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GRUPO OTIMISMO DE APOIO AO PORTADOR DE HEPATITE
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03/03/2008


Esta reportagem publicada pela Revista do Jornal O GLOBO no domingo 02 de março de 2008 coloca de forma clara o que são os ensaios clínicos para pesquisar novos medicamentos. Existe muito medo em o paciente ser considerado uma "cobaia" na pesquisa, mas afortunadamente no Brasil os Comitês de Ética são regulamentados por uma legislação rigorosa.

A realidade do dia a dia nos mostra que muitos procuram participar de uma pesquisa por falta de opções gratuitas de tratamento no sistema público ou por serem não-respondedores aos medicamentos existentes.

Carlos Varaldo
Grupo Otimismo




Voluntários da cura


Motivados por sentimentos humanitários ou pela própria doença, cerca de 250 mil brasileiros testaram medicamentos novos ano passado


Revista do Jornal O GLOBO - 02/03/2008
Por Fellipe Awi (Ilustrações de Vinicius Mitchell)


Cefaléia, náusea, vômito, tontura, erupções cutâneas, confusão mental, alucinação, agressividade, urticária, artralgia, mialgia, alterações cardiovasculares, visão borrada. São essas as reações adversas de um simples remédio para digestão, indicado até para recém-nascidos. Por mais que fique assustado, o leitor da bula nem sempre se dá conta de que cidadãos como ele se dispuseram a sofrer esses efeitos colaterais quando o medicamento comprado na farmácia era ainda uma substância sem eficácia e segurança garantidas.

Embora nada atraente, a função conhecida como cobaia humana está em alta no Brasil. Há cada vez mais voluntários brasileiros se oferecendo para testar novos medicamentos, a ponto de o país ter sido incluído na lista de emergentes em pesquisas clínicas, com um crescimento de 16% ao ano, segundo estudo da Universidade de Massachusetts publicado em janeiro na revista científica "Nature".

Segundo o médico e professor William Saad Hossne, considerado o maior especialista em experiências envolvendo seres humanos no Brasil, cerca de 650 mil voluntários participaram, no ano passado, de 18.495 projetos, sendo cerca de 250 mil em testes de novos remédios. São pessoas em busca da cura de sua doença ou que só desejam sofrer menos. Há também os sadios que fazem por altruísmo, em nome de Deus, da Humanidade ou da ciência.

- Decidi virar cobaia porque penso nos meus amigos soropositivos, no bem da Humanidade e até em mim mesmo, porque não sei do futuro - explica o funcionário público Roberto José dos Santos, de 35 anos, que está testando uma vacina anti-Aids num estudo da UFRJ com uma universidade americana, o Projeto Praça Onze.
Roberto é um dos milhares de voluntários soronegativos de 15 países que receberam doses de uma vacina de objetivo ambicioso: quem tomá-la ficará protegido contra o vírus da Aids. A substância injetada contém um vírus sintético e fragmentado que se assemelha ao HIV. Embora não haja possibilidade de contraírem a doença, os voluntários estão sujeitos a reações como febre e dores no corpo, comuns a soropositivos. Alguns tomam - sem saber, obviamente - placebo (em geral, água com açúcar), para se avaliar as reações puramente psicológicas. Um telefone 24 horas lhes é oferecido, assim como assistência imediata em qualquer emergência. Durante cinco anos, eles terão de ser acompanhados regularmente pelos pesquisadores. Apesar dos cuidados, Roberto teve dificuldades de convencer seus familiares de que não estava assinando, por livre e espontânea vontade, uma sentença de morte.
- Muita gente achou que eu estava me infectando com o HIV - conta.

