12/06/2006
A Tecnologia, o Médico e o Medo
O que será mais importante para o médico daqui a alguns anos: o estetoscópio ou o computador?
Guilherme S. Hummel
Tradicionalmente olhamos para os médicos como cientistas que têm uma consideração alta por fatos e dados. Certamente que isso é uma verdade. Todavia por trás dessa evidência existe uma rejeição natural de grande parte dos médicos por qualquer "informação" que rivalize com sua "visão" da realidade. Quando isso ocorre, normalmente adicionam algum nível de racionalização ou contextualização no problema de forma a neutralizar o poder da tecnologia. Muitos são os motivos para isso, mas o principal sem duvida é o medo.
Jeff Miller, um dos mais importantes Managers da Hewlett-Packard (HP) na área de Saúde, avaliou recentemente que a redundância e a ineficiência respondem por 25% a 40% dos 3,3 trilhões de dólares que o mundo gasta em saúde, e que isso poderia ser eliminado com a intensa utilização das tecnologias de informação médica.
A publicação americana Health Affairs, junto com o Centre for Information Technology Leadership, em Boston, publicou pesquisa mostrando que a interoperabilidade do prontuário digital do paciente, bem como a sua intensa utilização pelos médicos, resultaria numa redução superior a 77 bilhões de dólares por ano nos custos dos EUA com a Saúde. Ótimo, se por outro lado a mesma pesquisa não mostrasse que 95% da rede de médicos públicos e privados do país continua a utilizar o papel como forma de registro clínico.
Como se pode ver, o coro uníssono de que "a medicina não é um livro de receitas" não é exclusividade de brasileiros. Esse é um problema mundial, mas... datado.
Existem sensíveis avanços ocorrendo em muitos países. Na Inglaterra, 98% dos clínicos gerais, também chamados de médicos de família (general practitioners), têm computadores em algum lugar de seu ambiente pessoal de trabalho. Mais que isso, segundo a NHS, 30% reivindica um ambiente de trabalho hospitalar "paperless", onde as tecnologias de informação médica substituam o papel.
A conclusão é dupla: (1) em pouco tempo não haverá espaço para qualquer profissional de Saúde que renegue a utilização do computador como ferramenta pessoal de trabalho, e (2) as novas gerações, totalmente afinadas com o "tal do mouse", vão utilizar essas ferramentas tanto quanto o estetoscópio. Se o motivo não for para auxiliar sobremaneira o seu trabalho, será porque os custos mostram que a medicina queimou as pontes ao optar pela intensa utilização da tecnologia de informação.
E onde "moram" as resistências? Qual o topologia do medo?
Segundo o Dr. Marcus Lira Brandão, professor de Psicobiologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto, "o medo é uma reação adaptativa do meio, na medida em que faz com que o animal se proteja das ameaças do ambiente".
O medo mais comum na utilização da informática pelos médicos, segundo Alan P. Marco, Master of Medical Management da Carnegie Mellon University, é aquele inerente a todo o ser humano: o medo de errar, ou, em outras palavras, o medo de "descobrir que descobriram o erro".
Os dados, as informações e os fatos gerados pelo controle apurado das informações clínicas é um espelho revelando constantemente que os médicos, como todos nós, também erram. E erram muito. Recentemente o jornal The Economist fez uma comparação atrevida, baseada em dados, informando que nos EUA o número de vitimas de erros médicos pode ser comparado ao numero de vitimas da "colisão de dois 747s por dia".
O problema não pára na visão do erro. Outro medo comum está ligado à vaidade e ao confronto de que a tecnologia de informação possa ameaçar a sua capacidade de gerar suposições e percepções. Isso o leva a um sentimento obscuro, que na melhor das versões desafia o seu papel de líder.
Todas essas reações têm explicações históricas. Até o século XIX o médico era um "cuidador". Sua formação acadêmica estava voltada em moldá-lo como tal, de forma a tratar a doença com os meios possíveis e esperar que Deus processasse a cura. Dessa época vem a famosa frase de Ambroise Pare: "Eu o tratei, e Deus o curou".
A partir do século XX, aos poucos, a sua formação veio sendo direcionada para as competências de um "curador", ou seja, caberia a ele ser o interventor capaz de curar as moléstias. Seguindo nessa mesma direção, a responsabilidade do médico perante a sociedade cresceu, o que mistificou o seu papel perante o paciente (e às vezes perante ele mesmo), tornando-o algo completo, isento de falhas, imune a erros e caracterizado como uma "entidade salvadora".
Erraram os dois lados, afinal o médico é um ser humano como todos nós e, portanto, susceptível aos erros, e a sociedade secularmente é uma exploradora tenaz de qualquer processo que a exima da culpa de não se prevenir das doenças.
