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Retratamento na hepatite C

11/06/2007

O retratamento de pacientes com hepatite C talvez seja um dos maiores desafios da atualidade. Isso porque dos que receberam tratamento com interferon alfa (interferon convencional) em monoterapia ou combinado com a ribavirina a maioria não obteve sucesso no tratamento.

Não existem estudos randomizados, mas segundo dados retrospectivos e estimado que nos tratados com interferon convencional (em monoterapia) aproximadamente 80% não conseguiram a cura. Já nos tratados com interferon convencional e ribavirina, segundo os estudos realizados para aprovar os peguilados, o índice dos que fracassaram com o tratamento foi de 57%. Assim, milhares de infectados procuram um retratamento de forma ansiosa e até desesperada.

Um estudo realizado na Itália foi publicado no Journal of Gastroenterology mostra os resultados conseguidos no retratamento desses pacientes utilizando diversos esquemas terapêuticos utilizando novamente o interferon convencional em regime de indução (doses maiores) em monoterapia ou combinado com ribavirina ou com ribavirina mais amantadina.

Participaram do estudo 225 pacientes não respondedores a um tratamento prévio. Os resultados apresentados são referentes a três grupos randomizados representando 75 pacientes. Todos receberam 48 semanas de retratamento.

Um grupo de 26 pacientes foi retratado com 6 UM por dia de interferon convencional durante as quatro primeiras semanas e nas seguintes 44 semanas receberam 3 UM por dia, sempre em monoterapia, sem nenhum outro medicamento. 11,5% deles conseguiram obter a resposta sustentada, se encontrando negativados (curados) após seis meses o final do tratamento. 11,5% dos pacientes deste grupo interromperam o tratamento devido aos efeitos adversos.

Um grupo de 24 pacientes foi retratado com 6 UM por dia de interferon convencional durante as quatro primeiras semanas e nas seguintes 44 semanas receberam 3 UM por dia, combinado com ribavirina na dosagem de 15 mg/kg por dia. 12,5% deles conseguiram obter a resposta sustentada, se encontrando negativados (curados) após seis meses o final do tratamento. 12,5% dos pacientes deste grupo interromperam o tratamento devido aos efeitos adversos.

O terceiro grupo, de 25 pacientes foi retratado com 6 UM por dia de interferon convencional durante as quatro primeiras semanas e nas seguintes 44 semanas receberam 3 UM por dia, combinado com ribavirina na dosagem de 15 mg/kg por dia e ainda mais 200 mg por dia da Amantadina. 12,0% deles conseguiram obter a resposta sustentada, se encontrando negativados (curados) após seis meses o final do tratamento. 8% dos pacientes deste grupo interromperam o tratamento devido aos efeitos adversos.

Concluem os autores que o retratamento utilizando o interferon convencional com o regime de indução em monoterapia, com aplicações diárias, consegue a cura de aproximadamente 12% dos pacientes. A adição de ribavirina ou amantadina não aumenta a possibilidade de sucesso.

Este estudo e muito oportuno, já que em outubro, no Congresso Brasileiro de Hepatologia será apresentado um estudo retrospectivo sobre os índices alcançados no Brasil com o retratamento utilizando o interferon peguilado.

Os dados não poderão ser comparados diretamente já que são muitas as diferenças. Um estudo será retrospectivo e o outro e randomizado. Os dados de estudos retrospectivos estão sujeitos a falhas. Ainda, qual foi o interferon utilizado na Itália no primeiro tratamento e qual foi o utilizado no Brasil? Na Itália o tratamento foi realizado com o mesmo interferon convencional durante todo o tratamento ou também aconteceram trocas de marcas como sucedia no Brasil? Deveremos considerar que no Brasil por falta da carga viral todos eram tratados 48 semanas, não podendo então se identificar quem é não respondedor e quem e recidivante.

Ainda, como foram acompanhados os pacientes durante o primeiro tratamento? No Brasil encontramos centros de referencia que conseguiam curar mais de 40% dos pacientes tratados e, outros, mal chegavam a resultados de 20%. O que aconteceu nesses centros? Foi falta de acompanhamento adequado dos pacientes, falta de informação sobre como armazenar ou aplicar, troca dos medicamentos durante o tratamento, falta de exames?

Mas a importância do retratamento e fundamental para poder dar uma nova oportunidade a todos aqueles que não conseguiram sucesso no tratamento prévio. Muitos enviam e-mails perguntando qual será a possibilidade de sucesso, mas a medicina não é uma ciência exata, e impossível prever quem vai responder e quem não.

Já recebi e-mails comentando que no primeiro tratamento permaneceram sempre positivos e durante o retratamento, utilizando inclusive a mesma marca de interferon já se encontram negativos na semana quatro, apresentando resposta rápida. Impossível de acontecer? Não, já que a medicina não e uma ciência exata e que o organismo do paciente apresenta condições e comorbidades diferentes com o passar do tempo sendo muito provável que aconteçam situações desse tipo.

Para finalizar vou comparar a medicina com a loteria. Eu aposto na loteria todas as semanas. Nos últimos quarenta, em mais de 2.000 oportunidades anos fracassei sempre, mas por isso será que devo deixar de tentar? Não terei algum dia à oportunidade de ganhar?

Porque não aplicar a mesma lógica com o retratamento daqueles que não conseguiram sucesso com o tratamento prévio?

Este artigo foi redigido com comentários e interpretação pessoal de seu autor, tomando como base a seguinte fonte:
J Gastroenterol. 2007 May;42(5):362-7 - A randomized trial of induction doses of interferon alone or in combination with ribavirin or ribavirin plus amantadine for treatment of nonresponder patients with chronic hepatitis C - Gramenzi A, Andreone P, Cursaro C, Verucchi G, Boccia S, Giacomoni PL, Galli S, Furlini G, Biselli M, Lorenzini S, Attard L, Bonvicini F, Bernardi M. - Dipartimento di Medicina Interna, Cardioangiologia ed Epatologia, Policlinico S. Orsola, University of Bologna, Itália.


Carlos Varaldo
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