e que somos credores de serviços em padrões compatíveis com as nossas contribuições.
Atravessando a rua, me lembrei da frase que li, no vidro da recepção do hospital, assim que cheguei. Dizia algo como "desacato ao funcionário público é crime por lei". E, ao sair, perguntei-me: "e desacato ao povo, o que é ?"
Adriano Londres é
cidadão (e economista)