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Entendendo (ou tentado entender) o sistema imune

11/04/2005

O sistema imune desenvolve uma rede complexa de controles e equilíbrios que pode ser classificada em duas categorias: imunidade natural (inata) e adquirida (aprendida).

Todos os indivíduos nascem com imunidade inata. Os componentes do sistema imune que participam da imunidade inata (macrófagos, neutrófilos e complementos) reagem de forma similar frente a todas as substâncias estranhas, e a identificação dos antígenos não varia de indivíduo para indivíduo.

A imunidade adquirida é aprendida. Ao nascer, o sistema imune de um indivíduo ainda não enfrentou o mundo exterior nem começou a formar seus arquivos de memória. O sistema imune aprende a responder a cada novo antígeno que ele encontra. Portanto, a imunidade adquirida é específica contra os antígenos encontrados por um indivíduo durante a vida.

A função do sistema imune é defender o corpo contra invasores. Embora o sistema imune seja complexo, a sua estratégia básica é simples: reconhecer o inimigo, mobilizar forças e atacar. Compreender a anatomia e os componentes do sistema imune torna possível ver como essa estratégia funciona e como pode ajudar os infectados pelas hepatites.

As principais células do sistema imune são os leucócitos. Macrófagos, neutrófilos e linfócitos são todos tipos de leucócitos (glóbulos brancos). O sistema imune mantém seu próprio sistema de circulação (os vasos linfáticos), o qual permeia todos os órgãos do corpo, excetuando-se o cérebro. Os vasos linfáticos contêm um líquido pálido e espesso (linfa) formado por um líquido carregado de gordura e de leucócitos.

O sistema linfático é uma rede de linfócitos que filtra, ataca e destrói organismos nocivos que causam infecções. A linfa, um líquido rico em leucócitos, circula através dos vasos linfáticos. A linfa ajuda a retornar a água, proteínas e outras substâncias dos tecidos do organismo para a corrente sangüínea.

Outros órgãos e tecidos do corpo como o timo, fígado, baço, apêndice, medula óssea e pequenos aglomerados de tecido linfático também fazem parte do sistema linfático. Essas estruturas também ajudam o corpo no combate às infecções.

São os chamados antígenos que estimulam a resposta imune. As bactérias, os vírus, as proteínas, os carboidratos, as células cancerosas e as toxinas podem atuar como antígenos.

Os macrófagos consistem em várias substâncias químicas e enzimas que são envolvidas por uma membrana.

Essas enzimas e substâncias químicas permitem ao macrófago destruir o invasor. Os macrófagos não são encontrados no sangue. Eles localizam-se estrategicamente onde os órgãos do corpo entram em contato com a corrente sangüínea ou com o mundo exterior. Por exemplo, os macrófagos são encontrados nos pulmões onde recebem o ar do exterior e nas células do fígado se conectando com os vasos sangüíneos. Células similares presentes no sangue são denominadas monócitos.

Os neutrófilos são grandes leucócitos. No entanto, ao contrário dos macrófagos, os neutrófilos circulam no sangue; eles necessitam de um estímulo específico para sair do sangue e entrar nos tecidos.

Os macrófagos e os neutrófilos atuam em conjunto. Os macrófagos iniciam uma resposta imune e enviam sinais para mobilizar os neutrófilos para que estes se juntem a eles na área com problema. Quando os neutrófilos chegam, eles destroem os invasores, digerindo-os.

Os linfócitos são as principais células do sistema linfático, são relativamente pequenos em comparação com os macrófagos e os neutrófilos. Ao contrário dos neutrófilos que vivem de 7 a 10 dias, os linfócitos podem viver durante anos ou mesmo décadas. A maioria dos linfócitos é enquadrada em três categorias principais:

- Os linfócitos B são derivados de uma célula tronco (célula-mãe) da medula óssea e amadurecem até transformarem-se em plasmócitos, os quais secretam anticorpos.

- Os linfócitos T são formados quando as células tronco migram da medula óssea até a glândula timo, onde eles se dividem e amadurecem. Os linfócitos T aprendem como diferenciar o que é próprio do organismo do que não o é no timo. Os linfócitos T maduros deixam o timo e entram no sistema linfático, onde eles atuam como parte do sistema imune de vigilância.

- As células assassinas naturais, discretamente maiores que os linfócitos T e B, são assim denominadas por matarem determinados micróbios e células cancerosas. O "natural" de seu nome indica que elas estão prontas para destruir uma variedade de células-alvo assim que são formadas, em vez de exigirem a maturação e o processo educativo que os linfócitos B e T necessitam.

Quando estimulados por um antígeno, os linfócitos B amadurecem até se transformarem em células produtoras de anticorpos. Anticorpos são proteínas que interagem com o antígeno que inicialmente estimula os linfócitos B. Os anticorpos também são denominados imunoglobulinas.

Cada molécula de anticorpo possui uma parte única que se liga a um antígeno específico e uma parte cuja estrutura determina a classe do anticorpo. Existem cinco classes de anticorpos: IgM, IgG, IgA, IgE e IgD.

- A IgM é o anticorpo produzido após a exposição inicial a um antígeno. Por exemplo, quando uma criança recebe sua primeira vacina contra o tétano, os anticorpos antitétano da classe IgM são produzidos 10 a 14 dias mais tarde (resposta de anticorpos primária). A IgM é abundante no sangue, mas normalmente não se encontra presente nos órgãos ou nos tecidos.

