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Sinergia de pensamentos no Dia Internacional de divulgação da hepatite C

19/06/2006

É curioso, como o tempo se encarrega de encaminhar os indivíduos para um pensamento comum. No dia 10 de agosto de 1992, os Professores Vicente Amato e Jacyr Pasternak escreviam em editorial publicado no Jornal Folha de São Paulo um artigo alertando sobre o grave problema de saúde publica que o Brasil iria ter que enfrentar caso não fossem tomadas medidas urgentes em relação às hepatites B e C.

Passados desde aquela data exatamente 5.030 dias (até 19/06/2006) muito pouco foi feito pelos diversos governos que se alteraram no poder, a não ser empurrar o problema com a barriga, deixando que a “bomba viral” venha explodir sempre no próximo governo. Ao que tudo indica, parece que os gestores pensam que é muito mais econômico não gastar em detecção obtendo assim uma economia dupla, já que não se gasta na atualidade com o tratamento e, ainda, os indivíduos irão morrer com numa idade menor aliviando também os gastos com aposentadoria no futuro.

Coincidentemente, sem nada ter sido combinado, dois grandes nomes da hepatologia encaminharam artigos a jornais, praticamente denunciando o mesmo absurdo já conhecido há mais de cinco mil dias. Um deles, publicado no Jornal A Tarde de Salvador do dia 19 de maio mostra o posicionamento do Professor Raymundo Paraná. O outro, a ser publicado nos próximos dias em um jornal de São Paulo, mostra o posicionamento do Professor Roberto Focaccia. Os dois artigos, mais aquele histórico de agosto de 1992 se encontram reproduzidos abaixo deste e-mail.

Ao mesmo tempo, neste domingo mais de quarenta organizações não governamentais realizaram em todo Brasil uma campanha uniforme, incitando a população a realizar o teste de detecção das hepatites. O tema escolhido pelas ONGs foi o incentivo a detecção por ser exatamente isto que o governo federal quer evitar. Se eles não querem, então o foco da sociedade civil deve ser esse mesmo.

Dois filmes incentivando a realização do teste foram realizados pelas ONGs. Um com veiculação nacional pela Rede Globo e atualmente na emissora educativa TVE-BRASIL (pode ser visto na abertura de nossa página) e, um outro, regional para a cidade de Pelotas no Rio Grande do Sul foi realizado pelo grupo local ao qual estamos solicitando uma copia para disponibilizá-lo na internet. Muitos eventos realizaram testes de detecção e já temos os primeiros resultados (veja na abertura da nossa página).

Assim, descontentes com a falta de objetivo nas ações, desiludidos com promessas nunca cumpridas, a sociedade brasileira mostra sua revolta. Tal qual Oswaldo Cruz parece que será necessária uma revolta da população, desta vez contra a falta de ações nas hepatites.

É bom relembrar o poema “Verdades” de Carlos Drumond de Andrade para entender a forma de atuação nas hepatites:

"A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar uma pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava ó trazia o perfil de meia verdade."


Como disse Drumond em seu poema Verdades, uma meia verdade não permite atingir toda a verdade. É necessário detectar os já infectados e não “fazer de conta” que estamos realizando ações efetivas ao só falar de prevenção esquecendo os já doentes.

Até porque, como também disse Peter Drucker em um de seus inúmeros ensinamentos: “devemos sempre nos preocupar com o futuro, pois é lá que os infectados com as hepatites B e C que desconhecem que estão doentes estarão vivendo o restante dos dias”. Com certeza um futuro muito mais curto, pois perderão a saúde pela omissão governamental nas ações relativas as hepatites B e C.

A informação é um dos mais efetivos medicamentos já descobertos. A detecção dos afetados por uma epidemia é a forma mais efetiva de prevenção para evitar o agravamento do estado de saúde do individuo e evitar a disseminação da doença. Já, a omissão mata!

Leiam com atenção os três artigos publicados e tenho absoluta certeza que um sentimento estranho estará tomando conta de vossos pensamentos. Poderá ser de raiva, mas espero que seja de conscientização, de luta contra a omissão nas ações pelas hepatites. É muito gratificante ver que o povo brasileiro esta acordando para o grave problema que representam as hepatites e não quer ser conivente com a omissão do governo federal.



