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Erros e acertos no conhecimento e controle da hepatite C

15/04/2013

Falando sobre o caminho transcorrido no conhecimento do vírus e das ações realizadas.


Ninguém sabe a origem do vírus da hepatite C ou quando aconteceu pela primeira vez. É um vírus que começou em seres humanos, em macacos, em cachorros, em aves? É uma pergunta que nunca terá uma resposta certeira. Existem genótipos diferentes no mundo geograficamente distribuídos, sem explicação da origem desses genótipos.

Fosse o vírus da hepatite C um vírus de transmissão sexual ou pelo ar a propagação seria rápida. O que pode ser especulado é que por ser um vírus que se transmite pelo sangue deve existir há centenas, talvez, milhares de anos. Durante séculos praticamente não se encontram dados que mostrem alguma grande movimentação geográfica do vírus ou contaminação de indivíduos.

Mas paradoxalmente o grande culpado pela propagação da hepatite C foi a melhoria que aconteceu na saúde pública no mundo todo durante o século 20, especialmente por culpa dos programas de vacinação em massa e a "moda" das transfusões de sangue após qualquer ato cirúrgico.

Estatisticamente se observa que o maior número de infecções aconteceram nas décadas de 1970 e 1980 quando as seringas de injeção eram de vidro e com as agulhas reutilizadas muitas vezes sem uma correta esterilização, em geral eram fervidas por alguns poucos minutos, quando não simplesmente lavadas com água corrente. Também nessa época foi a moda das drogas ilícitas utilizadas de forma injetável e compartilhada. As portas para o vírus se espalhar foram enormes.

Na década de 1980 os médicos se deparavam com casos de um tipo de hepatite desconhecido, que não eram as já descobertas hepatite A e hepatite B. Essa nova hepatite passou a ser chamada de hepatite não A não B.

Identificada a hepatite C em 1989 pesquisadores do mundo todo passaram a pesquisar o novo vírus, encontrando que não existia um vírus único e sim uma família composta por 12 genótipos (parentes) e mais de 50 subtipos, o que seria uma dificuldade para encontrar uma vacina ou medicamentos que pudessem ser efetivos para tratar todas a variáveis dos diversos genótipos.

Mas o desconhecimento dos médicos na nova doença fez com que a hepatite C fosse comparada com a já conhecida hepatite A e muitos profissionais achavam que se o paciente não estava com os olhos amarelados e a urina não estava escura, então já estava curado da hepatite C e poderia ir tranquilamente para casa. A ignorância que a hepatite C era uma doença silenciosa levou muitos infectados a evoluir para o cirrose, sem receber cuidados médicos.

Quando a doença passou a ser mais conhecida ficou comprovado que 1 em cada 4 infectados estaria evoluindo para a cirrose ou o câncer de fígado. Pior ainda, alguns médicos recomendavam a seus pacientes tomar cuidado com as comidas e não beber bebidas alcoólicas e com isso poderiam controlar a doença durante o restante das suas vidas.

A prevalência entre os usuários de drogas pelo compartilhamento das seringas levou ao estigma e discriminação, pois quando o indivíduo era diagnosticado a primeira pergunta do profissional de saúde era sobre se o mesmo tinha usado drogas ou se tinha AIDS.

Mas passados 24 anos da descoberta do vírus a hepatite C continua sem divulgação, em grande parte porque os infectados relutam em admitir publicamente sua situação, e, outros nem sequer querem realizar o teste para evitar o estigma ou discriminação no trabalho ou no círculo social. Situações da qual muitos governos se aproveitam para não dar a atenção que a epidemia mereceria, para evitar despesas com o tratamento.

Governos que realizam campanhas na hepatite C erradamente colocam uma relação ou comparação com as campanhas de AIDS ou a apresentam como uma doença sexualmente transmissível, aumentando o estigma e discriminação. Pior ainda, alguns governos colocaram as ações na hepatite C sob responsabilidade dos programas de AIDS, como se a mesma fosse uma doença de menor importância ou de tratamento igual. Propositalmente ignoram que a hepatite C infecta entre cinco e sete vezes mais pessoas que a AIDS. Se por importância fosse a AIDS é que deveria estar baixo o guarda-chuva da hepatite C.

Curiosamente a hepatite C já tem cura, enquanto a AIDS e a hepatite B, doenças descoberta anos antes ainda não conseguem nada além do controle da infecção, dependendo de medicamentos utilizados de forma permanente. O vírus da hepatite C não cria reservatórios ocultos no organismo e se replica apenas no citoplasma das células do fígado, sendo relativamente mais fácil o ataque com medicamentos antivirais.

Não que os tratamentos atuais sejam fáceis ou que consigam curar todos os infectados, mas já avançamos um caminho importante o que está possibilitando para um futuro relativamente próximo tratamentos mais simples, de menor duração, com menos efeitos colaterais e com possibilidades de cura entre 90% e 100% dos infectados.

Carlos Varaldo
www.hepato.com
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