GRUPO OTIMISMO DE APOIO AO PORTADOR DE HEPATITE
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16/08/2008


I Seminário de Políticas de Saúde em Hepatites Virais na Amazônia

 

Belém – Pará – 13 e 14 de agosto de 2008

 

Como vice-diretor do World Hepatites Alliance fui convidado ao ‘’I Seminário de Políticas de Saúde em Hepatites Virais na Amazônia’’, importante evento reunindo gestores públicos municipais, estaduais e federais, sociedades médicas, pesquisadores e sociedade civil, realizado na cidade de Belém, Para, nos dias 13 e 14 de agosto de 2008. 

 

O convite foi para participar do painel ‘’Gestão em Saúde: Realidade Brasileira’’ um tema que conheço muito bem após 10 anos de lutas visitando todos os cantos do Brasil.  A avaliação da realidade de quem vive o “outro lado da mesa”, o lado do portador é muito mais ampla do gestor público que fica em Brasília, pois vivenciamos a realidade do dia a dia na saúde pública.

 

Iniciei minha apresentação falando que para realizar ações e fundamental conhecer os dados da realidade atual e para tal estaria apresentando números e estatísticas que possam refletir a verdadeira situação da realidade brasileira. Ante resultados certificados por números não existe argumentação por parte do gestor público.

 

Os dados apresentados podem ‘’doer’’ para alguns gestores, mas não podem ser ignorados sob a responsabilidade de continuar trabalhando sem planejamento ou direcionamento, o que resulta em mais e mais fracassos.  As hepatites B e C se transformaram em uma bomba viral que já começou a explodir, assim e necessário falar de forma clara e sincera, sem tentar tampar o sol com a peneira.  No se trata de críticas destrutivas, pelo contrario são críticas para dar inicio a uma nova fase no enfrentamento das hepatites no Brasil para tentar mudar o quadro atual, onde morrem mais pacientes daqueles que recebem tratamento no SUS.

 

 

1 – O problema

 

- As Hepatites B e C são epidemias mais graves e de proporção 10 vezes maior do que o HIV/AIDS.

 

- Não obstante esta situação, os Poderes Públicos omitem deliberadamente a adoção de campanhas.

 

- O Programa Nacional das Hepatites Virais – implementado somente em 2002 – é tardio e insuficiente, pois optou pelo método universal passivo no combate às Hepatites B e C.

 

- Em 2002, ano da criação do PNHV aproximadamente 6.500 pacientes de hepatite C e 1.500 de hepatite B receberam tratamento.  Em 2007, após cinco anos de criação do PNHV aproximadamente 10.000 tratamentos para hepatite C e 2.000 tratamentos para hepatite B foram oferecidos no SUS;

 

- Esses dados são oficiais, calculados pelo consumo dos medicamentos Interferon Peguilado, Ribavirina, Lamivudina e Interferon alfa de 3, 5 e 10 milhões de IU publicados no site do DATASUS em:   http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sia/cnv/pauf.def

 

 

 

2 - Dados Epidemiológicos do Ministério da Saúde        

 

Casos de hepatite C – Última atualização em 2005

 

Conforme os últimos dados epidemiológicos disponibilizados pelo ministério da saúde, em 2005 foram notificados 7.998 casos de hepatite C no Brasil. 

 

Continuando nesse ritmo, uma simples projeção desses números mostra que nos próximos 20 anos somente serão diagnosticados 160.000 dos prováveis quatro milhões de infectados.

 

Isso resultara que noventa e seis por cento dos infectados com a hepatite C estarão morrendo sem saber da sua doença, sem o diagnostico!

 

 

 

3 – O absurdo na página na internet do Programa DST/AIDS

http://www.aids.gov.br/data/Pages/LUMIS8B526207PTBRIE.htm  

 

O Brasil possui um excelente programa para cuidar das DST (doenças sexualmente transmissíveis), mas e totalmente inaceitável que na relação das doenças sexualmente transmissíveis mais conhecidas, seus sintomas, forma de contágio, ações de prevenção e tratamento não conste sequer menção a maior DST existente no Brasil, com dois milhões de infectados e que possui uma facilidade ate cem vezes maior que a AIDS, estamos falando da hepatite B. 

