02/06/2007
"Ministro da Saúde participa de Seminário sobre Hepatites"
Este artigo foi redigido com comentários e interpretação pessoal de seu autor, tomando como base informações (texto em preto) sobre as colocações no evento, as quais foram obtidas da divulgação efetuada para a imprensa pela "Agencia de Notícias da AIDS" que deu cobertura ao seminário. Assinam as matérias divulgadas os jornalistas Rodrigo Vasconcellos e Talita Martins, presentes no evento. Os comentários, marcados em "itálico em azul" são de minha autoria.
No dia 22 de maio o Programa Nacional de Hepatites Virais divulgou para a imprensa que o "Ministro da Saúde participa de Seminário sobre Hepatites". A divulgação informava que o tal seminário aconteceria entre os dias 28 e 30 de maio em Brasília reunindo 35 comunicadores e jornalistas formadores de opinião de onze estados, e comunicadores com atuação em ONGs.
Estranhamente as ONGs que lutam pelas hepatites não foram sequer comunicadas do evento, quebrando mais uma vez o acordado durante os ENONGs (Encontros Nacionais das Organizações Não Governamentais) no qual o PNHV se comprometeu por escrito a sempre comunicar eventos as associações e estas, por votação, indicariam um representante de cada região para comparecer aos eventos. É lamentável que justo no mês de maio, quando 48 ONGs realizaram ações de divulgação nas hepatites, o governo ignore o movimento social, não cumpra com o acordado e tente mostrar aos jornalistas uma imagem que só reflete um dos lados da moeda na triste situação das hepatites no Brasil.
O seminário foi um desperdiço do dinheiro público. O ministro, conforme anunciado não apareceu e, a pretendida freqüência dos "formadores de opinião" ficou limitada na sua maioria a jovens jornalistas, também, como é que alguém dos organizadores não tenha um mínimo de experiência para avaliar que grandes meios de comunicação não estariam deslocando editores e jornalistas para ficar três dias em Brasília.
Na apresentação de abertura a coordenadora do PNHV, Dra. Gerusa Figueiredo, informou que em 2003 e 2004, a hepatite C matou apenas 2.371 indivíduos e a hepatite B ocasionou 858 óbitos. A notificação da causa mortis nos óbitos é obrigatória. Jornalistas presentes acharam estranho que embora o governo federal apresente os números desde 1992, impressiona a ausência da quantidade de óbitos nos demais anos analisados, desde 1992 até 2002 e mais recentemente dos anos de 2005 e 2006.
Esses números não impressionam os profissionais da saúde já que somente na lista de espera por um transplante de fígado por culpa da hepatite C morre um número maior as estatísticas de óbitos apresentadas pelo PNHV, sem contar aqueles que morrem sem chegar a serem incluídos na lista de transplante. As estatísticas de óbitos por culpa das hepatites B e C são totalmente falhas, escondendo a realidade da letalidade das epidemias. Os serviços de notificação sobre a doença foram criticados pelos especialistas presentes, que afirmaram que os dados atuais não mostram a realidade, devido à sub-notificação.
A consultora técnica do PNHV, Luciana Lara, contou que a última campanha de hepatites foi realizada em 2004, num folheto informativo. Nada mais foi realizado desde então conforme criticou um jornalista da Bahia. "Enxergo isso como uma deficiência de Estado", classificou.
A Dra. Luciana Lara explicou que a infecção pelo vírus HCV (Hepatite C Viral) acontece principalmente entre usuários de drogas injetáveis ou ilícitas.
Acho lamentável e preconceituosas colocações deste tipo, principalmente quando o órgão federal responsável pelas hepatites apresentando a hepatite C dessa forma cria enorme discriminação para os infectados. Tentar esconder dos presentes ao seminário que a maioria das infecções aconteceu antes de 1993 por culpa de transfusões de sangue e seringas de vidro (não descartáveis) e, se informar que os infectados são usuários de drogas ilícitas e uma tática condenável que alguns governos estão utilizando para inibir as pessoas a procurar o teste de detecção, pois se positivas serão consideras usuários de drogas ilícitas e sofrer discriminação social. Deveria a Dra. Lara e todos os responsáveis pela gestão serem mais cautelosos nas suas colocações, devendo esclarecer que na atualidade a infecção com a hepatite C esta controlada, que acontecem poucas novas infecções e, que dois terços das novas infecções acontecem entre usuários de drogas. Dar a entender que todos os infectados com hepatite C são usuários de drogas ilícitas e uma atitude irresponsável que agride os infectados, muito deles por culpa do próprio governo que não alerta a população.
A manhã da terça-feira (29/05) foi marcada por um longo debate sobre comunicação no II Seminário de Hepatites para Comunicadores, em Brasília (DF). Uma militante do movimento social de hepatites, Heloísa Caiado, tomou conhecimento do evento e participou das atividades. Em uma de suas provocações, ela disse que as pautas dos jornais são provenientes somente de agências de notícias. "Os jornais parecem iguais, não existe um trabalho investigativo, as manchetes são as mesmas, o conteúdo é de agência", atacou, depois das apresentações, a ativista Heloísa Caiado.
Este texto foi divulgado pela Agencia de Noticias da AIDS, tentando desmerecer as colocações da militante.
"No Brasil, 70% dos casos de hepatites agudas não são diagnosticados", lembrou o Dr. Raymundo Paraná na sua apresentação. O especialista fez uma explanação sobre o tema e apresentou dados numéricos e estatísticos que causaram espanto sobre a endemia brasileira. Somente no Estado de São Paulo, pelo menos 1 milhão de pessoas poderiam ser vacinadas contra a hepatite B. Um jornalista presente no evento classificou a doença como uma "Aids do futuro". Existe falta também de especialistas especializados em medicina tropical, patologistas. Os médicos não são preparados para atuarem fora do sistema urbano. O Dr. Paraná ainda defendeu a produção nacional de medicamentos e que o SUS cobre os procedimentos dos planos de saúde.
