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Estigma na hepatite C

27/02/2006

A hepatite C causa dois tipos de danos no individuo infectado, o dano físico ao ter seu fígado atacado pelo vírus e o emocional, causado pelo estigma que a doença carrega.

Vamos falar um pouco sobre o segundo, sobre as conseqüências negativas do estigma, da diminuição da saúde mental, da baixa na auto-estima, da falta de suporte social ou psicológico, da pouca oferta de centros de tratamento realmente especializados e do desconhecimento da doença pela população em geral.

A hepatite C e uma doença assintomática, sem sintomas físicos aparentes, fácil de esconder da população porem ela e progressiva e, lentamente, deteriora a qualidade de vida do individuo. Aqueles que evolucionam para um dano hepático superior, para uma cirrose ou um câncer no fígado, dificilmente poderão esconder os sintomas da doença. Os tratamentos atualmente disponíveis somente conseguem eliminar o vírus em 56% dos tratados e, se considerarmos aqueles que não podem receber o tratamento vamos chegar a conclusão que a metade dos infectados poderá obter o beneficio da cura e a outra metade, os não respondedores, não possuem uma opção terapêutica imediata, devendo esperar pacientemente pela chegada de novos medicamentos.

O estigma muitas vezes se faz presente nas salas de espera dos consultórios médicos. O desconhecimento da doença pela maioria dos profissionais da saúde ocasiona um sentimento de insegurança no paciente, o qual e bombardeado com informações incorretas, muitas vezes apavorantes. Em salas de espera de hospitais é observado que alguns pacientes sentem vergonha de se identificar como portadores da hepatite C. Funcionários de empresas muitas vezes realizam o tratamento as escondidas de seus chefes e colegas, temendo serem isolados e até demitidos. Até o paciente encontrar um médico especializado o sofrimento de passar por vários médicos e de uma crueldade total.

Ninguém se contamina com a hepatite C por vontade própria, mas neste sentido o estigma na sociedade e muito grande. A reação mais comumente observada e que os infectados são tachados de ter tido um comportamento imoral, um sujeito com comportamento sexual de risco ou usuário de drogas. De fato, atualmente são poucos os novos infectados e destes, dois terços são usuários de drogas, mas não é divulgado que a maioria dos infectados adquiriram a infecção antes de 1993 por meio de transfusões de sangue, pelo uso de seringas não descartáveis, de vidro, aquelas que eram fervidas pelos profissionais de saúde. Por falta de divulgação da doença, pela omissão dos governos, estas formas de contaminação do passado ainda são desconhecidas da população.

O estigma muitas vezes leva o paciente ao isolamento social evitando em alguns casos até a procura de cuidados médicos especializados. Em outros casos o individuo pode gerar um sentimento de vingança, principalmente quando o paciente enfrenta discriminação no atendimento, seja médico, odontológico ou de qualquer tipo, passando a esconder sua condição de infectado, colocando assim em risco profissionais de saúde, outros pacientes que serão atendidos após seu atendimento e até parceiros e familiares.

Uma situação curiosa e a empregada durante a entrevista previa de alguns bancos de sangue. Se o doador (saudável) declarar que na família, na mesma residência, existe um portador de hepatite C, não poderá realizar a doação. Em alguns bancos de sangue informam que o doador deve morar por mais de um ano fora da residência (isto acontecia até ao ano passado em grandes cidades, como São Pulo e deve estar acontecem ainda em muitos grandes hemocentros).

Um verdadeiro absurdo por culpa da falta de informação dos responsáveis pelos bancos de sangue. São dois os motivos desta absurda exigencia, um deles e que hoje é sabido que os anticorpos aparecem em 90 dias, então querer um período superior a um ano de isolamento e sinal de desconhecimento profissional. Outro motivo, cômico se não fosse trágico e que em países como Brasil somente entre 3 a 5% dos infectados sabem que são portadores, assim, a entrevista é falha em 97% dos entrevistados. Devido ao pequeno percentual de sabedores da sua condição a pergunta nem deveria ser feita já que a maioria estará sendo aprovado e doando sangue. É mais um estigma que é criado entre a população. Um serviço que deveria ser de utilidade pública, de educação em saúde para assim ter mais doadores, aumenta o estigma com estes procedimentos errôneos.

As situações de discriminação e estigma têm um culpado: A omissão do governo na divulgação e detecção da doença. Quando a população não tem acesso a informações (as únicas iniciativas são esforços individuais das Organizações Não Governamentais - ONGs) e nem sequer ao teste de detecção, e que situações de discriminação e estigma se fazem presentes.

Carlos Varaldo
www.hepato.com
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