Hepatites Virais : exemplo de luta.


Artigo publicado no Jornal A Tarde – Salvador (BA) - 19 de Maio de 2006

Entre 21 e 26 do corrente mês realizar-se-á em Salvador a IV Semana Baiana da Hepatite C, dentro do programa mundial de divulgação desta doença. A Hepatite C é uma endemia que atinge 200.000.000 de indivíduos em todos os continentes. Juntamente com a Hepatite B é responsável por cerca de 700.000 mortes por ano.

A sua evolução silenciosa, associada à falta de informação à população, resulta numa imensa legião de indivíduos contaminados sem o diagnóstico da sua doença. Este aspecto acaba perenizando a cadeia de transmissão.

No Brasil, estima-se entre dois e quatro milhões de portadores dos vírus C ou B, mas na verdade as estatísticas em saúde no nosso país não são confiáveis. Em que pese a benignidade da doença na maioria dos portadores, entre 20 a 30% daqueles indivíduos cronicamente infectados evolui para uma doença hepática progressiva com risco de desenvolvimento de câncer de fígado. Por isso, a avaliação precoce é a regra e esta passa pelo rastreamento dos indivíduos que se expuseram aos fatores de risco (usuários de droga venosa, indivíduos que praticaram sexo não seguro, história de transfusão sanguínea antes de 1994, tatuados).

Infelizmente, as autoridades de saúde do Brasil optaram, por muito tempo, pela política da avestruz. Durante os anos 90, enquanto o Brasil recebia todos os prêmios pelo importante programa de luta contra a AIDS, as autoridades de saúde do Brasil nada relatavam a respeito do problema das hepatites virais, principalmente na Amazônia brasileira, onde a prevalência desta doença atinge níveis de flagelo. A organização da sociedade cível, através das ONGS e dos grupos de apoio aos portadores de hepatite levou o seu clamor até Brasília, culminando com a primeira ação do Ministerial, ainda tímida, criando uma comissão para avaliar este tema.

Em 2000, aconteceu a primeira ação, de fato, para promover no Brasil um programa de hepatites virais, contudo várias turbulências no Ministério da Saúde impediram ações mais efetivas. Em 2003, o Programa Nacional de Hepatites Virais foi criado com o intuito de oferecer todas as condições para o desenvolvimento de um programa em nível nacional, todavia enfrenta sérias dificuldades orçamentárias e logísticas. O Brasil é um país continental e possui contrastes regionais gritantes.

Neste país, não temos uma política de saúde definida para o setor público e privado; não temos maiores facilidades de acesso à rede pública de saúde em boa parte dos municípios brasileiros; não temos programa de educação médica continuada que abordem as grandes endemias do Brasil e, por fim, não temos estratégia para lidar com graves problemas de saúde pública. Por outro lado, temos uma rede pública de saúde desorganizada na maioria do municípios brasileiros, por culpa de gestões desastrosas ou fraudulentas. Temos também uma enorme dificuldade em definir prioridades, até porque num país onde a Lepra e a tuberculose ainda são problemas graves de saúde torna-se muito difícil definir o que é prioridade.

Enquanto isso, médicos e pacientes assistem, perplexos, aos sucessivos escândalos que envolvem os nossos representantes políticos. Não bastasse o lamaçal revirado em 2005 aparece o escândalo da ambulância, utilizando a saúde como pano de fundo para um dos maiores esquemas de desvio de verba no Brasil.

Por tudo isso, acredito que o nosso sistema de saúde só funcionará quando a sociedade civil organizada tomar as rédeas do jogo. São as ONGs e os grupos de apoio aos pacientes aqueles que fiscalizarão a atuação dos nossos políticos e promoverão programas efetivos e responsáveis de combate as endemias nacionais.

> Na Bahia, o Grupo Vontade de Viver, responsável pela IV semana da hepatite C, é um exemplo vivo do que a sociedade civil organizada pode fazer.

