GRUPO OTIMISMO DE APOIO AO PORTADOR DE HEPATITE
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14/05/2007


Tristes promessas nas hepatites em 2003, nunca cumpridas.

As conseqüências começam a aparecer!


Em 2003 na programação de ações do Programa Nacional de Hepatites Virais - PNHV para o ano de 2004 constava entre os destaques a seguinte ação:

- Curso de capacitação em Prevenção para multiplicadores que atuam com População Indígena - Prevista para ter acontecido em MAIO, JUNHO e JULHO.

Em 22 de Julho de 2004 após consulta realizada ao próprio ministro pelas associações de pacientes sobre o andamento das ações prometidas recebemos do PNHV a seguinte resposta:

1) A assistência, em parceira com a GT-DER (Coordenação das doenças emergentes e reemergentes da DEVEP/SVS), já implantou a vigilância da síndrome febril icterohemorrágica aguda (SFIHA), onde as hepatites virais também podem estar incluídas, no vale do Javari-AM (março/04), São Gabriel da Cachoeira-AM (março/04), São Miguel das Missões - RS (maio/04) e irá implantar em Araguaina - TO (agosto/04.

2) Em paralelo foi realizada reunião com a equipe de educação em saúde do Departamento de Saúde Especial Indígena (DSEI) de Alto Solimões, Baixo Solimões, Manaus e Javari para discutir ações de prevenção com as populações indígenas do Vale do Javari, onde vem ocorrendo óbitos por SFIHA,sendo a maioria deles devido à hepatite B. Para esse trabalho será necessária a contratação de antropólogo especialista nas etnias Corubos, Marubos, Matis, Ticunas e Mairunas para, junto com as lideranças indígenas, elaborar metodologia específica de prevenção das hepatites virais com estas populações. Este antropólogo já vem discutindo o problema com o PNHV.

3) Serão realizadas três oficinas em Brasília e em Goiânia para discutir os treinamentos em Transmissão Vertical das Hepatites Virais para profissionais de saúde que trabalham com populações indígenas. Serão 06 treinamentos, assim distribuídos:

De 23 a 27 de agosto de 2004: Alto Juruá, Alto Purús, Vale do Javari, Médio Purús, Porto Velho, Vilhena e Alto Solimões.

De 13 a 17 de setembro de 2004: Leste de Roraima, Yanomami, Alto Rio Negro, Parintins, Rio Tapajós, Manaus, MS e Afluentes.

De 04 a 08 de outubro de 2004: Amapá, Maranhão, Guamá-Tocantins, Kaiapó- PA e Altamira.

De 18 a 22 de outubro de 2004: Alagoas/Sergipe, Bahia, Ceará, Potyguara e Pernambuco.

De 22 a 26 de novembro de 2004: Araguaia, Cuiabá, Rio Tocantins, Xavante e Xingu.

De 13 a 17 de dezembro de 2004: Mato Grosso do Sul, Minas Gerais/Espírito Santo, Interior Sul- PR e Litoral Sul- RJ.

Ainda, em 2003, na página da internet do Ministério da saúde constava (ainda consta em http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=21848 ) afirmando orgulhosamente que: Seguimento às ações de prevenção e assistência à população indígena - Projeto Vale do Javari - PNHV/PNI/ FUNASA.



Agora, em 2007, o resultado mostrado pelos jornais e o seguinte:

Índios do Vale do Javari lutam para acabar com crise na saúde

18/04/2007 - http://www.socioambiental.org/nsa/detalhe?id=244

Protestos contra falta de medidas para combater epidemias de malária e hepatite mobilizam lideranças indígenas na região, em Brasília e devem chegar ao exterior, por meio de denúncias na OEA e ONU. A crise na saúde dos povos indígenas do Vale do Javari, no Amazonas, dura mais de 15 anos, se agravou nos últimos cinco, e conta com a omissão de todos os órgãos responsáveis.

O objetivo da mobilização, que esta semana terá desdobramentos em Brasília durante o Abril Indígena, é acabar com o descaso e a omissão das autoridades brasileiras que ignoram ou combatem de forma precária as epidemias de malária e de hepatite B e D que têm provocado, nos últimos anos, um crescente número de mortos na população de cerca de 4 mil índios que vivem na região. O número de vítimas fatais destas epidemias combinadas pulou de 30 casos em 2005 para 39 em 2006 - um aumento de quase 25 % em números absolutos.

A própria Funasa realizou um inquérito sorológico em dezembro passado em 309 índios e descobriu que 56% deles portam o vírus da hepatite B. A Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que o limite aceitável de contaminação em uma população é de 2%. A pesquisa também revelou que 263 índios - 85,1% dos 309 pesquisados - já tiveram contato com o vírus de hepatite A, e 25% dos pesquisados são portadores da Hepatite D, além da constatação de 4 casos de hepatite C, vírus anteriormente não encontrado na população local.



Dados: Índios do Vale do Javari preparam dossiê com números alarmantes de casos de malária e hepatite nas aldeias

Porto Velho/RO, 13/5/2007 - www.rondonoticias.com.br

Verdadeiro surto epidemiológico de doenças infecto-contagiosas estão deixando a população, especialmente indígena da região no Vale do Javari dentro do Amazonas, na divisa com o estado de Rondônia, com os cabelos em pé. Segundo denuncia dos representantes das aldeias locais, mais de 80% da população está sofrendo com as doenças no setor.

