GRUPO OTIMISMO DE APOIO AO PORTADOR DE HEPATITE
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17/10/2006


2006, mais um ano perdido na luta contra a hepatite C


Participando de uma mesa sobre co-infecção HIV/HCV no 13° Encontro Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS no dia 13 de outubro, onde em vez de falar simplesmente apresentei números oficiais sobre a doença, detecção, notificação e tratamento, causou uma certa frisão quando falei que hoje defenderia a idéia, caso alguém sugerisse, acabar com o Programa Nacional de Hepatites Virais (PNHV). É uma virada de 180 graus no meu pensamento, pois todos sabem que muito lutei para a criação do programa e para que o mesmo permanecesse independente.

Mas devemos dar a mão à palmatória e reconhecer que de nada adiantou a criação do PNHV. Os números falam por si, mostrando a ineficácia das ações e os magros resultados nestes quatro anos de existência do PNHV.

Acrescentando alguns dados, não mostrados na apresentação e, que se encontram disponíveis na página do Ministério da Saúde, vamos mostrar rapidamente porque 2006 já e um ano perdido na luta contra a hepatite C. Cabe destacar que todos os dados são oficiais, constantes na produção ambulatorial da Tabelas DATASUS-SIA/SUS encontradas em http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sia/cnv/pauf.def

No ano de 2005, conforme dados oficiais do PNHV sobre tratamento da hepatite C foram tratados 6.500 pacientes em todo Brasil. A promessa realizada em abril, perante a Câmara de Deputados, era a de tratar 18.000 pacientes em 2006. Um aumento de 300% sobre 2005.

Para verificar o que esta acontecendo devemos comparar o ano de 2005 com o de 2006. Vamos então listar o consumo dos três únicos medicamentos utilizados no tratamento da hepatite C, o interferon alfa, o interferon peguilado e a ribavirina. Como o DATASUS já disponibiliza dados até o mês de agosto de 2006 e perfeitamente possível trabalharmos com a media mensal e fazer a projeção para todo este ano. Vejamos os resultados pelo consumo de cada um dos três medicamentos.


INTERFERON PEGUILADO

Ano de 2005 - 234.008 ampolas - Consumo médio de 19.500 ampolas por mês;
Primeiros oito meses de 2006 - 171.640 ampolas - Consumo médio de 21.455 ampolas por mês.
Resultando num aumento no consumo de 10,02%


INTERFERON ALFA (CONVENCIONAL)

Ano de 2005 - 355.120 ampolas - Consumo médio de 29.593 ampolas por mês;
Primeiros oito meses de 2006 - 192.521 ampolas - Consumo médio de 24.065 ampolas por mês.
Resultando numa redução no consumo de 18,68%


RIBAVIRINA

Ano de 2005 - 9.823.983 cápsulas - Consumo médio de 818.663 cápsulas por mês;
Primeiros oito meses de 2006 - 6.634.795 cápsulas - Consumo médio de 829.349 cápsulas por mês.
Resultando num aumento no consumo de 1,30%

Uma analise dos números mostra que simplesmente aconteceu uma migração na indicação do interferon, onde aumentou em 10% o numero de pacientes tratados com o interferon peguilado e teve menos 18,68% de pacientes tratados com o interferon convencional. O consumo da ribavirina se manteve estável, confirmando assim que estamos no mesmo patamar de tratamentos de 2005. A projeção é valida porque já considera um consumo de 66% (oito meses) do ano de 2006. Nada de novo pode vir a acontecer e o numero de tratados vai ficar muito perto dos 6.500 de 2005, a não ser que estejam oferecendo tratamentos espirituais, pois o consumo dos medicamentos não aumentou.

É uma pena, mais um ano perdido, com grandes promessas como sempre nunca cumpridas, onde até tivemos de escutar (engolir seria mais adequado) dos gestores do ministério da saúde, quando apresentaram o plano tri anual na Câmara de Deputados, que os números do planejamento deveriam ser grandes para assim impressionar. Por isso mostravam que em 2006 iriam oferecer tratamento a 18.000 pacientes.

Na matéria do último dia 14 (encontrada na nossa página) coloquei que durante o intervalo de uma palestra em Portugal escutei falar que o vírus da hepatite C, apesar de infinitamente minúsculo demonstrou ter maior inteligência que a de alguns gestores da saúde pública. A confirmação disto e que o vírus está ganhando a guerra contra a doença em muitos países, onde as pessoas morrem e os resultados das ações se apresentam insignificantes. Foi uma colocação agressiva, mas perfeitamente aceitável para quem vive o dia a dia convivendo com a morte dos companheiros infectados.

Fica então uma pergunta: até quando vamos insistir nestes mesmos erros, sem resultados concretos? Adaptando o escrito por Francis Bacon no ano de 1620 no livro "A Nova Lógica" podemos escrever: "Não há esperança em qualquer aumento no combate a epidemia pelo simples enxerto ou adição do novo ao velho conceito. A reconstituição das ciências deve começar nos fundamentos mais básicos, a não ser que nós prefiramos ficar dando voltas em círculos perpétuos a uma velocidade inaceitavelmente lenta".

É, ainda, vejo com tristeza que algumas organizações de pacientes (e ate sociedades médicas) aprovam estes resultados e até fazem moções de apoio as realizações conseguidas na luta nas hepatites. Terão estes senhores outros números que não os oficiais? Será que acabar com o PNHV, como coloquei na apresentação, pode representar alguma perda?

Carlos Varaldo
Grupo Otimismo







Last updated 17.10.2006