Prof. Raymundo Paraná Professor adjunto de Gastro-Hepatologia da UFBA
Livre-Docente, Doutor, Mestre e Médico pela UFBA
Especialista em Gastroenterologia pelo MEC e Hepatologia pela SBH




“Lei das Hepatites”


(Em processo de publicação)

A meu juízo de valor a autodenominada “Lei das Hepatites” (Lei no 11.255/05) que alcançou enorme divulgação (vide editoriais da Folha de São Paulo e do CREMESP), não acrescenta nada ao que já está vigendo. É bem verdade que faz um pouco de barulho em torno de uma infecção que, hoje, assume proporções assustadoras em termos de saúde pública, sem porém trazer qualquer contribuição nova ao encaminhamento do problema. Apenas mais uma lei declaratória de que os gestores federais de saúde parecem querer demonstrar que sabem da existência do problema. Será mesmo que estão conscientes? Não me parece.

A lei repete um decreto legislativo do Congresso Nacional que aprovou o Projeto de Lei No 432 de 2003, de autoria da Deputada Federal Mariângela Duarte, aprovado por aclamação da Câmara e do Senado (PLC/ 2005). Este projeto, muito mais abrangente, previa Grupo de Trabalho para em prazo adequado de 180 dias apresentaria normas técnicas ao estabelecimento de diretrizes de uma política de prevenção e atenção à saúde de pacientes portadores de hepatites e outras providências, com mais ênfase e objetividade que a Lei Presidencial.

A lei do Executivo, se reduz a uma mera declaração de intenções, como a querer dar uma satisfação ao clamor de pacientes, das ONGs, dos especialistas e da sociedade civil organizada. Uma lei como tantas e tantas deste nosso País cartorial, não menos ineficaz e inócua do que a determinação constitucional em seu caput diz, de forma redundante, que “...todo cidadão é igual perante a lei” (!?! – é praticada?).

Ainda, pasmem, transfere a responsabilidade financeira de despesas decorrentes de eventuais medidas para “.....a conta de dotação orçamentária própria das 3 (três) esferas de Governo” (sic). Quem afinal vai pagar? Ninguém !

Com exceção dos Centros de Referência em Hepatites que estão, a duras penas, atendendo uma demanda imensamente reprimida, os mais de 200 centros de testagem em DST e AIDS, encarregados atualmente pelo Programa Nacional de Hepatites para o atendimento primário de hepatites, não possuem treinamento suficiente, estrutura multidisciplinar como as hepatites crônicas exigem, nem insumos e procedimentos requeridos para tal.

Não existe uma Política Nacional de Controle Preventivo das Hepatites. Gasta-se muito e mal com o efeito e se esquece de eliminar ou reduzir as causas. É o que na linguagem popular se diz “empurrar o problema com a barriga”. Falta o devido conhecimento da questão, falta capacidade gerencial, determinação política e coragem de enfrentar o problema.

Quais os benefícios que os pacientes alcançaram com a nova lei? A meu ver, SIMPLESMENTE NENHUM. O Brasil continua à espera de uma política séria, responsável, de abordagem efetiva dessas infecções. Os números são assustadores: as hepatites virais crônicas B e C ultrapassam numericamente em cerca dez vezes a prevalência da infecção pelo HIV/AIDS. E mata cerca de quatro vezes mais.

O excelente programa de controle do HIV/AIDS, iniciado em Santos pelo saudoso Davi Capistrano e que, com auxílio de US$ 1 bilhão doado pelo Banco Mundial, permitiu ao Brasil desenvolver a primazia de uma excelente agenda de controle da epidemia e o respeito internacional. Às hepatites e, de resto, à tuberculose e tantas endemias nacionais, ficaram a sobras do programa de HIV/AIDS.

Como a Indústria Farmacêutica faz grande esforço para vender seus produtos destinados ao tratamento das hepatites crônicas B e C (aliás, é o objetivo comercial delas), todo esse esforço foi confundido pelo Governo como um grande lobby da Indústria a supervalorizar o problema para vender drogas.

Ainda que ONGs sejam patrocinadas pela Indústria (dentro do jogo democrático e capitalista global), ainda que médicos sejam cooptados pela Indústria para valorizar a necessidade de tratamento urgente (tal como em todo o mundo capitalista e democrático global), a complexidade do problema referente à grande pandemia de hepatite não é do conhecimento dos nossos gestores federais. A epidemia ainda está submersa como um enorme iceberg avançando silenciosamente em milhões de brasileiros e que vai se exteriorizar nos próximos anos quando atingir as fases finais de lesionamento do fígado e outros órgãos.

