GRUPO OTIMISMO DE APOIO AO PORTADOR DE HEPATITE
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07/04/2007


"Hepatite C: a epidemia oculta" - "Dia Nacional dos Infectologistas"


A Sociedade Brasileira de Infectologia tem no dia 11 de abril sua data maior, quando comemora o dia nacional. Para 2007 o tema escolhido refere-se a "Hepatite C: a epidemia oculta".

A Sociedade Brasileira de Infectologia visando colaborar com a saúde pública realizará um mutirão de detecção da Hepatite C na cidade de São Paulo no dia 14, sábado próximo, no Hospital Emílio Ribas, Hospital dos Servidores Públicos de São Paulo, Hospital Heliópolis e Hospital Santa Marcelina, entre 08:00 h e 13:00 h. Os que resultarem positivos serão endereçados para locais de assistência apropriada.

Adicionalmente, todas as 23 Federadas estaduais da SBI estão sendo estimuladas a realizarem atividades com a mesma finalidade.

Dr. João Silva de Mendonça, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia e todos os médicos infectologistas do Brasil, recebam a admiração e o agradecimento da população brasileira. Não mais podemos calar e ignorar o grave problema!

Fico contente ao constatar que uma sociedade médica decidiu enfrentar a temida "epidemia oculta". Estou colocando por escrito minha opinião sobre o gravíssimo problema da hepatite C no Brasil, a qual se encontra a seguir.



Uma "bomba viral" prestes a explodir!


*Carlos Varaldo

Segundo informações do CDC - Centro de Controle de Doenças, órgão oficial do governo dos Estados Unidos, a hepatite C mata anualmente 10.000 americanos por ano, numero que deverá dobrar ou triplicar nos próximos anos ultrapassando as mortes causadas pela AIDS.

O CDC estima que 2% da população dos Estados Unidos, quatro milhões de americanos, estejam infectados com a hepatite C e, que aproximadamente a metade, já tomou conhecimento da infecção que silenciosamente está destruindo seu fígado. Os números são similares no Brasil, onde a Organização Mundial da Saúde estima que até 2,6% da população, mais de quatro milhões de brasileiros (o governo estima que sejam três milhões) estejam infectados, com a incrível diferença que no Brasil muitos poucos sabem da sua condição de infectados. É estimado que até 95% desconhecem que se encontram doentes, o que prenuncia um quadro muito mais grave que o dos Estados Unidos.

Ian Williams, chefe de epidemiologia das hepatites no CDC afirma que o diagnostico precoce dos infectados e o ponto fundamental para combater a epidemia de hepatite C, isto porque a maioria das pessoas se infectou no passado, antes de 1992, quando o sangue das transfusões não era testado e as seringas e agulhas de injeção não eram descartáveis. Segundo o CDC novos casos de infecção estão diminuindo nos Estados Unidos, sendo estimado que em 1980 acontecessem 240.000 infecções por ano, diminuindo para 26.000 novos casos em 2004. Já os casos diagnosticados, de infecções que aconteceram no passado se encontram em aumento devido à facilidade de testagem ou a sintomas clínicos daqueles que já se encontram cirróticos ou com câncer no fígado.

Os exames de sangue comuns, como o hemograma, não mostram se o individuo esta infectado com a hepatite C. Tal qual a AIDS é necessário realizar um teste especifico para diagnosticar a hepatite C, chamado ANTI-HCV, para o qual é necessária uma amostra de sangue a ser enviada ao laboratório. É esperado já em 2008 um teste fácil e rápido para detectar a hepatite C. Um simples cotonete indicará o resultado, positivo ou negativo, em vinte minutos. O cotonete absorve a saliva da boca fornecendo o resultado.

Na minha rotina na divulgação das hepatites me deparo com famílias que ao descobrir que um membro de seu núcleo se encontra infectada com a hepatite C o impacto chega a ser similar ao que resulta da morte de um familiar. Isto é resultado da falta, por parte do governo, de campanhas de informação sobre a doença, quanto menos da realização de campanhas de testagem ou facilidade de realizar o teste de detecção na rede pública de saúde.

Ações como a mutirão desenvolvido pela Sociedade Brasileira de Infectologia no próximo dia 14 na capital de São Paulo, realizando o teste de detecção da hepatite C no Hospital Emílio Ribas, Hospital dos Servidores Públicos de São Paulo, Hospital Heliópolis e Hospital Santa Marcelina merecem total apoio e o aplauso da população.

O governo ficou sentado acima de uma "bomba viral" prestes a explodir, quando o novo teste estiver no mercado um numero maior de pessoas vai descobrir estar infectado com a hepatite C. Deverão mudar seu estilo de vida e muitos deverão procurar tratamento, podendo causar um problema para o governo que ainda não preparou a infra-estrutura necessária, mas já se passaram quinze anos de promessas e muito pouco foi concretizado até o momento.

Resultado da falta de ações por parte do programa nacional de hepatites diversos estados desiludidos com a atuação e as promessas nunca efetivadas estão acabando com os programas estaduais de hepatites e incorporando as ações nos programas de AIDS, do qual sempre receberam maior atenção. Outros, após aguardar durante cinco anos que o programa nacional realize a atualização dos protocolos de tratamento estão redigindo normas técnicas estaduais, incorporando as novas evidencias cientificas aos tratamentos e assumindo os custos por conta própria.

No inicio da década lutei com entusiasmo pela criação do programa nacional de hepatites e, depois, lutei pela sua manutenção, mas reconheço que devo dar a mão à palmatória ao constatar que de nada adiantou, que perdemos um tempo precioso e muito pouco avançamos nestes cinco anos. Hoje presenciamos a morte por inanição de um programa nacional que nunca decolou e que deveria ser repensado se o mesmo deve continuar, ser fortalecido ou ser incorporado ao programa de AIDS.

Ao olhar para a crescente fila de espera por um transplante de fígado ou para as causas constantes nas certidões de óbitos, vemos que a "bomba viral" já esta pipocando, começando a explodir. Confiamos que o novo ministro da saúde tenha consciência do problema. Não acredito que o Dr. Temporão seja conivente com a omissão dos atuais gestores nas ações pelas hepatites.

Ações como o mutirão de diagnostico da Sociedade Brasileira de Infectologia no mês de abril ou a realizada todo mês de maio pelas associações e grupos de pacientes são o grito de alerta e protesto da sociedade civil, a qual não pode ficar indiferente nem ser conivente com a omissão que existe por parte do governo em relação às hepatites virais.

Não realizar campanhas de detecção da hepatite C no Brasil pode acarretar mais de 1.000.000 de casos de cirroses ou câncer nos próximos 10 anos. Se detectada precocemente, até 600.000 mortes poderão ser evitadas. "Não saber é ruim, não querer saber é pior, mas não se preocupar com as conseqüências dessa omissão é imperdoável".

*
Carlos Varaldo
Grupo Otimismo







Last updated 7.4.2007