O vírus do preconceito contra as cobaias, especialmente quando o teste envolve doenças infecto-contagiosas, também se manifestou na vida do maquiador Eduardo Coimbra, voluntário de pesquisa semelhante à de Roberto. Ele cansou de ouvir comentários maliciosos quando falou que estava participando do estudo.
Mesmo assim, diz que nunca se arrependeu porque se sente a serviço da Humanidade. Está a serviço também de uma causa particular. Eduardo perdeu para a Aids dois namorados e dois amigos próximos.
- Já é a segunda vez que me ofereço para testar novas vacinas contra a Aids. E vou me oferecer pelo resto da vida. Nunca tive medo de pegar nada - afirma.

Embora vistas como seguras, as pesquisas envolvendo vacinas anti-HIV sofreram um duro golpe no ano passado. O teste com a fórmula considerada mais promissora foi suspenso porque os voluntários se tornaram mais vulneráveis a infecções virais. Além de pôr pessoas saudáveis em risco, ao menos durante um período, o fracasso representou um retrocesso de mais de cinco anos nos estudos do Projeto Praça Onze.

Na mesma sala de espera freqüentada por Eduardo e Roberto, são muitos os voluntários soropositivos que poderiam ter experimentado outra sorte se já houvesse vacinas anti-Aids. Aos 37 anos, X. vai lá para testar uma nova versão de um tradicional componente do coquetel. A versão atual lhe dava diarréias e dores tão fortes que ela até deixava de tomar os quatro comprimidos diários. Aliado à depressão, o problema lhe pesa 37 quilos. Por enquanto, X. só tem elogios à nova fórmula apesar do receio de pôr para dentro uma substância desconhecida.
- Eu tinha medo porque me diziam que nesse projeto só havia cobaias. Mas esse remédio representa a minha sobrevivência e não poderia ficar sem ele - conta ela, que pegou o vírus numa transfusão de sangue depois de complicações no parto.

Foi também por pura necessidade que Marli Domingues, de 65 anos, aceitou os comprimidos que toma todos os dias há cerca de um ano. A aposentada depositou neles toda a sua esperança para acabar com as fortes dores nos ossos e com os tombos freqüentes desde que lhe foi diagnosticado um quadro de osteoporose.
- Fiquei com medo porque eu ia testar um remédio que ninguém sabia se ia dar certo - afirma Marli.

As dores e uma conversa com a nora, farmacêutica, foram maiores que o seu medo. Hoje, mesmo antes de terminar o tratamento, Marli acha que tomou a decisão correta. Embora tenha visto companheiros de estudo passarem mal, com enjôos e dores de cabeça, ela diz que não sentiu efeito colateral e - o melhor - suas dores nos ossos praticamente acabaram.
- Até voltei a freqüentar bailes de dança com meu marido - conta.
Moradora de Realengo, Marli recebe transporte e alimentação gratuitos quando vai à clinica ser avaliada pelos pesquisadores. É o único tipo de remuneração que a legislação brasileira permite para cobaias humanas. Segundo a resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, pacientes não podem receber dinheiro para participar de experiências.

A medida visa a evitar o aparecimento de cobaias profissionais, a exemplo do que acontece nos Estados Unidos. Lá, existem pessoas que vivem disso, pulando de projeto em projeto. É uma das razões pela qual o país responde por 48,7% das pesquisas com seres humanos, segundo o estudo publicado na "Nature". A Alemanha, segunda colocada, detém apenas 5,7% e o Brasil, em 17, entra com 1%.

- É uma forma de proibir esse mercado humano. Não podemos deixar que as pessoas entrem numa pesquisa atrás da outra em busca de dinheiro. No Reino Unido, houve morte recente porque o sujeito estava em oito experimentos ao mesmo tempo - conta William Hossne, um dos autores da resolução 196, que foi durante 12 anos presidente do Conselho Nacional de Ética em Pesquisas (Conep), órgão responsável pela aprovação dos projetos.

Por outro lado, a não-remuneração das cobaias é apontada por outros especialistas como um sério entrave para as pesquisas que necessitam de voluntários sadios.
- Em geral, os pacientes saudáveis só se oferecem quando têm parentes ou amigos que sofrem da doença que será estudada. Se eles passarem a ser remunerados, vai ser muito mais fácil o recrutamento - afirma o coordenador do comitê de ética em pesquisa do Instituto Psiquiátrico da UFRJ, Jorge Adelino.