 

O Programa DST/AIDS explica e cuida muito bem das seguintes DSTs:

 

 

 

É possível um programa de DST ignorar ou censurar a hepatite B? 

Porque a hepatite B não e de responsabilidade do programa DST/AIDS quando ela e muito similar a AIDS nas suas formas de prevenção, transmissão e tratamento (baseado na carga viral e na resistência aos medicamentos) e toda a base de tratamento e biologia molecular instalada para AIDS poderia ser aproveitada?

 

 

 

3 - Os Poderes Públicos conferem tratamento desigual às vítimas de Hepatite “B”, “C” e HIV/AIDS no plano da assistência médica à saúde:

Fonte dos dados – Consumo de medicamentos – DATASUS - http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sia/cnv/pauf.def

 

n      O programa de DST/AIDS garante tratamento medicamentoso a 1 de cada 3 infectados com HIV/AIDS;

 

n      Em relação aos pacientes portadores de Hepatite esta proporção aumenta substancialmente, pois o governo oferece tratamento medicamentoso apenas a 1 de cada 350 infectados com a hepatite C;

 

n      Na hepatite B aproximadamente 1 de cada 1.000 infectados recebe tratamento com interferon alfa ou lamivudina.

 

O Programa DST/AIDS tornou o Brasil um exemplo de país socialmente responsável para com a saúde de seus cidadãos.  Podemos ter orgulho do Programa de Hepatites?

 

E estimado que atualmente o número de mortes por causa das hepatites B e C sejam maiores que o numero de pacientes em tratamento.

 

Lutamos muito para termos um programa nacional de hepatites, independente, conseguido em 2002, mas se hoje alguém propõe acabar com o programa de hepatite e incorporar elas no programa DST/AIDS estarei apoiando entusiasticamente a idéia.

 

 

4 - Conseqüências:

A não detecção precoce das hepatites diminui a expectativa de vida dos infectados em 16 anos, conforme grandes estudos populacionais publicados na literatura cientifica internacional

 

Em 1995 nos Estados Unidos os óbitos representavam 1,09 casos a cada cem mil indivíduos, aumentando para 2,44 óbitos para o mesmo numero populacional em 2004, um aumento de 123% no período.

No período a incidência de mortes por problemas diretamente ligados a hepatite C aumentaram 376% na faixa de idade entre 45 e 54 anos e, em 188% na faixa de idade entre 55 e 64 anos.


As mortes diretamente relacionadas a hepatite C aconteceram em uma media de idade de 55 anos, confirmando estudos anteriores que já mostravam ser de 56 anos a media de vida dos infectados.

 

Fonte: Hepatology 47(4): 1128-1135. April 2008 - M Wise, S Bialek, L Finelli L, Bell BP, et al. Changing trends in hepatitis C-related mortality in the United States, 1995-2004.

 

A LISTA DA VERGONHA! - OS MORTOS PELA OMISSÃO NAS HEPATITES com os nomes e idade dos mortos em Brasil, ( http://www.hepato.com/vergonha/vergonha.htm ) apresenta, também, uma media de 56 anos.

 

 

 

5 - Articulação com a Sociedade Civil

“Um problema ignorado mil vezes acaba desaparecendo”

(Variante da Lei de Joseph Goebbels empregada durante o Nazismo, o qual ensinava que “Uma mentira repetida mil vezes vira verdade”)

 

O Programa Nacional de Hepatites muito fala em “ARTICULAÇÃO” com a sociedade civil, mas então porque nunca atendeu, entre varias outras, as seguintes reivindicações realizadas pelas ONGs:

 

- Revisão do Conceito de Hepatopatia Grave (2001/2005) o qual após conseguirmos as Leis o próprio programa fez um absurdo conceito (pé na cova), e praticamente ninguém consegue a aposentadoria;

 

- Em 2004 - 29 ONGs solicitam oficialmente apoio e participação do MS na campanha do mês de maio sem conseguir nenhuma resposta;

 

- Em 2005 - 35 ONGs solicitam oficialmente apoio e participação do MS na campanha do mês de maio sem conseguir nenhuma resposta;

 

- Em 2006 - 44 ONGs solicitam oficialmente apoio e participação do MS na campanha do mês de maio sem conseguir nenhuma resposta;

 

- Em 2007 - 51 ONGs solicitam oficialmente apoio e participação do MS na campanha do mês de maio sem conseguir nenhuma resposta;