A seguir a coordenadora do Programa Nacional de Hepatites Virais, Dra. Gerusa Figueiredo, defendeu a vacinação para prevenir a hepatite B, comemorando o fato do Brasil possui cobertura contra hepatite B desde a década de 80 e informou que, em 2006, as vacinas atingiram 96,6% de recém-nascidos.
Cabe aqui explicar ao leitor que o Programa Nacional de Hepatites Virais nada tem a ver com a vacinação. Existe um Programa Nacional de Imunização no ministério da saúde e cabem aos responsáveis por esse programa os méritos de ter atingido essa marca.
O Deputado Geraldo Thadeu afirmou que se a PEC 29, que regulamenta os recursos para a saúde fosse aprovada no Congresso, existiriam maiores recursos para serem aplicados.
Mas o que vemos e que a votação dessa emenda constitucional se arrasta há anos no Congresso e nunca e colocada em pauta. Os gestores públicos e parlamentares pensar em soluções imediatas para evitar a morte daqueles com elevado dano hepático e não vivermos na esperança de promessas ações futuras, que tal vez nunca se concretizem.
Uma representante do Programa de Redução de Danos entre usuários de drogas, Semiramis Vedovatto informou que o fornecimento de canudos e seringas descartáveis reduz a incidência de hepatite C. "Há estudos dos Estados Unidos e uma pesquisa brasileira, que será publicada pela Fiocruz em breve, garantindo que 1,5% das infecções podem ser evitadas com esta medida", acrescentando que no próximo semestre, a Aborda deve promover um seminário e elaborar uma campanha para sensibilizar a população sobre consumo de drogas, sem a forma pejorativa e criminal tratada pela mídia. A defesa da discriminização das pessoas que usam drogas ilícitas e a prevenção foram os destaques da palestra.
Faço aqui um comentário. Falamos acima que atualmente dois terços dos novos infectados são usuários de drogas ilícitas. Vejam como é curioso constatar que após três anos de uso de drogas injetáveis somente 5% dos usuários estão infectados com o HIV/AIDS. Isso é um sucesso do programa de redução de danos e merece aplausos. Porém, conforme diversos estudos publicados na literatura cientifica, nesses mesmos grupos de usuários de drogas entre 50 e 70% se encontram infectados com a hepatite C. Ou seja, foi criado um programa, se investiram recursos formidáveis para conter a epidemia de AIDS e, esqueceram que também existia a hepatite C. Sabiam que o vírus da AIDS morre em minutos fora do organismo, mas esqueceram de perguntar quanto tempo sobrevive o vírus da hepatite C. Como resultado, entre 50 e 70% dos atuais usuários de drogas injetáveis estão infectados com a hepatite C. Podemos então afirmar que o sucesso do Programa de Redução de Danos se deu na AIDS, mas a quem cabe a culpa pela disseminação da hepatite C entre os usuários de drogas?
COMENTÁRIO FINAL:
Fico triste ver o acontecido e do dinheiro público desperdiçado. Ver que nada se falou sobre as ações nas populações indígenas do Vale do Javari, divulgadas pelo PNHV em 2003, ver que nada se falou sobre o fantástico Plano TRI-ANUAL para os anos de 2006, 2007 e 2008 apresentado ano passado até no Congresso Nacional, do qual transcorrido já metade da sua programação ainda nem sequer começou. Fico triste de ver que o PNHV fala orgulhosamente de ter realizado uma campanha com a impressão de um folheto em 2004 e nada mais desde então. Fico triste de ver os parcos recursos do PNHV gastos num seminário que na realidade foi em relação a AIDS e não a hepatite C. Fico triste de ver que na pasta recebida pelos jornalistas tinha folhetos sobre posições sexuais entre homens e sobre o uso de silicone por travestis, coisas que nada tem a ver com as hepatites B e C. Ficaria triste por muitas questões e promessas nunca resolvidas, mas para encerrar coloco simplesmente algumas questões para meditar:
1 - Qual o objetivo de possuirmos um programa nacional de hepatites se os anos passam e não aparecem resultados concretos? Em 2007 somente 11.000 indivíduos receberam tratamento para hepatite C e menos de 2.000 na hepatite B. Somente 1 em cada 500 infectados receberá tratamento. É necessário um programa para cuidar dessa insignificância?
2 - Porque a hepatite B por ser uma doença sexualmente transmissível, entre 40 e 100 vezes com mais facilidade que a AIDS não se encontra dentro do programa que especificamente cuida das DST, que é o Programa DST/AIDS?
3 - Porque o programa que cuida do tratamento das hepatites esta dentro do setor de Vigilância Epidemiológica? Epidemiologia deve cuidar das notificações, das ações preventivas e não do atendimento aos infectados. Cabe a Secretaria de Atenção a Saúde, que é a que tem relação com o atendimento na rede hospitalar, abrigar um programa de atendimento.
Este artigo foi redigido com comentários e interpretação pessoal de seu autor, tomando como base informações (texto em preto) sobre as colocações no evento, as quais foram obtidas da divulgação efetuada para a imprensa pela "Agencia de Notícias da AIDS" que deu cobertura ao seminário. Assinam as matérias divulgadas os jornalistas Rodrigo Vasconcellos e Talita Martins, presentes no evento. Os comentários, marcados em "itálico em azul" são de minha autoria.
Carlos Varaldo
Grupo Otimismo