Por restrições como essa, as normas brasileiras para pesquisas clínicas são consideradas avançadas. É uma das razões para o crescimento da atividade por aqui. O Brasil conta com 581 comitês de ética (CEPs), que são subordinados à Conep e formados por voluntários de diversas áreas - de médicos a teólogos - que analisam o aspecto ético de cada projeto.

O paciente assina um termo de consentimento em que são relatados todos os seus riscos e garantias. Ele tem o direito de abandonar a pesquisa quando quiser. As precauções não são garantia absoluta contra abusos. Em 2005, foi autorizada uma pesquisa na Amazônia que incentivava moradores a serem mordidos pelo mosquito transmissor da malária. O objetivo seria descobrir uma vacina para a doença. A Conep alega que o projeto foi modificado depois de aprovado.

- Toda pesquisa com seres humanos envolve riscos, mesmo um simples questionário - afirma Adriana Scheliga, coordenadora do CEP do Instituto do Câncer (Inca).
No Inca, isso é comprovado todos os dias pelos pesquisadores nas pequenas salinhas de atendimento às cobaias.

Com tumor maligno na laringe, o motorista de ônibus Ricardo Souza teve que convencer a família de que valia a pena testar um raio laser que evita o aparecimento de aftas durante o tratamento de quimioterapia e radioterapia. Foi difícil porque sua mulher viu o irmão morrer com água na pleura depois de participar de uma pesquisa de novos medicamentos para pacientes com leucemia. Sem aftas, Ricardo não tem do que reclamar, assim como a advogada Juacyra Moraes, que testa um medicamento para o tumor no colo do seu útero. Como efeito colateral, ela contabiliza apenas três espinhas no rosto, nada comparado com outra voluntária que sofreu obstrução arterial.

A aposentada Sandra Barreto, por sua vez, perdeu um dos rins para evitar o alastramento de seu tumor, mas não a esperança na sua completa recuperação. Ela participa de um tratamento inédito com quimioterapia, que não é normalmente indicada para este tipo de câncer. Com alta prevista para daqui a cinco anos, Sandra tem consciência de que pode estar participando de uma experiência vital para outras pessoas que venham a passar por situação semelhante.
- Se o remédio for aprovado, tomara que se lembrem dessa cobaiazinha aqui no futuro - afirma, bem-humorada. A sensação de fazer parte de algo maior às vezes se dá de maneira imediata. Com 70% do coração necrosado, dois enfartes e cinco pontes de safena, o representante comercial Nelson Águia, de 74 anos, recebeu em 2001 a notícia de que teria mais três meses de vida. Até que foi convidado a ser o primeiro ser humano no mundo a receber transplante de células-tronco embrionárias no coração. Ele foi operado num auditório lotado por 200 médicos, que fizeram de sua cirurgia uma aula para o resto de suas vidas. Entre eles, estava a filha de Nelson, que se diferenciava dos outros porque não parava de chorar. O sucesso da sua cirurgia abriu caminho para mais de mil pessoas que, depois dele, já foram submetidas ao mesmo procedimento. - É muito gratificante ser procurado por quem também quer salvar a sua vida. Virei uma espécie de garotopropaganda desse tipo de transplante - diz.

Até chegar a histórias felizes como a de Nelson, a pesquisa clínica passou por suas crises. A mais grave delas - e a que motivou regulamentações internacionais como o Código de Nuremberg, de 1947 - ocorreu nos campos de concentração nazistas, onde judeus eram vítimas de experimentos macabros de médicos como o difamado Josef Mengele, apelidado de Anjo da Morte. Em nome do avanço científico, os alemães mutilaram, aplicaram substâncias letais e até extirparam órgãos para saber como o corpo humano funcionaria sem eles. Nos anos 70 e 90, no Brasil, índios karitiana, suruí e ianomâmi tiveram seus sangues recolhidos por pesquisadores estrangeiros, que depois revenderam seu material genético até na internet.