Todavia, nos últimos 30 ou 40 anos, com a descoberta da penicilina e o avanço da terapêutica medicamentosa, foi ocorrendo à migração do papel divino de curar para o papel de médico-consultor. Aquele que orienta, que acompanha, que estimula, que previne e que "entende a dor".
A sociedade por sua vez, também lentamente, vai percebendo que o salvador não existe e que o médico, as tecnologias, a sua própria conscientização e o poder público é que vão ajudá-la a vencer os desafios da Saúde.
Se pelo lado da capacidade de resolver a tudo e agradar a todos a prática médica perdeu, pelo lado humanístico o seu papel cresceu e vem sendo avaliado de forma positiva pela sociedade cientifica. Isso deveria ser um fator de alívio para o médico.
A medicina vai se tornando, antes de tudo, uma prática humanística e holística. A criação de uma consciência ética e humanista, enlaçada ao desenvolvimento das competências cognitivas e emocionais, está trazendo o médico para perto do "suporte a cura", e não para a cura em si. Como diz a Dra. Izabel Cristina Rios num recente artigo: ... "o médico atual não é mais o detentor de um saber guardado em si; é cada vez mais aquele que deve fazer a mediação desse saber junto à sociedade".
Hoje, o conhecimento de um profissional de Saúde surge do seu grau de assimilação das informações disponíveis e da sua experiência acumulada ao longo dos anos. A tecnologia está no palco para turbinar esse conhecimento e aliviar as cobranças da sociedade. O poder desse conhecimento no trato com a doença é conhecido mais comumente como "medicina baseada em evidências (MBE)", e vem sendo sistematizado pela comunidade médica mundial desde sua introdução em 1992.
A tecnologia avança a passos rápidos e, em geral, os profissionais acima de 45 anos têm dificuldade em usar os novos instrumentos de comunicação (como por exemplo, a WEB). A intimidação diante dos avanços tecnológicos cria barreiras cada vez mais difíceis para o próprio médico. Uma menina de 11 anos de idade que vai com os pais a um ginecologista, na véspera, já varreu a Internet de ponta a ponta atrás das informações sobre o ciclo menstrual. Sabe o que vai ouvir, sabe o que vai perguntar ao médico, sabe o que não vai ser dito na frente dos pais e saberá se o médico é ou não confiável.
A revista Business Week publicou uma matéria há dois anos atrás em que questionava de forma provocativa: ..."até onde vamos precisar dos médicos?" A resposta é inequívoca: sempre. A importância da medicina cresceu nos últimos anos de forma exponencial, na mesma proporção em que cresceram as endemias, as epidemias, o perigo das pandemias e, principalmente, na mesma proporção em que cresceu a tecnologia e as modernas técnicas de diagnóstico e dos mecanismos terapêuticos.
Só é necessário avisar aos médicos, bem como aos demais profissionais de saúde, de que todos nós compreendemos os seus medos e ansiedades, que afinal não são diferentes dos nossos. O problema é que não podemos esperar que a discussão inócua sobre o uso ou não do computador se eternize. Temos pressa.
Um professor se irrita quando é contratado por uma escola que não possui um computador para apoiá-lo. Na outra ponta, de forma imperial, o médico se irrita quando o hospital que o contratou, lhe "implora" que registre os dados do paciente no computador. Por quê?
Grande parte dos hospitais e clínicas informatizados, e com suporte tecnológico aos procedimentos clínicos, reclama que os médicos não são aderentes, ou não tem tempo, ou não gostam da interface gráfica do software, ou simplesmente porque "não foram contratados para digitar dados". Felizmente há uma crescente quantidade de exceções, e até no Brasil, como por exemplo, o Hospital Português, em Salvador. Mas a regra continua mudando com muita lentidão.
"A Medicina é de todas as artes a mais nobre... Todo aquele que deseja adquirir competência em medicina precisa ser possuidor dos seguintes méritos: talento natural, cultura, intuição, amor pelo trabalho, honradez e disposição para estudar". A frase é de Hipócrates (a.C. 460 - 377a.C.), e a disposição para estudar deve ser de todos os profissionais de Saúde que ainda não enxergaram o computador como ferramenta vital para a prática médica.
Guilherme S. Hummel é Membro da HIMSS - Healthcare Information and Management Systems Society.
Carlos Varaldo
Grupo Otimismo
GRUPO OPTIMISMO DE AYUDA AL PORTADOR DE HEPATITIS
ONG - Registro n°. 176.655 - RCPJ-RJ - Rio de Janeiro - Brasil
Tel. 55.21 - 9973.6832 - Fax. 55.21 - 2549.8809
e-mail: hepato@hepato.com Internet: www.hepato.com
12/06/2006
La Tecnología, el Médico y el Miedo
Lo que será más importante para el médico de aquí a algunos años: ¿el estetoscopio o la computadora?