 

- Em 2008 - 54 ONGs e 4 sociedades médicas solicitam oficialmente apoio e participação do MS na campanha do mês de maio recebendo ``oficialmente`` um tremendo NÃO;

 

- Desde 2004 reivindicamos a atualização dos protocolos da hepatite B (novos medicamentos) e da hepatite C (restrições de acesso a metade dos infectados desde 2007);

 

- Sempre reivindicamos campanhas de alerta, informação e testagem, mas nunca foram realizadas;

 

- Nunca foram atendidas as principais e mais importantes reivindicações dos ENONGs realizados desde 2002;

 

Etc., etc., etc...........................................

 

Vemos que no discurso se fala em articulação com a sociedade civil, mas na pratica o que a sociedade civil necessita e reivindica não e atendido, nem sequer considerado.  Uma coisa e o discurso das entrevistas falando que a sociedade civil e parceira, outra, e a pratica que presenciamos no dia a dia, muito diferente ao discurso.

 

 

 

6 - As 12 metas para o Governo assinar e implementar até 2012

 

Estas foram as 12 metas (um verdadeiro programa de hepatites) apresentadas por 56 ONGs e quatro sociedades medicas em audiência no mês de março, mas respondem por oficio que não seriam aproveitadas.  Assim, continuamos tendo uma “carta de intenções” e não um programa com metas planejadas de ações e crescimento no enfrentamento das epidemias.

 

Qualquer leigo poderá observar que as 12 metas se constituem num verdadeiro programa de hepatites a cinco anos de prazo para ser realizado, com metas quantificáveis progressivas ano a ano, com a união de governo, sociedades médicas, sociedade civil e ate fabricantes.

 

O atual programa de hepatites não possui metas, assim não pode planificar atividades nem orçamento, daí a sua inanição.  Porque o governo não quer um verdadeiro programa de hepatites?

 

Veja quais são as 12 metas:

 

1) Reconhecimento que as hepatites B e C representam o maior desafio na saúde pública merecendo atenção urgente do governo, passando a ser incluídas e consideradas uma política estratégica de  Saúde, na Lei de Diretrizes Orçamentárias, Lei Orçamentária Anual, Plano Plurianual, Plano Nacional de Saúde e Conselho Nacional de Saúde;

 

2) Compromisso do Ministério da Saúde em trabalhar estrategicamente no combate a epidemia, centralizando a aquisição de todos os insumos (testes e medicamentos) para tratamento das hepatites B e C;

 

3) Implementação de um cronograma de atualização dos valores dos procedimentos necessários para o diagnostico, acompanhamento e tratamento das hepatites B e C, incluindo todos eles na categoria FAEC ESTRATÉGICO;

 

4) Compromisso de atualizar anualmente os protocolos e portarias de tratamento conforme a melhor pratica internacional definida nos consensos médicos, discutidas em consultas públicas;

 

5) Compromisso de trabalhar junto à sociedade civil (ONGs), as sociedades médicas e os conselhos de saúde nos projetos, políticas e implementação das ações objetivando oferecer tratamento assistido e multidisciplinar;

 

6) Realização de duas campanhas por ano em radio, televisão, jornais e revistas objetivando divulgar a doença e reduzir o estigma e discriminação;

 

7) Divulgação publica da real e efetiva incidência e prevalência (notificação) das hepatites virais em cada município brasileiro;

 

8) Disponibilidade de testes de detecção gratuitos e anônimos em todas as cidades com mais de cem mil habitantes a partir do ano de 2009 e implementação de um cronograma progressivo para os próximos cinco anos com metas quantificáveis para testagem anônima das hepatites B e C em todos os postos de saúde e hospitais públicos;

 

9) Compromisso para disponibilizar as vacinas das hepatites A e B a toda a população, realizando campanhas anuais, com um cronograma progressivo de implementação até 2010;

 

10) Elaboração em 120 dias, em parceria com as ONGs e Sociedades Médicas, de um cronograma progressivo para os próximos cinco anos com ações e metas quantificáveis para reduzir a incidência e prevalência das hepatites B e C;

 

11) Elaboração em 120 dias, em parceria com as ONGs e Sociedades Médicas, de um cronograma progressivo para os próximos cinco anos com metas quantificáveis para reduzir as estatísticas de óbitos e transplantes por causa das hepatites B e C;

 

12) Elaboração em 120 dias, em parceria com as ONGs e Sociedades Médicas, de um cronograma progressivo para os próximos cinco anos com metas quantificáveis em relação ao aumento da infra-estrutura de atendimento e a quantidade de pacientes em tratamento nas hepatites B e C a cada ano.