Até hoje, países do Terceiro Mundo, especialmente na África, sequer têm uma regulamentação para tratar de pesquisas com seres humanos. Daí a quantidade de experiências ilegais desenvolvidas no continente, como mostrou o filme "O jardineiro fiel", do diretor Fernando Meirelles. Muitas vezes, os africanos nem têm escolha: o remédio da pesquisa é o único que chega até os doentes, o que deixa o espaço aberto para abusos da indústria farmacêutica.

- Existe uma pressão de laboratórios estrangeiros para que os projetos de pesquisa sigam as determinações de comitês de ética estrangeiros e, assim, sejam aprovados mais rapidamente aqui no Brasil. Como não conseguem, muitos vão para a África - afirma Carlos Varaldo, membro do comitê de ética da Fiocruz, lembrando que a indústria farmacêutica patrocina a maioria das pesquisas.

De fato, existe uma eterna queda-de-braço entre os laboratórios e os comitês de ética. Entre experimentos com animais e com seres humanos, um remédio pode levar até 15 anos para chegar às prateleiras das farmácias, tempo considerado alto demais pela indústria farmacêutica. Além de pedir mais agilidade na aprovação dos projetos, que pode durar até um ano, os pesquisadores e laboratórios rejeitam a obrigatoriedade de cuidar das cobaias pelo resto da vida, como sugere a regulamentação brasileira.

- Os laboratórios entendem que essa é uma obrigação dos governos. Mas aqui no Brasil essa questão às vezes é tratada de forma assistencialista. Esse tema ainda será amplamente debatido - afirma o médico Luís Augusto Russo, presidente da Associação de Pesquisa Clínica do Brasil e diretor de um centro de pesquisa clínica.





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03/03/2008


Este reportaje publicado por la Revista del Periódico El GLOBO el domingo 02 de marzo de 2008 coloca de forma clara lo que son los ensayos clínicos para investigar nuevos medicamentos. Existe mucho miedo en el paciente de ser considerado un "conejillo de la india, cobaya humana" en la pesquisa, pero venturosamente en Brasil los Comités de Ética son reglamentados por una legislación rigurosa.

La realidad del día a día nos muestra que muchos procuran participar de una pesquisa por falta de opciones gratuitas de tratamiento en el sistema público o por ser no respondedores a los medicamentos existentes.

Carlos Varaldo
Grupo Optimismo



Voluntarios de la cura


Motivados por sentimientos humanitarios o por la propia enfermedad, cerca de 250 mil brasileños testaron medicamentos nuevos año pasado


Revista del Diario El GLOBO - 02/03/2008
Por Fellipe Awi (Ilustraciones de Vinicius Mitchell)


Cefalea, náusea, vómito, mareos, erupciones cutáneas, confusión mental, alucinación, agresividad, urticaria, artralgia, mialgia, alteraciones cardiovasculares, visión turba. Son ésas las reacciones adversas de un simple medicamento para digestión, indicado hasta para recién nacidos. Por más que usted se quede asustado, el lector de la bula no siempre se da cuenta de que ciudadanos como él se dispusieron a sufrir esos efectos secundarios cuando el medicamento comprado en la farmacia era aún una sustancia sin eficacia y seguridad garantizadas.

Aunque nada atrayente, la función conocida como cobaya humana está en alta en Brasil. Hay cada vez más voluntarios brasileños se ofreciendo para testar nuevos medicamentos, a punto del país haber sido incluido en la lista de emergentes en investigaciones clínicas, con un crecimiento del 16% al año, según estudio de la Universidad de Massachusetts publicado en enero en la revista científica "Nature".

Según el médico y profesor William Saad Hossne, considerado el mayor especialista en experiencias envolviendo seres humanos en Brasil, cerca de 650 mil voluntarios participaron, en el año pasado, de 18.495 proyectos, siendo cerca de 250 mil en ensayos clínicos para nuevos remedios. Son personas en busca de la cura de su enfermedad o que solo desean sufrir menos. Hay también los sanos que lo hacen por altruismo, en nombre de Dios, de la Humanidad o de la ciencia.