Guilherme S. Hummel - Traducción de Carlos Varaldo
Tradicionalmente miramos para los médicos como científicos que tienen una consideración alta por hechos y datos. Ciertamente que eso es una verdad. Todavía por detrás de esa evidencia existe un rechazo natural de grande parte de los médicos por cualquier "información" que rivalice con su "visión" de la realidad. Cuando eso ocurre, normalmente agregan algún nivel de racionalización o en el contexto del problema de forma a neutralizar el poder de la tecnología. Muchos son los motivos para eso, pero el principal sin duda es el miedo.
Jeff Miller, uno de los más importantes Managers de la Hewlett Packard (HP) en el área de Salud, evaluó recientemente que la redundancia y la ineficiencia responden por 25% a 40% de los 3,3 mil millones de dólares que el mundo gasta en salud, y que eso podría ser eliminado con la intensa utilización de las tecnologías de información médica.
La publicación americana Health Affairs, junto con el Centre for Information Technology Leadership, de Boston, publicó pesquisa mostrando que la inter operacionalidad del prontuario digital del paciente, bien como su intensa utilización por los médicos, resultaría en una reducción superior a 77 mil millones de dólares por año en los costos de EEUU con la Salud. Excelente, si por otro lado la misma pesquisa no mostrase que 95% de la red de médicos públicos y privados del país continúa a utilizar el papel como forma de registro clínico.
Como se puede ver, el coro unísono de que "la medicina no es un libro de recetas" no es exclusividad del tercer mundo. Ése es un problema mundial, pero... datado.
Existen sensibles avances ocurriendo en muchos países. En Inglaterra, 98% de los generalistas, también llamados de médicos de familia (general practitioners), tienen computadoras en algún lugar de su ambiente personal de trabajo. Más que eso, según a NHS, 30% reivindica un ambiente de trabajo hospitalario "paperless", donde las tecnologías de información médica sustituyan el papel.
La conclusión es dupla: (1) en poco tiempo no habrá espacio para cualquier profesional de Salud que reniegue la utilización de la computadora como herramienta personal de trabajo, y (2) las nuevas generaciones, totalmente afinadas con el "tal del mouse", van a utilizar esas herramientas tanto cuanto el estetoscopio. Si el motivo no es para auxiliar sobremanera su trabajo, será porque los costos muestran que la medicina quemó los puentes al optar por la intensa utilización de la tecnología de información.
¿Y dónde "residen" las resistencias? ¿Cuál la topología del miedo?
Según el Dr. Marcus Lira Brandon, profesor de Psicobiologia de la Facultad de Filosofía, Ciencias y Letras de la Universidad de Ribeiron Preto en Brasil "el miedo es una reacción a la adaptación del medio ambiente, en la medida en la que hace con que el animal se proteja de las amenazas del ambiente".
El miedo más común en la utilización de la informática por los médicos, según Alan P. Hito, Master of Medical Management de la Carnegie Mellon University, es aquel inherente a todo el ser humano: el miedo de errar, o, en otras palabras, el miedo de "descubrir que descubrieron el error".
Los datos, las informaciones y los hechos generados por el control esmerado de las informaciones clínicas es un espejo revelando constantemente que los médicos, como todos nosotros, también yerran. Y yerran mucho. Recientemente el diario The Economist hizo una comparación atrevida, basada en datos, informando que en EE.UU. el número de victimas de errores médicos puede ser comparado al número de victimas del "choque de dos aviones 747 por día".
El problema no para en la visión del error. Otro miedo común está ligado a la vanidad y a la confrontación de que la tecnología de información pueda amenazar su capacidad de generar suposiciones y percepciones. Eso lo lleva a un sentimiento oscuro, que en la mejor de las versiones desafía su papel de líder.
Todas esas reacciones tienen explicaciones históricas. Hasta el siglo XIX el médico era un "cuidador". Su formación académica estaba devotada en moldearlo como tal, de forma a tratar la enfermedad con los medios posibles y esperar que Dios procesase la cura. De esa época viene a famosa frase de Ambroise Pare: "Yo lo traté, y Dios lo curó".
Desde el siglo XX, a los pocos, su formación vino siendo dirigida para las capacidades de un "curador", o sea, cabría a él ser el interventor capaz de curar las molestias. Siguiendo en esa misma dirección, la responsabilidad del médico frente a la sociedad creció, lo que mistificó su papel frente al paciente (y a veces frente él mismo), tornándolo algo completo, exentado de fallas, inmune a errores y caracterizado como una "entidad salvadora".
