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30/07/2007


Débora Thome é filha de nosso saudoso Mauro, colaborador e ativo membro do Grupo Otimismo, morto no acidente da Gol. Reproduzimos artigo do Jornal O Globo escrito por ela.



Debate estéril que ofende a dor


DÉBORA THOMÉ

Na semana que felizmente termina hoje, um acidente aéreo voltou a preencher páginas e horas infinitas do noticiário. Para quem perdeu alguém assim, como é o meu caso, cansa, exaure, deprime. Para os que perderam neste vôo, desespera. O debate estéril entre os "a favor" e os "contra" o governo enerva. Muitos cobram do governo uma atitude; apontando falhas no estranho sistema múltiplo de gestão. Acusá-los de uma ação orquestrada para desabonar o governo é, no mínimo, um sinal de mediocridade e desrespeito à memória das vítimas. Quanto aos gestos, nem se fala. Há momentos, como agora, em que a única solução é achar solução.

Tinham se passado nove meses e dezoito dias quando, novamente, recebi um e-mail que tratava de um acidente de avião. Achei que não teria que me deparar com isso, pelo menos, nos próximos dez anos. De preferência, pela vida toda. Mas não foi possível. Até hoje tenho guardado o primeiro e-mail que recebi com a notícia do desaparecimento do avião da Gol, quando não tinha certeza sequer de que meu pai estava nele.

No dia 29 de setembro, liguei correndo para a minha mãe. Não sabíamos o vôo em que ele vinha de Manaus. Começou aí. Ligações, esperança, desespero. Fomos para o aeroporto, onde aguardamos a lista por algumas horas. Sou capaz de sentir com clareza a angústia daqueles momentos, de tão forte que foi. São horas em que torcemos para o inusitado; até a lista alcançar o nome.

No dia seguinte, tornamo-nos vítimas da múltipla desorganização do sistema em meio a uma multidão de notícias truncadas, quando Anac, Infraero, Ministério da Defesa e Aeronáutica não conseguiam concordar com absolutamente nenhuma informação relativa a sobreviventes ou localização da aeronave. Quase dez meses depois, a vida segue, é verdade, mas com tons acinzentados. Assim será também para tantas famílias vítimas de semelhante tragédia pessoal.

Um acidente é um acidente. Mas certas tragédias parecem ser anunciadas ou, ao menos, indicadas muito antes. E que atire a primeira pedra quem é capaz de dizer que vinha voando "relaxado" nos últimos dez meses. Posso estar enganada, mas não acredito em simples acidentes quando se trata de um intervalo de 10 meses entre um evento e outro. Se somarmos este ano e apenas o acidente da Gol, são 371 mortos por tragédias aéreas; isso é a soma dos acidentes de 2000 a 2005 concentrada em 10 meses. É muita coisa. E a morte por atacado desespera. Mesmo que, no fim das contas, ambos os casos se tratem de problemas mecânicos, que aumente a fiscalização sobre as aeronaves. Problema mecânico conhecido não é acidente.

É comum culpar a imprensa pelas cenas, pela dor coletiva que se instaura. Confesso: em muitos momentos a detestei, assim como o jornalismo - ofício por que sou apaixonada desde a infância -, mas, em boa parte dos casos, ela estava fazendo o seu papel de informar, de pressionar as autoridades em defesa dos direitos de todos.

O debate, ou pelo menos parte dele, está indo por um caminho muito perigoso e pequeno, que ofende a todos nós, os que sobrevivemos. O risco é ficar a discussão pela discussão, com quem é contra o governo misturando Renan Calheiros a problema de gestão e quem é a favor dizendo que o que há agora é uma exploração da mídia quanto ao sofrimento alheio para atingir o governo. Se o nível continuar esse, dificilmente o debate será concluído a tempo de evitar novos problemas, sejam eles da magnitude que forem. Há momentos - e a dor da perda ensina muito isso - em que é preciso olhar para frente e tomar atitudes para que o mal não se repita. Por uma questão de sobrevivência.

Quando ocorreu o acidente da Gol, prontamente se procuraram culpados. Nada melhor que dois americanos, os pilotos do Legacy. Agora, temos a pista e o reverso. Meu avô, piloto de outrora, ensinou-me que acidentes aéreos não acontecem por apenas um motivo. É sempre por um conjunto. Acredito nele. Neste caso, não pela idade, mas pela experiência.

Nos últimos tempos, viramos todos especialistas em acidentes aéreos. Não o somos. Acidentes graves, com conseqüências gravíssimas, pedem especialistas de verdade, análise profunda, investigação. Não apenas para indicar os culpados, mas para, a partir disso, encontrar soluções, evitar novos erros e novas dores.

A crise aérea que se instaurou desde aquilo que muitos vêem como o "acidente da Gol" - e eu vejo como a morte de parte da minha alegria - pode ter a causa que for; pode mesmo ter aparecido porque a economia do país vai bem e mais gente agora pode voar, mas ela precisa de soluções. Quando pequena, meu pai, toda vez que nos dava uma notícia ruim , dizia: "a única coisa para que não há solução é a morte. Com o resto, a gente lida."

DÉBORA THOMÉ é jornalista.



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30/07/2007


Débora Thome es hija de nuestro querido Mauro, colaborador y activo miembro del Grupo Optimismo, muerto en el accidente de la empresa aérea Gol el año pasado en la Selva Amazónica. Reproducimos artículo del Diario El Globo escrito por ella.