- Decidí virar cobaya humana porque pienso en mis amigos soro positivos, en lo bien de la Humanidad y hasta en mí mismo, porque no sé del porvenir - explica el empleado publico Roberto José dos Santos, de 35 años, que está testando una vacuna anti-SIDA en un estudio de la UFRJ con una universidad americana, el Proyecto Plaza Once.
Roberto es uno de los millares de voluntarios soro negativos de 15 países que recibieron dosis de una vacuna de objetivo ambicioso: quien tomarla quedará protegido contra el virus del SIDA. La sustancia inyectada contiene un virus sintético y fragmentado que se asemeja al HIV. Aunque no haya posibilidad de que contraigan la enfermedad, los voluntarios están sujetos a reacciones como fiebre y dolores en el cuerpo, comunes a soro positivos. Algunos toman - sin saber, obviamente - placebo (en general, agua con azúcar), para se evaluar las reacciones puramente psicológicas. Un teléfono 24 horas les es ofrecido, así como asistencia inmediata en cualquier emergencia. Durante cinco años, tendrán que ser acompañados regularmente por los investigadores. A pesar de los cuidados, Roberto tuvo dificultades de convencer sus familiares de que no estaba firmando, por libre y espontánea voluntad, una sentencia de muerte.
- Mucha gente pensó que yo estaba me infectando con el HIV - cuenta.

El virus del preconcepto contra las cobayas humanas, especialmente cuando la prueba envuelve enfermedades infecto-contagiosas, también se manifestó en la vida del maquillador Eduardo Coimbra, voluntario de pesquisa semejante a la de Roberto. Cansó de oír comentarios maliciosos cuando habló que estaba participando del estudio.
Así mismo, dice que nunca se arrepintió porque se siente a servicio de la Humanidad. Está a servicio también de una causa particular. Eduardo perdió para el SIDA dos enamorados y dos amigos próximos.
- Ya es la segunda vez que me ofrezco para testar nuevas vacunas contra el SIDA. Y voy a me ofrecer por el resto de la vida. Nunca tuve miedo de pegar nada - afirma.

Aunque vistas como seguras, las investigaciones envolviendo vacunas anti-HIV sufrieron un duro golpe en el año pasado. La prueba con la fórmula considerada más promisoria fue suspendida porque los voluntarios se volvieron más vulnerables a infecciones virales. Allende poner personas saludables en riesgo, al menos durante un período, el fracaso representó un retroceso de más de cinco años en los estudios del Proyecto Plaza Once.

En la misma antesala frecuentada por Eduardo y Roberto, son muchos los voluntarios soro positivos que podrían haber experimentado otra suerte si ya hubiese vacunas anti-SIDA. A los 37 años, X. va allá para testar una nueva versión de un tradicional componente del cóctel. La versión actual le daba diarreas y dolores tan fuertes que ella hasta dejaba de tomar las cuatro pastillas diarias. Aliado a la depresión, el problema le pesa 37 quilos. por ahora, X. solo tiene elogios a la nueva fórmula a pesar del recelo de poner para dentro una sustancia desconocida.

- Tenía miedo porque me decían que en ese proyecto solo había cobayas. Pero esa medicina representa mi supervivencia y no podría me quedar sin él - cuenta ella, que agarró el virus en una transfusión de sangre después de complicaciones en el parto.