Os índios estão denunciando que o governo esconde as verdadeiras cifras apontadas pela Funasa. E que segundo o órgão Federativo somente 15% da população de índios pegou hepatite ou malária nestas temporadas. De acordo com fontes os índios estão se municiando de várias provas estatísticas que elevam esses 15% até 80% do percentual atribuído oficialmente. Um dossiê está sendo preparado e será mostrado nos próximos dias em Brasília para as autoridades da saúde.



A grave epidemia de hepatite B e D no Vale do Javari


Hilton S. Nascimento - Ecólogo do Centro de Trabalho Indigenista - CTI

Entre os anos de 2001 e 2004 os índios do Vale do Javari enfrentariam aquele que se transformou no seu maior problema nesse período, e que já não era mais a extração de madeira, uma epidemia de hepatite B e D.

A região amazônica é considerada uma das mais importantes áreas de endemicidade do vírus da hepatite B e D no mundo. A terra indígena Vale do Javari localizada no sudoeste do estado do Amazonas se situa dentro dessa área de alta endemicidade. A grave contaminação por hepatite B no Vale do Javari é um problema antigo. Há mais de 13 anos, em 1993, já se tem documentos falando de mortes por essa hepatite na região (FUNAI, 1998). Em 1995 houve um surto de mortes com 7 óbitos (Instituto Socioambiental, 1995).

Em junho de 2001 um novo período de mortes causados pela hepatite B ou síndrome febril íctero-hemorrágica aguda (SFIHA) começou. A SFIHA é o nome técnico que se dá para a doença que possui sintomas parecidos com hepatite B e febre amarela mas sem comprovação laboratorial.

Notícias via rádio de pessoas vomitando sangue, entrando em coma terminal e vindo a óbito em menos de cinco dias se tornaram freqüentes. Com mais de uma morte por mês e com as notícias se espalhando rapidamente via rádio o medo se espalhou pelo Vale do Javari. Duas aldeias (Rio Novo e São Sebastião) mudaram de lugar na esperança de fugir da doença e o êxodo de jovens em direção as cidades de Atalaia do Norte se intensificou em busca de tratamento ou para fugir da doença.

No Acre onde a hepatite B é o principal problema de saúde pública, ela também tem contribuído para o esvaziamento do campo com seus habitantes não indígena migrando para a cidade em busca de tratamento.

Em 2004 a expedição da Funai e do Instituto Dunas e Ventos, patrocinada pela Kodak fez o que a Funasa até hoje não conseguiu: a sorologia de todos os habitantes do rio Ituí.

Foram realizados 413 exames, que ficaram à disposição da Funasa. A pedido da revista ISTO É (18/08/2004) o infectologista Artur Timerman, comentou os dados: "Apenas 14% da população desenvolveu imunidade ao vírus da hepatite B a partir de vacinação. "Trata-se de uma imunização pela vacina extremamente baixa para uma área considerada endêmica, mas que se mostra numa situação de epidemia". Outros 23% dos índios examinados desenvolveram imunidade natural ao vírus. Por um lado, isso é bom. Indica que o organismo produziu anticorpos e eliminou o vírus, tornando o corpo imune".

A Funasa se recusa a aceitar esses resultados alegando desconhecer o método utilizado, mesmo tendo sido usado o Elisa, método preconizado pelo Ministério da Saúde. Dados oficiais da Funasa de 2004 comprovam 78 indígenas portadores de hepatite B (CTI, 2005). O número da amostragem como sempre, nunca é divulgado, mas não chega nem a 1.000 indígenas dos cerca de 3.000 habitantes do Vale do Javari.

Atualmente a situação das hepatites no Vale do Javari não mudou muito, continua sendo uma bomba relógio que pode voltar a explodir a qualquer momento. Situação agravada pelo fato de ser uma área com fortes surtos de malária numa população com o fígado já debilitado pela hepatite.

Fontes de referência citadas pelo Dr. Hilton S. Nascimento:

v - Brasil, L. M. 1999. Epidemiologia das hepatites no Estado do Amazonas. In: Luisa Basilia Iñiguez Rojas e Luciano Medeiro de Toledo (orgs.). Espaço & Doença: um olhar sobre o Amazonas. Ministério da Saúde, Fundação Oswaldo Cruz. Editora Fiocruz.

- Centro de Trabalho Indigenista. 2004. A grave situação das hepatites B e D no Vale do Javari. Disponível em www.trabalhoindigenista.org.br

- Centro de Trabalho Indigenista. 2005. A grave situação de saúde no Vale do Javari continua, mesmo após um ano de denúncias. Disponível em www.trabalhoindigenista.org.br

- FUNAI. 1998. Relatório de identificação e delimitação da Terra Indígena Vale do Javari, GT Portarias n0 174/95 e 158/96. Brasília.

- Instituto Socioambiental. 1996. Povos Indígenas no Brasil 1991/1995. Série aconteceu especial. São Paulo.

- Lacerda, M. V. G. 2002. Investigação de três casos de óbito por síndrome febril ícterohemorrágica aguda em Atalaia do Norte (AM) em 2001. Fundação de Medicina Tropical do Amazonas.

- Varaldo, C. 2005. Grupo Otimismo disponível no site da Associação brasileira de Hepatologia www.sbhepatologia.org.br


MEU COMENTÁRIO: Até quando vamos brincar de realizar promessas vazias. O que está acontecendo com os índios é só mais um exemplo, pois o mesmo já está acontecendo com a população em geral, onde 95% dos seis milhões de infectados com as hepatites B e C desconhecem que estão doentes, continuando, lenta e silenciosamente para o mesmo destino dos abandonados índios do Vale do Javari. >

Carlos Varaldo
Grupo Otimismo











Last updated 14.5.2007