Erraron los dos lados, al final el médico es un ser humano como todos nosotros y, por tanto, susceptible a los errores, y la sociedad secularmente es una exploradora tenaz de cualquier proceso que la exima de la culpa de no se precaver de las enfermedades.
Todavía, en los últimos 30 ó 40 años, con el hallazgo de la penicilina y el avance de la terapéutica medicamentosa, fue ocurriendo la migración del papel divino de curar para el papel de médico-consultor. Aquél que orienta, que acompaña, que estimula, que previene y que "entiende el dolor".
La sociedad por su vez, también lentamente, va percibiendo qué el salvador no existe y que el médico, las tecnologías, su propia concienciación y el poder público es que van a ayudarla a vencer los desafíos de la Salud.
Si por el lado de la capacidad de resolver a todo y agradar a toda la práctica médica perdió, por el lado humanístico su papel creció y viene siendo evaluado de forma positiva por la sociedad científica. Eso debía ser un factor de alivio para el médico.
La medicina esta se volviendo, antes de todo, una práctica humanística y holística. La creación de una conciencia ética y humanista, enlazada al desarrollo de las capacidades cognoscitivas y emocionales, está trayendo el médico para cerca del "soporte a la cura", y no para la cura en sí. Como dice la Dra. Isabel Cristina Ríos en un reciente artículo: ... "el médico actual no es más el detentador de un saber guardado en sí; es cada vez más aquél que debe hacer la mediación de ese saber junto a la sociedad".
Hoy, el conocimiento de un profesional de Salud surge de su grado de asimilación de las informaciones disponibles y de su experiencia acumulada a lo largo de los años. La tecnología está en la escena para acelerar ese conocimiento y aligerar las cobranzas de la sociedad. El poder de ese conocimiento en el trato con la enfermedad es conocido más comúnmente como "medicina basada en evidencias (MBE)", y viene siendo sistematizado por la comunidad médica mundial desde su introducción en 1992.
La tecnología avanza a pasos rápidos y, en general, los profesionales arriba de 45 años tienen dificultad en usar los nuevos instrumentos de comunicación (como por ejemplo, la Web). La intimidación delante de los avances tecnológicos creaba barreras cada vez más difíciles para el propio médico. Una niña de 11 años de edad que va con los padres a un ginecólogo, en la víspera, ya barrió el Internet de punta a punta atrás de las informaciones sobre el ciclo menstrual. Sabe lo que va a oír, sabe lo que va a preguntar al médico, sabe lo que no va a ser dicho en la frente de los padres y sabrá si el médico es o no confiable.
La revista Business Week publicó una materia hace dos años atrás en que cuestionaba de forma provocativa: ..."¿hasta dónde vamos a precisar de los médicos?" La respuesta es inequívoca: siempre. La importancia de la medicina creció en los últimos años de forma exponencial, en la misma proporción en la que crecieron las endemias, las epidemias, el peligro de las pandemias y, principalmente, en la misma proporción en la que creció la tecnología y las modernas técnicas de diagnóstico y de los mecanismos terapéuticos.
Solo es necesario avisar a los médicos, bien como a los demás profesionales de salud, de que todos nosotros comprendemos sus miedos y ansiedades, que al final no son diferentes de los nuestros. El problema es que no podemos esperar que la discusión inocua sobre el uso o no de la computadora se eternice. Tenemos prisa.
Un profesor se irrita cuando es contratado por una escuela que no posee una computadora para apoyarlo. En la otra punta, de forma imperial, el médico se irrita cuando el hospital que lo contrató, le "implora" que registre los datos del paciente en la computadora. ¿Por qué?
Gran parte de los hospitales y clínicas informatizados, y con soporte tecnológico a los procedimientos clínicos, reclama que los médicos no son adherentes, o no tienen tiempo, o no le gusta la interfase gráfica del software, o simplemente porque "no fueron contratados para digitar dados". Felizmente hay una creciente cantidad de excepciones, y hasta en Brasil, como por ejemplo, el Hospital Portugués, en Salvador. Pero la regla continúa mudando con mucha lentitud.
"La Medicina es de todas las artes la más noble... Todo aquél que desea adquirir capacidad en medicina necesita ser poseedor de los siguientes méritos: talento natural, cultura, intuición, amor por el trabajo, honradez y disposición para estudiar". La frase es de Hipócrates (a.C. 460 - 377a.C.), y la disposición para estudiar debe ser de todos los profesionales de Salud que aún no vieron la computadora como herramienta vital para la práctica médica.
Guilherme S. Hummel es Miembro da HIMSS - Healthcare Information and Management Systems Society.
Carlos Varaldo
Grupo Optimismo