Fue también por pura necesidad que Marli Domingues, de 65 años, aceptó las pastillas que toma todos los días hace cerca de un año. La jubilada depositó en ellos toda su esperanza para acabar con fuertes dolores en los huesos y con las caídas frecuentes desde que le fue diagnosticado un cuadro de osteoporose.
- Me quedé con miedo porque yo iba a testar un remedio que nadie sabía si iba a resultar bien - afirma Marli.
Los dolores y una charla con la nuera, farmacéutica, fueron mayores que su miedo. Hoy, mismo antes de terminar el tratamiento, Marli piensa que tomó la decisión correcta. Aunque haya visto compañeros de estudio pasar mal, con mareos y cefalalgias, dice que no sintió efecto secundario y - lo mejor - sus dolores en los huesos prácticamente acabaron.
- Hasta volví a frecuentar bailes de danza con mi esposo - cuenta.
Moradora de Realengo, un barrio del suburbio, Marli recibe transporte y alimentación gratuitos cuando va a la clínica ser evaluada por los investigadores. Es el único tipo de remuneración que la legislación brasileña permite para cobayas humanas. Según la resolución 196/96, del Consejo Nacional de Salud, pacientes no pueden recibir dinero para participar de experiencias.

La medida visa evitar el aparecimiento de cobayas profesionales, a ejemplo de lo que acontece en Estados Unidos. Allá, existen personas que viven de eso, saltando de proyecto en proyecto. Es una de las razones por el cual el país responde por 48,7% de las pesquisas con seres humanos, según el estudio publicado en la "Nature". Alemania, el segundo colocado, detiene apenas 5,7% y Brasil, en 17° lugar, entra con 1%.

- Es una forma de prohibir ese mercado humano. No podemos dejar que las personas entren en una investigación atrás de la otra en busca de dinero. En el Reino Unido, hubo muerte reciente porque el sujeto estaba en ocho experimentos al mismo tiempo - cuenta William Hossne, uno de los autores de la resolución 196, que fue durante 12 años presidente del Consejo Nacional de Ética en Pesquisas (Conep), órgano responsable por la aprobación de los proyectos.

Por otro lado, la no remuneración de las cobayas es apuntada por otros especialistas como una seria dificultad para las investigaciones que necesitan voluntarios sanos.
- En general, los pacientes saludables solo se ofrecen cuando tienen parientes o amigos que sufren de la enfermedad que será estudiada. Si ellos pasan a ser remunerados, va a ser mucho más fácil el reclutamiento - afirma el coordinador del comité de ética en pesquisa del Instituto Psiquiátrico de UFRJ, Jorge Adelino.

Por restricciones como ésa, las normas brasileñas para pesquisas clínicas son consideradas avanzadas. Es una de las razones para el crecimiento de la actividad por aquí. Brasil cuenta con 581 comités de ética (CEPs), que son subordinados a la Conep y formados por voluntarios de diversas áreas - de médicos a teólogos - que analizan el aspecto ético de cada proyecto.

El paciente firma un término de consentimiento en el que son relatados todos los sus riesgos y garantías. Tiene el derecho de abandonar la investigación cuando quiera. Las precauciones no son garantía absoluta contra abusos. En 2005, fue autorizada una investigación en Amazonía que incentivaba moradores a ser mordidos por el mosquito transmisor de la malaria. El objetivo sería descubrir una vacuna para la enfermedad. La Conep alega que el proyecto fue modificado después de aprobado.

- Toda pesquisa con seres humanos envuelve riesgos, mismo un simple cuestionario - afirma Adriana Scheliga, coordinadora del CEP del Instituto del Cáncer (Inca).
En el Inca, eso es comprobado todos los días por los investigadores en las pequeñas salas de servicio a las cobayas humanas.

Con tumor maligno en la laringe, el conductor de autobús Ricardo Souza tuvo que convencer la familia de que valía la pena testar un rayo láser que evita el aparecimiento de aftas durante el tratamiento de quimioterapia y radioterapia. Fue difícil porque su mujer vio el hermano morir con agua en la pleura después de participar de una investigación de nuevos medicamentos para pacientes con leucemia. Sin aftas, Ricardo no tiene que reclamar, así como la abogada Juacyra Moraes, que testa un medicamento para el tumor en el cuello de su útero. Como efecto secundario, contabiliza apenas tres espinas en el rostro, nada comparado con otra voluntaria que sufrió obstrucción arterial.