- A IgG, o tipo de anticorpo mais prevalente, é produzido após a exposição subseqüente a um antígeno. Por exemplo, após uma segunda vacina antitetânica (reforço), a criança produz anticorpos da classe IgG em 5 a 7 dias. A resposta de anticorpos secundária é mais rápida e mais abundante que a resposta primária. A IgG está presente tanto no sangue como nos tecidos. Trata-se do único anticorpo que é transferido através da placenta, da mãe para o feto. A IgG materna protege o feto e o recém nascido até que o sistema imune do bebê possa produzir seus próprios anticorpos.

- A IgA é o anticorpo que tem um papel importante na defesa do corpo contra a invasão de microrganismos através das superfícies revestidas por membrana mucosa (p.ex., nariz, olhos, pulmões e intestinos). A IgA é encontrada no sangue e em secreções como as do trato gastrointestinal, do nariz, dos olhos, dos pulmões e no leite materno.

- A IgE é o anticorpo que causa reações alérgicas agudas (imediatas). Neste aspecto, a IgE é a única classe de anticorpo que aparentemente faz mais mal que bem. Contudo, a IgE pode ser importante no combate às infecções parasitárias, como a esquistossomose.

- A IgD é um anticorpo presente em quantidades muito pequenas no sangue circulante. A sua função não é totalmente conhecida.

As citocinas atuam como mensageiros do sistema imune. Essas substâncias são secretadas por células do sistema imune em resposta à estimulação. As citocinas amplificam (ou ajudam) alguns aspectos do sistema imune e inibem (ou suprimem) outros. Muitas citocinas já foram identificadas e a lista continua aumentando.

Algumas citocinas podem ser injetadas como tratamento de certas doenças. Por exemplo, o interferon alfa é eficaz no tratamento de certos cânceres, como a leucemia das células pilosas. Outra citocina, o interferon beta, pode ser útil no tratamento da esclerose múltipla. Uma terceira citocina, a interleucina-2, pode ser benéfica no tratamento do melanoma maligno e do câncer de rim, embora seu uso produza efeitos adversos. Uma outra citocina, o fator estimulador de colônias de granulócitos, o qual estimula a produção de neutrófilos, pode ser administrada em pacientes de câncer com contagens baixas de neutrófilos causadas pela quimioterapia ou no tratamento da hepatite C.

Algumas vezes, o sistema imune não funciona corretamente, identifica erroneamente os tecidos ou órgãos do corpo como se fossem estranhos e os ataca, resultando em uma reação auto-imune, tal qual acontece na hepatite auto-imune.

Os vírus das hepatites são organismos que devem entrar na célula para poder sobreviver. Certos linfócitos T reconhecem os fragmentos virais, e se ligam a essas moléculas. Quando a conexão se completa, um sinal desencadeia a ativação dos linfócitos T específicos, a maioria dos quais se transforma em células T assassinas. No entanto, ao contrário das células assassinas naturais, os linfócitos T assassinos destroem apenas as células infectadas pelo vírus específico que estimulou a sua ativação. Por exemplo, os linfócitos T assassinos ajudam a combater o vírus da gripe. A razão pela qual a maioria dos indivíduos necessita de 7 a 10 dias para recuperar-se de uma gripe este é o período de tempo necessário para a produção de células T assassinas especificamente projetadas para combater o vírus da gripe.

As células do sistema imune aprendem a diferenciar o que é próprio do organismo do que o que não o é no timo. Quando o sistema imune começa a desenvolver-se no feto, células tronco migram para o timo, onde dividem-se até se transformar em linfócitos T. Durante o desenvolvimento do timo, qualquer linfócito T que reaja frente às moléculas do complexo de histocompatibilidade principal do timo é eliminado. À qualquer linfócito T que tolere o complexo de histocompatibilidade principal do timo e aprenda a cooperar com células que apresentam moléculas exclusivas do complexo de histocompatibilidade principal do corpo é permitida a maturação e a sua saída do timo.

O resultado é que os linfócitos T maduros toleram as células próprias do corpo e podem cooperar com outras células do organismo quando solicitadas para defendê-lo. Se os linfócitos T não se tornarem tolerantes às moléculas do complexo de histocompatibilidade principal, eles podem atacar o corpo. No entanto, algumas vezes, os linfócitos T perdem a capacidade de diferenciar o que é próprio do corpo do que não o é, acarretando doenças auto-imunes como o lúpus eritematoso sistêmico (lúpus) ou a esclerose múltipla.

Vemos assim a importância do sistema imune nas doenças, entre elas as hepatites, tanto na defesa do organismo para evitar o ataque do vírus como no tratamento. Vemos também que o Interferon que é necessário ao tratamento e também produzido pelo nosso organismo, mas que para poder realizar o tratamento e necessária uma quantidade maior, daí a aplicação do mesmo.

Lamentavelmente a glândula do timo, fundamental na produção do interferon natural e dos linfócitos T de ataque aos vírus, de grande atividade na infância e adolescência vai se atrofiando com o passar dos anos, tornando o organismo mais vulnerável.

Carlos Varaldo
www.hepato.com
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