 

 

Triste notícia para as hepatites                                                                   

Na sexta-feira 16 de maio, minutos antes do início da campanha, recebemos o Oficio informando que o Ministério da Saúde não participará da campanha

 

 

Não esperávamos aprovação das 12 metas de forma automática, mas a não adesão à campanha é uma clara demonstração de que o ministério da saúde não quer alertar ou informar a população sobre o grave problema que atinge a saúde de quase seis milhões de brasileiros.

 

Estes são os valores para as hepatites B e C constantes no orçamento da saúde para 2008 e confirmados no Oficio do ministério:

 

Ações de Vigilância Epidemiológica, R$. 8.200.000,00

Vacinação da hepatite B, R$. 17.088.000,00

Convênios com ONGs, R$. 840.000,00

Capacitação em Vigilância Epidemiológica, R$. 7.000.000,00

Kits Diagnósticos, R$. 20.300.000,00

Medicamentos, R$. 242.000.000,00

ORÇAMENTO TOTAL PARA 2008 DE R$. 295.428.000,00

 

Considerando que existem no Brasil entre 5 e 6 milhões de brasileiros infectados com as hepatites B e C, o valor previsto no orçamento para todo o ano de 2008 representa R$. 57,00 por infectado pelas hepatites.

 

Comparando com a AIDS, que reserva R$. 3.800,00 para cada infectado, um doente de AIDS vale para o Ministério da Saúde 66 vezes mais daquilo que vale um infectado pela hepatite.

 

 

7 - Respeitando o Artigo 5° da Constituição Federal

 

Um país não pode ser considerado socialmente justo e igualitário quando cidadãos recebem oportunidades diferentes no acesso universal igualitário aos cuidados fundamentais para a preservação da vida como é o direito a saúde.  Direito este que se encontra “no papel” inserido na Constituição Federal, mas no caso dos infectados pelas hepatites não se transforma num direito efetivo.

 

O Brasil esta simplesmente “sentado” acima de uma bomba viral cujo pavio encontra-se aceso, indiferente em relação às conseqüências que daí poderão advir.

 

 

8 - Podemos dormir tranqüilos?

 

Não realizar campanhas de alerta e detecção das hepatites B e C no Brasil pode acarretar mais de 1.000.000 de casos de cirroses nos próximos 10 anos. Se detectada precocemente, até 600.000 mortes poderão ser evitadas.

 

"Não saber é ruim, não querer saber é pior, mas não se preocupar com as conseqüências dessa omissão é imperdoável"

 

 

9 - Recomendações – O Futuro

 

-          No Mundo a WHA – World Hepatitis Alliance conseguiu reunir todas as sociedades médicas, as mais diversas ONGs, todos os fabricantes, a Organização Pan-americana da Saúde, diversos governos de países socialmente responsáveis com a saúde e já conta com o beneplácito da Organização Mundial da Saúde, a qual na próxima assembléia geral estará oficializando o dia 19 de maio como Dia Mundial da Hepatite, o que vai dar maior visibilidade as hepatites.  Com maior visibilidade os governos serão obrigados a realizar ações de combate a epidemia e oferecer tratamento a quem precisa.

 

-           No Brasil a Aliança entre os quatro atores: Sociedades Médicas, Sociedade Civil, Fabricantes e Governo não foi aceita pelo ministério da saúde, mas é importante ressaltar que se os quatro atores diretamente envolvidos no assunto não trabalhar juntos a luta contra as hepatites será perdida.  O governo deve ter a humildade para aceitar esse fato e não continuar com ações ineficazes, motivo pelas quais estão morrendo milhares de infectados.

 

-          Estados e Municípios estão começando a adaptar o Plano das 12 metas o qual se transforma em verdadeiros programas locais para enfrentar a epidemia.  Parabéns aos gestores locais que estão tomando essa atitude.



Carlos Varaldo
Grupo Otimismo













Last updated 16.8.2008