La jubilada Sandra Barreto, a su turno, perdió uno de los riñones para evitar el crecimiento de su tumor, pero no la esperanza en su completa recuperación. Participa de un tratamiento inédito con quimioterapia, que no es normalmente indicada para este tipo de cáncer. Con alta prevista para de aquí a cinco años, Sandra tiene conciencia de que puede estar participando de una experiencia vital para otras personas que vengan a pasar por situación semejante.
- Si el medicamento es aprobado, tomara que se recuerden de esta cobaya aquí en el porvenir - afirma, bien humorada.

La sensación de hacer parte de algo mayor a veces se da de manera inmediata. Con 70% del corazón necrosado, dos infartos y cinco puentes de safena, el representante comercial Nelson Águila, de 74 años, recibió en 2001 la noticia del que tendría más tres meses de vida. hasta que fue convidado a ser el primer ser humano en el mundo a recibir trasplante de células tronco embrionarias en el corazón. Fue operado en un auditorio con 200 médicos, que hicieron de su cirugía una clase para los demás. Entre ellos, estaba la hija de Nelson, que se diferenciaba de los otros porque no paraba de llorar. El suceso de su cirugía abrió camino para más de mil personas que, después de él, ya fueron sometidas al mismo procedimiento.
- Es muy gratificante ser procurado por quien también quiere salvar su vida. Viraré una especie de muchacho-propaganda de ese tipo de trasplante - dice.

Hasta llegar a historias felices como la de Nelson, la pesquisa clínica pasó por sus crisis. La más grave de ellas - y la que motivó reglamentaciones internacionales como el Código de NUREMBERG, de 1947 - ocurrió en los campos de concentración nazistas, donde judíos eran víctimas de experimentos macabros de médicos como el difamado Josef Mengele, apodado de Ángel de la Muerte. En nombre del avance científico, los alemanes mutilaron, aplicaron substancias letales y hasta extirparon órganos para saber como el cuerpo humano funcionaría sin ellos. En los años 70 y 90, en Brasil, indios karitiana, suruí e ianomâmi tuvieron su sangre recogidas por investigadores extranjeros, que después revendieron su material genético hasta en el internet.

Hasta hoy, países del Tercer mundo, especialmente en África, siquiera tienen una reglamentación para tratar de pesquisas con seres humanos. De allí la cantidad de experiencias ilegales desarrolladas en el continente, como mostró la película "El jardinero fiel", del director Fernando Meirelles. Muchas veces, los africanos ni tienen elección: el remedio de la investigación es el único que llega hasta los enfermos, lo que deja el espacio abierto para abusos de la industria farmacéutica.

- Existe una presión de laboratorios extranjeros para que los proyectos de pesquisa sigan las determinaciones de comités de ética extranjeros y, así, sean aprobados más rápidamente aquí en Brasil. Como no consiguen, muchos van hacia África - afirma Carlos Varaldo, miembro del comité de ética de la Fiocruz, recordando que la industria farmacéutica patrocina la mayoría de las pesquisas.

De hecho, existe una eterna caída-de-brazo entre los laboratorios y los comités de ética. Entre experimentos con animales y con seres humanos, una droga puede llevar hasta 15 años para llegar a las farmacias, tiempo considerado alto demás por la industria farmacéutica. Allende pedir más agilidad en la aprobación de los proyectos, que puede durar hasta un año, los investigadores y laboratorios rechazan la obligatoriedad de cuidar de las cobayas humanas por el resto de la vida, como sugiere la reglamentación brasileña.

- Los laboratorios entienden qué ese es un deber de los gobiernos. Pero aquí en Brasil esa cuestión a veces es tratada de forma asistencialista. Ese tema aún será ampliamente debatido - afirma el médico Luís Augusto Ruso, presidente de la Asociación de Investigación Clínica de Brasil y director de un centro de investigación clínica.

Traducción de:
Carlos Varaldo
Grupo Optimismo







Last updated 2.3.2008