Cálculos matemáticos de países desenvolvidos indicam que em 2013 teremos a maior demanda de casos manifestos e em 2019 a maior demanda de transplante de fígado. Estaremos preparados até lá com essa lei?

Mais grave: enquanto o primeiro mundo assiste a uma parada do nível ascensional da prevalência de HCV face aos programas de prevenção por cuidados de biossegurança, controle sanitário de lugares onde se compartilha material com sangue (manicuras, dentistas, acupunturistas, tatuadores, barbeiros etc.), programas de educação sobre agravos à saúde e como evitá-los, o Brasil assiste ao triste drama de constatar que 60% dos pacientes que procuram assistência médica com HBV ou HCV não apresentam qualquer fator de risco, certamente por terem adquirido a infecção na comunidade, aqui sem qualquer controle e educação sanitária.

Prevenir é mais barato do que tratar. Ensinamento primário que nossos gestores não apreenderam na escola. Lamento pelo nosso povo.

Prof. Dr. Roberto Focaccia
Professor Livre Docente de Infectologia pela Universidade de São Paulo. Coordenador de Grupo de Assistência a Pacientes Portadores de Hepatites em Centro de Referência. Pesquisador há 33 anos das Hepatites Virais.
Autor do “Tratado de Hepatites Virais”, Ed.Atheneu.




Hepatite no tempo da AIDS


Este artigo foi publicado como editorial na Folha de São Paulo no dia 10 de agosto de 1992, há mais de 13 anos, mas poderia ser republicado hoje mudando só alguns conceitos sobre as diversas hepatites. No que concerne a inanição e ignorância por parte do governo o texto do artigo continua atualizado. A omissão na época continua igual na atualidade.

Vicente Amato Neto, 64 anos, é superintendente do Hospital das Clinicas (SP), chefe do Departamento de Doenças Infecciosas da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo e,

Jacyr Pasternak, 52 anos, médico infectologista, é chefe de gabinete da superintendência do Hospital das Clinicas (SP) e membro do Grupo de Transplante de Medula Óssea do Hospital Albert Einstein.


Enquanto discute-se muito a AIDS e suas formas de disseminação, ou quando são analisados, com pânico, os dados de incidência de meningite meningocócica, velhas e antigas desgraças continuam rondando esquecidas.

Um bom exemplo, a propósito, é constituído pelas hepatites, no plural. Embora fale-se hepatite por vírus como se fosse uma única doença, de fato existem pelo menos cinco entidades no grupo, motivadas por agentes diferentes, que originam manifestações clinicas parecidas.

O mais comum componente é a hepatite A, enfermidade que muito raramente mata, atinge crianças mais que adultos, instala-se por via oral, através de comidas ou água contaminada e evolui para cura sem seqüelas. A designada B transmite-se pelos contatos sexuais ou com sangue, pode assumir maior gravidade, ocasiona óbitos até na fase aguda e, em 5% a 10% dos casos, deixa danos por vezes terríveis, ilustrado pela cirrose hepática, que é lesão crônica do fígado, progressiva para a falência do órgão, ou inclusive pelo câncer. A referida como C tem veiculação semelhante à da B e origina cirrose mais frequentemente. A dita D configura curiosidade biológica, pois depende de vírus que se soma ao desencadeador da hepatite B e envolve, não raramente, intensidade indesejável. Finalmente, a denominada E contamina oralmente e na Índia, segundo ficou percebido, determina piores conseqüências, inclusive fatais, em mulheres grávidas.

No Brasil, vigoram seguramente as quatro primeiras, em plena atividade, e provavelmente está por aqui também a ultima.

O que for gasto em imunização vai redundar em futuro lucro, quando não tivermos que acudir os cirróticos, as vitimas de hepatomas e os presenteados com outros horrores.

A dificuldade reside no fato de que a despesa é agora e a economia no futuro, sendo problemático convencer certos governantes a concordar com essa forma de investimento.

Decididamente, há que conscientizar a população sobre a inevitabilidade de manter acesso o conhecimento de realidade que estes distúrbios demarcam no campo médico-sanitário e cabe à comunidade exigir saneamento e a vacinação, suficientes para arrefecer a expressividade deles.

Carlos Varaldo
www.hepato.com
hepato@hepato.com


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