Debate estéril que ofende el dolor


DÉBORA THOMÉ


En la semana que felizmente termina hoy, un accidente aéreo volvió a rellenar páginas y horas infinitas del noticiero. Para quien perdió alguien así, como es mi caso, cansa, agota, deprime. Para los que perdieron en este vuelo, desespera. El debate estéril entre los "a favor" y los "contra" el gobierno irrita. Muchos cobran del gobierno una actitud; apuntando fallos en el extraño sistema múltiple de gestión. Acusarlos de una acción orquestada para desacreditar el gobierno es, por lo menos, una señal de mediocridad y falta de respeto a la memoria de las víctimas. En cuanto a los gestos, ni se habla. Hay momentos, como ahora, en que la única solución es hallar la solución.

Habían pasado nueve meses y dieciocho días cuando, nuevamente, recibí un e-mail que trataba de un accidente de avión. Creí que no tendría que me enfrentar con eso, por lo menos, en los próximos diez años. De preferencia, por la vida toda. Pero no fue posible. Hasta hoy tengo guardado el primer e-mail que recibí con la noticia de la desaparición del avión de la Gol, cuando no tenía certeza siquiera de que mi padre estaba en él.

En el día 29 de septiembre, llamé corriendo para mi madre. No sabíamos el vuelo en el que él venía de Manaus. Empezó ahí. Telefonemas, esperanza, desespero. Fuimos para el aeropuerto, donde aguardamos la lista por algunas horas. Soy capaz de sentir claramente la angustia de aquellos momentos, de tan fuerte que fueron. Son horas en las que rezamos para lo inusitado; hasta la lista alcanzar el nombre.

Al día siguiente, nos tornamos víctimas de la múltipla desorganización del sistema en medio a una multitud de noticias sin sentido, cuando ANAC, Infraero, Ministerio de la Defensa y Aeronáutica no lograban concordar con absolutamente ninguna información relativa a sobrevivientes o localización de la aeronave. Casi diez meses después, la vida sigue, es verdad, pero con tonos agrisados. Así será también para tantas familias víctimas de semejante tragedia personal.

Un accidente es un accidente. Pero ciertas tragedias parecen ser anunciadas o, al menos, indicadas mucho antes. Y que tire la primera piedra quien es capaz de decir que venía volando "relajado" en los últimos diez meses. Puedo estar engañada, pero no creo en simples accidentes cuando se trata de un intervalo de 10 meses entre un evento y otro. Si sumamos este año y apenas el accidente de la Gol, son 371 muertos por tragedias aéreas; eso es la suma de los accidentes de 2000 a 2005 concentrada en 10 meses. Es mucha cosa. Y la muerte al por mayor desespera. aun cuando, en el fin de las cuentas, los dos casos se traten de problemas mecánicos, que aumente la fiscalización sobre las aeronaves. Problema mecánico conocido no es accidente.

Es común culpar la prensa por las escenas, por el dolor colectivo que se instaura. Confieso: en muchos momentos la detesté, así como el periodismo - oficio por el qué soy apasionada desde la infancia -, pero, en buena parte de los casos, estaba haciendo su papel de informar, de presionar las autoridades en defensa de los derechos de todos.

El debate, o por lo menos parte de él, está caminando por un camino muy peligroso y pequeño, que ofende a todos nosotros, los que sobrevivimos. El riesgo es quedar la discusión por la discusión, con quien es contra el gobierno mezclando Renan Calheiros (*) a problemas de gestión y quien es a favor diciendo que lo que hay ahora es una exploración de los medios de comunicación en cuanto al sufrimiento ajeno para alcanzar el gobierno. Si el nivel continúa así, difícilmente el debate será concluido a tiempo de evitar nuevos problemas, sean ellos de la magnitud que son. Hay momentos - y el dolor de la pérdida enseña mucho eso - en que es necesito mirar para adelante y tomar actitudes para que el mal no se repita. Por una cuestión de supervivencia.

Cuando ocurrió el accidente de la Gol, prontamente se procuraron culpados. Nada mejor que dos americanos, los pilotos del Legacy. Ahora, tenemos la pista y el revés. Mi abuelo, piloto de otrora, me enseñó que accidentes aéreos no acontecen por apenas un motivo. Es siempre por un conjunto. Creo en él. En este caso, no por la edad, pero por la experiencia.

En los últimos tiempos, somos todos especialistas en accidentes aéreos. No lo somos. Accidentes graves, con consecuencias grave, piden especialistas de verdad, análisis profundo, investigación. No apenas para indicar los culpables, pero para, a partir de eso, encontrar soluciones, evitar nuevos errores y nuevos dolores.

La crisis aérea que se instauró desde aquello que muchos ven como el "accidente de la Gol" - y yo veo como la muerte de parte de mi alegría - puede tener la causa que sea; puede mismo haber aparecido porque la economía del país va bien y más gente ahora puede volar, pero ella necesita de soluciones. Cuando pequeña, mi padre, toda vez que nos daba una noticia mala, decía: "la única cosa para que no hay solución es la muerte. Con el resto, uno convive."

DÉBORA THOMÉ es periodista.

Traducción de Carlos Varaldo
(*) - Actual escándalo del presidente del Senado federal acusado de corrupción.





Last updated 29.7.2007